A melhor campanha da história da Portuguesa em Campeonatos Brasileiros completa 20 anos nesta quinta-feira. Foi em um dia 15 de dezembro, em 1996, que Grêmio e Portuguesa decidiram o título brasileiro daquele ano, no estádio Olímpico. Uma oportunidade única, histórica, de ver a Portuguesa conquistar uma taça daquela magnitude. Mais do que isso, o clube do Canindé viveu uma chance de ter muito mais investimento, mas a oportunidade se esvaiu assim como aquele torneio, vencido pelo Grêmio.

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O campeonato da Lusa não tinha sido tão impressionante. Vale lembrar que naquela época, o Brasileirão era disputado em turno único de todos contra todos, com os oito melhores times classificados ao mata-mata. Eram 24 clubes na primeira divisão e, portanto, 23 rodadas nesta primeira fase. Os verderrubros chegaram ao último compromisso precisando de um milagre para se classificar.

Para ficar com o oitavo lugar, a Portuguesa precisava vencer o Botafogo em Curitiba – sim, o time perdeu mando de campo depois que a torcida atirou objetos no campo em um jogo contra o Vitória – e ainda torcer para que Internacional, São Paulo e Sport não vencessem seus jogos. O Internacional perdeu do rebaixado Bragantino no estádio Marcelo Stefani, 1 a 0; o Sport perdeu do Palmeiras no Palestra Itália por 4 a 1; e o São Paulo só empatou com o Paraná por 1 a 1. A Portuguesa venceu por 4 a 1. Classificada, ali, na bacia das almas.

No mata-mata, a Portuguesa voou. No primeiro jogo, fez um placar de 3 a 0 implacável no Cruzeiro jogando no Morumbi. Cruzeiro, aliás, que foi o primeiro colocado na fase de classificação. Acabou atropelado. No jogo de volta, a Raposa até venceu, 1 a 0 no Mineirão, mas não foi suficiente. A Lusa avançou.

Na semifinal, o adversário era outro mineiro: o Atlético. Em casa, um placar apertado: vitória da Lusa por 1 a 0 no Morumbi, graças a um gol de Alex Alves. O baiano, aliás, foi destaque naquele mata-mata, conseguindo dois gols contra o Cruzeiro na fase anterior. A partida de volta foi um jogaço. Um 2 a 2 eletrizante, com gols de Alex Alves e Caio para os paulistas e Renaldo e Euller para os mineiros. Classificação para a Lusa.

A finalíssima era contra o Grêmio copero. No Morumbi, um resultado enorme: 2 a 0 no Morumbi, graças a gols do volante Gallo e do craque do time, Rodrigo Fabri. Naquele dia, São Paulo – e parte do Brasil – abraçou a Lusa. Era o time pequeno contra um grande campeão do outro lado. O Grêmio tinha conquistado a Libertadores em 1995, era um clube com experiência e muito mais craques.

Zé Roberto, que era lateral esquerdo na primeira fase, foi deslocado definitivamente para o meio no mata-mata, com a entrada de Carlos Roberto para a lateral. O meia Zinho, titular na maior parte da campanha, acabou perdendo a vaga no time. Zé, no meio, foi um dos melhores do time. Tornou a Portuguesa muito melhor. Só que naquele jogo de ida na final, jogado na quarta-feira, dia 11, à noite, a Portuguesa esteve nervosa em campo.

Conseguiu marcar os dois gols, um no primeiro e outro no segundo tempo, mas viu o Grêmio desperdiçar chances com Zé Alcino. Com menos nervosismo, talvez a Lusa conseguisse mais. A torcida, no fim do jogo, gritava “é campeão” – algo que nunca, nunca, nunca, nunca é recomendável. Gritar campeão no primeiro jogo de uma final é sempre perigoso.

O jogo de volta, porém, foi uma tristeza para o torcedor da Lusa. Em Porto Alegre, a equipe verderrubra jogou bem, teve chances, duas delas nos pés do seu camisa 10, o atacante Rodrigo Fabri, mas ele desperdiçou. O Grêmio não desperdiçaria. Paulo Nunes abriu o placar no primeiro tempo. No segundo, já no desespero dos 39 minutos do segundo tempo, conseguiu o gol com Aílton, depois de uma rebatida do zagueiro César. Gol do Grêmio, que acabou sendo do título. Tirou da Portuguesa a chance de, enfim, sagrar-se campeã de um título grande como aquele.

O quase da Cirio

A Portuguesa viu escapar por entre os dedos a chance de título, mas também sentiu a dor de não conseguir capitalizar o momento. A Cirio, empresa italiana, estava com representante no Brasil para fazer uma parceria com a Lusa. Quem estava no país era justamente Sergio Cragnotti, presidente da Cragnotti & Partners. A ideia especulada era de uma co-gestão, nos moldes do que se viu no Palmeiras com a Parmalat. Em janeiro, porém, o executivo italiano negou que seria assim, ao menos em princípio.

Basta lembrar que a Cirio foi a responsável por montar um dos maiores times da história da Lazio. Entre 1997 e 2001, a equipe papou títulos na Itália e na Europa: ganhou a Recopa (1998/99), Supercopa Europeia (1999), Campeonato Italiano (1999/00), Copa da Itália (1997/98 e 1999/00), duas vezes da Supercopa da Itália (1998 e 2000). O dinheiro da Cirio tornou possível que os biancocelesti tivessem craques como Marchegiani, Peruzzi, Nesta, Mihajlovic, Stankovic, Almeyda, Simeone, Roberto Mancini, Verón, Nedved, Marcelo Salas, Claudio López, Alen Boksic, Christian Vieri e Hernán Crespo. Isso para citar só alguns.

A ideia de Cragnotti era uma parceria importante com a Lusa, estampando marcas do grupo na camisa. No início seria a Bombril, que pertencia à holding italiana, para depois colocar a Cirio, que passaria a operar no Brasil em 1998. A negociação esquentou em janeiro de 1997. A empresa teria publicidade no estádio da Portuguesa também.

O princípio da proposta partia do interesse em alguns jogadores. Zé Roberto, disse Cragnotti à Folha na época, interessava à Lazio. Rodrigo Fabri também. Eram os dois melhores jogadores do time. A Placar de fevereiro de 1997 dizia que a parceria com a Cragnotti & Partners renderia US$ 250 mil mensais e ainda participaria da contratação de jogadores e pagamento dos salários.

Só que os dois acabariam vendidos ao Real Madrid. Zé Roberto foi o primeiro, ainda na metade de 1997, por US$ 6,2 milhões. Ele já tinha um pré-contrato com o clube espanhol, o que já começou a melar a ideia com a Cirio. A Lazio estava seriamente interessada em Fabri e colocou a co-gestão como possibilidade para seduzir a Lusa a ceder o jogador ao clube italiano. Só que a Portuguesa também já tinha vendido Rodrigo Fabri ao Real Madrid. O contrato estava assinado e não teve como desfazer. O acordo de co-gestão ruiu. Na Espanha, Fabri foi um retumbante fracasso. Curiosamente, tanto Zé Roberto quanto Rodrigo Fabri acabariam defendendo o Grêmio anos depois.

Com o time que a Lusa tinha, contar com um investimento pesado faria do clube muito forte e muito provavelmente ficaria mais perto de títulos. O sonho era seguir os passos do que a Lazio conseguia na Itália. Os italianos acabaram patrocinando o São Paulo, ainda que não no modelo de co-gestão, mas tendo prioridade de contratação e ajudando o tricolor paulista em algumas contratações.

Gerou até uma certa polêmica, porque a marca Cirio – que tinha verde no logo, algo que incomodou parte da torcida do time do Morumbi. O grupo Cirio acabaria decretando falência em 2002, gerando inclusive processo criminal contra Cragnotti. Foi acusado de fraude no processo de falência da empresa, que acabaria repassada a outro grupo.

A essa altura, a Portuguesa provavelmente estaria em um outro patamar. Desde então, a Portuguesa passou por bons momentos naquele final de anos 1990, início dos anos 2000. Mas a gestão, que já era ruim na alta, causou sérios danos na baixa. A Portuguesa foi ruindo administrativamente e em campo, culminando na queda para Série D neste ano de 2016. Um cenário que os torcedores não esperavam naquele dezembro de 1996. Há 20 anos.