O dia 28 de março de 1993 é uma data santa à torcida da Roma. Afinal, naquela ocasião, o lendário Vujadin Boskov fez uma aposta que, certamente, não tinha noção das proporções que atingiria: lançou Francesco Totti, prodígio de 16 anos, no time principal dos romanistas. O adolescente permaneceu em campo por apenas três minutos, ao final da vitória por 2 a 0 sobre o Brescia, no Estádio Mario Rigamonti. E o que não deveria ser um jogo exatamente lembrado acabou se tornando marco de uma das maiores histórias de amor entre um jogador e um clube. O Capitano ainda demoraria um bocado para se firmar, ganhando um pouco mais de espaço sob as ordens de Carlo Mazzone. Ainda teria períodos de provação, como na época de Carlos Bianchi. Mas, reinando a partir da chegada de Zdenek Zeman, logo se confirmaria como o imperador prometido à nação giallorossa.

É curioso, porém, olhar o jogo de estreia além de Totti. Eram times sem muitas ambições na tabela, com a Roma ocupando a nona colocação e o Brescia na zona de rebaixamento, antepenúltimo do campeonato. Ainda assim, em tempos abastados da Serie A, ambas as escalações possuíam os seus craques. O xodó romanista do momento era Giuseppe Giannini, antecessor de Totti no talento e na idolatria. Aldair comandava a defesa, que ainda tinha na meta o goleiro Giovanni Cervone, de longa estadia no clube. E mesmo os autores dos gols eram célebres: Claudio Caniggia abriu o placar de cabeça, enquanto Sinisa Mihajlovic cobrou falta com precisão para ampliar. Já o Brescia vivia a sua “era romena”, sob o comando de Mircea Lucescu. Diante do limite a estrangeiros, o clube confiava no trio formado por Gheorghe Hagi, Florin Raducioiu e Ioan Sabau – os dois primeiros, prontos para fazer história meses depois, na Copa do Mundo de 1994.

Totti entrou em campo no lugar de Ruggiero Rizzitelli, parceiro de Caniggia no ataque. Revelado pelo Cesena, despontou em 1988, defendendo a seleção italiana na Eurocopa e nos Jogos Olímpicos. Logo se tornou uma aposta da Roma, contratado com apenas 21 anos. Não conseguiu estabelecer carreira com os azzurri, mas desfrutou de certo prestígio na capital, apelidado de “Rizzigol”. Embora não fosse exatamente um artilheiro, servia bem como um atacante versátil, que complementou Rudi Völler no time que conquistou a Copa da Itália em 1991 e foi vice da Copa da Uefa. Acumulou 54 gols em 208 partidas, negociado com o Torino em 1994. Ainda teria uma breve passagem pelo Bayern de Munique, nos tempos de Giovanni Trapattoni.

Já Totti participaria de mais um jogo naquela temporada da Serie A. Duas rodadas depois, substituiu Roberto Muzzi (outra promessa romanista, cinco anos mais velho que o Capitano) nos instantes finais do empate por 1 a 1 contra o Ancona, também fora de casa. A estreia no Estádio Olímpico aconteceu apenas em outubro de 1993, saindo do banco em vitória sobre o Padova na Copa da Itália. Dois meses depois, foi titular pela primeira vez, em jogo válido pela mesma competição, contra a Sampdoria. Ganharia espaço e seria utilizado de diversas vezes no segundo turno da Serie A 1993/94, acumulando oito partidas. O início de uma caminhada inesquecível, que durou mais 785 partidas.