* Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Momento definitivo para o início da construção de uma nova identidade para o Real Madrid, a conquista do Campeonato Espanhol 1985/86 pelo clube completa 30 anos nesta quarta-feira. O título, confirmado com uma vitória de 2 a 1 sobre o Valladolid no estádio Santiago Bernabéu, encerrava um jejum de seis anos sem conquistar a Liga (quase sempre com derrotas traumáticas na última rodada) e iniciava um domínio madridista no cenário doméstico até o fim da década. Mas, mais do que isso: também revelava uma nova e audaciosa fornada de talentos para a galeria de ícones do clube, a chamada “Quinta del Buitre”, e permitia ao Real Madrid se reinventar como instituição, num momento em que a própria capital espanhola e o país passavam a respirar ares renovados, depois da transição da ditadura franquista (comumente associada aos merengues, mas fortemente presente na administração do futebol espanhol como um todo entre as décadas de 1940 e 1970) para a democracia.

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O mês de maio de 1985 marca a chegada de Ramón Mendoza à presidência do Real. Formado em Direito e Economia, empresário de sucesso especializado em comércio exterior, além de bem relacionado, midiático e com gosto pela badalação, era bem diferente de seu conservador antecessor Luís de Carlos (franquista roxo e sucessor de Santiago Bernabéu na presidência quando da morte deste em 1978). O novo mandatário transitava habilmente entre os mais distintos espectros da direita e da esquerda e se declarava “politicamente independente”. Na década de 1960, dedicou-se ao intercâmbio comercial com a União Soviética num período em que o país sequer mantinha relações diplomáticas com a Espanha, o que, na opinião dele, foi um dado fundamental para o fracasso de sua primeira tentativa de concorrer à presidência do clube, em 1982, quando foi rechaçado pelos velhos cartolas madridistas, que chegaram a tachá-lo de “espião comunista”.

real madrid - juanito e o presidente ramon mendoza

No processo entre a campanha eleitoral e a posse no cargo, depois de vencer as eleições como candidato único, Mendoza encontrou o clube vivendo momento bastante turbulento, mas com futuro promissor. Tudo começou um ano antes, em maio de 1984, quando o Real, então treinado pelo ex-ídolo Alfredo Di Stéfano, perdera o título espanhol na última rodada – pelo quarto ano consecutivo – para o Athletic Bilbao. Enquanto isso, na Segunda Divisão, o troco vinha com a conquista histórica e inédita do Castilla, clube filial madridista, deixando o Bilbao Athletic em segundo lugar. Treinava o Castilla o ex-meia Amancio Amaro, craque do time merengue apelidado “Yé-Yé” (algo como o nosso “iê-iê-iê” dos tempos da Beatlemania) que levantou a Liga dos Campeões de 1966. Naquele elenco do clube filial que conquistou a Segundona, causando sensação, despontavam nomes como o goleiro Ochotorena e o lateral Francis, mas principalmente o grupo de jogadores apelidado na época (e para a história) de Quinta Del Buitre: o zagueiro Manolo Sanchís; os meias Michel e Martín Vázquez; o ponta Pardeza e o atacante Emilio Butragueño – este, o próprio “El Buitre” que originou o apelido, jogador de drible insinuante, rápido e oportunista, um verdadeiro tormento para as defesas. Com o título, Amancio foi promovido ao posto de técnico do Real Madrid, levando consigo vários dos jovens que treinava.

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Entretanto, o sucesso não foi imediato, muito menos fácil. Derrotado por 3 a 0 pelo Barcelona em pleno Santiago Bernabéu logo na primeira rodada, o Real esteve bem longe do título da Liga durante toda a temporada 1984/85 (conquistada pelos catalães, nadando de largas braçadas, após um jejum de 11 anos). Também foi eliminado logo cedo na Copa do Rei. E Amancio caiu em abril, depois de enfrentar problemas de relacionamento com alguns jogadores e até mesmo casos de indisciplina após uma derrota de 2 a 0 para a Internazionale na Itália, resultado que quase arruinou também outra grande ambição dos merengues para a temporada: a Copa da Uefa. “Quase” porque aquele time se especializou em reverter resultados ruins, ou mesmo desastrosos, em torneios mata-mata. Antes, já havia passado pelos iugoslavos do Rijeka perdendo por 3 a 1 no jogo de ida e vencendo a volta por 3 a 0. Também já havia perdido de 3 a 0 para o forte time do Anderlecht na Bélgica, mas se vingado com uma memorável goleada de 6 a 1 no Bernabéu. E havia derrotado outro bom time, o do Tottenham, por 1 a 0 em Londres antes de segurar um empate sem gols na capital espanhola. Para o lugar de Amancio, veio Luís Molowny, outro ex-craque madridista dos velhos tempos (disputou a Copa de 1950 no Brasil pela Fúria), e o Real venceu a Inter por 3 a 0 na partida de volta do Santiago Bernabéu, conquistou a Copa da Uefa diante da surpresa húngara Videoton na final, e na sequência venceria ainda a Copa da Liga espanhola, com “remontadas” sobre Barcelona, Sporting Gijón e Atlético de Madrid.

Tudo isso serviu de preâmbulo para a temporada 1985/86, que marcaria a chegada de Ramón Mendoza à presidência merengue, o fim do jejum do Real na liga e a afirmação definitiva da Quinta del Buitre. Aquela geração que surgia simbolizava ainda uma espécie de vertente futebolística de um renascimento social e cultural vivido pela capital espanhola (e posteriormente por todo o país) nos anos de abertura política. O espírito da chamada movida madrileña, movimento que libertou e renovou as artes na Espanha a partir do começo dos anos 1980 (não só no cinema, que teve em Pedro Almodóvar um de seus nomes mais emblemáticos no início, como também na música, literatura, teatro, artes plásticas e gráficas e até nos quadrinhos), foi plenamente incorporado ao estilo de jogo da equipe. “Nós éramos jovens de Madri que compartilhávamos uma visão semelhante sobre como o futebol deveria ser jogado – nós queríamos que fosse valente e ofensivo – e nós nos víamos como parte do que estava acontecendo na Espanha, mais amplamente na época, parte de uma geração que queria mudanças e estava preparada para correr riscos”, lembrou o zagueiro Manuel Sanchís ao jornalista Jimmy Burns no brilhante livro La Roja – How soccer conquered Spain and how Spanish soccer conquered the world.

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Além dos jovens promissores e dos jogadores mais experientes e de alta categoria que ainda compunham o elenco – como os laterais Chendo e Camacho, os meias Gallego e San José, o ponta argentino Valdano e os atacantes Juanito e Santillana -, a chegada de Mendoza trouxe três grandes reforços: o líbero Antonio Maceda, do Sporting Gijón; o ala esquerda Rafael Gordillo, do Bétis (ambos da seleção espanhola) e o mais controvertido de todos, o centroavante mexicano Hugo Sánchez, artilheiro da liga na temporada anterior e tirado do rival Atlético de Madrid, usando o Pumas UNAM como intermediário. A torcida do Real chegou a protestar contra a compra do atacante, o qual ocuparia uma das vagas de jogador estrangeiro em substituição ao defensor alemão Uli Stielike, desde 1977 no clube, onde era muito querido e um dos líderes da equipe, mas que não teve seu contrato renovado e tomou o rumo do futebol suíço (a fartura de gols marcados pelo novo reforço, no entanto, fez os madridistas logo mudarem de opinião). A saída de Stielike, aliás, foi a principal da faxina feita no elenco no início da temporada, com a dispensa de vários jogadores que não conseguiram se firmar, o que também ajudou a dar coesão ao grupo de jogadores.

real madrid - time posado 85-86

O time base tinha, portanto, o jovem Ochotorena no gol. Nas laterais, os valentes Chendo pela direita e Camacho pela esquerda. A zaga, bastante técnica, era formada por Maceda, forte no jogo aéreo e autor de gols importantes, e Sanchís, defensor elegante, inteligente na antecipação e habilidoso na saída de bola – além de filho de um ídolo histórico, Manuel Sanchís, uma das referências na conquista da Champions de 1966. O meio tinha Michel, com seu futebol clássico, de cabeça erguida, toque refinado e chute poderoso, pelo lado direito; o versátil Gallego, que chegou a atuar na zaga em alguns jogos, armava e destruía pelo centro; e Gordillo era raça e velocidade pelo flanco esquerdo. Na frente, a dupla infernal Butragueño e Hugo Sánchez tinha o auxílio de Valdano pela ponta esquerda. No banco havia ainda Martín Vázquez, meia dinâmico; o velho ídolo Juanito, que dera início a uma dinastia da camisa 7 merengue; e Santillana, centroavante experiente e exímio cabeceador.

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Com eles, a campanha na liga 1985/86 correu em céu de brigadeiro, sem que o título estivesse ameaçado em nenhum momento. Já na segunda rodada o time mostrava suas credenciais ao golear o Valencia por 5 a 0. Em fins de março de 1986, era inalcançável: após a derrota para o Valladolid fora de casa por 3 a 2 no primeiro turno, a equipe emendou uma sequência de 16 vitórias e um empate nas próximas 17 rodadas (um turno completo), culminando no triunfo por 2 a 1 sobre os mesmos vallisoletanos no jogo do título antecipado, no dia 23 daquele mesmo mês. Foi uma das taças levantadas mais cedo na história do Campeonato Espanhol (graças, em parte, também ao fato de o calendário da temporada ter antecipado seu fim para a última semana de abril, um mês antes da Copa do Mundo do México, visando facilitar a preparação da seleção). Ao final, 26 vitórias, quatro empates e quatro derrotas (duas delas nas últimas rodadas, quando já era campeão e escalou times mistos). Em casa, bateu todos os adversários.

No começo de maio, o sucesso na liga foi acompanhado do bicampeonato na Copa da Uefa, dessa vez diante do bom time do Colônia alemão com goleada de 5 a 1 no jogo de ida na capital espanhola e derrota por 2 a 0 na casa do adversário. E ao longo da campanha, só para não perder o hábito, pelo menos duas outras “remontadas” épicas: nas oitavas, derrota de 5 a 1 para o Borussia Mönchengladbach na Alemanha revertida com um 4 a 0 no Santiago Bernabéu e a classificação graças ao golzinho salvador de Gordillo na ida. E nas semifinais, novamente contra a Inter de Milão, um revés de 3 a 1 na Itália foi devolvido pelo mesmo placar no tempo normal e somado a dois outros gols de Santillana na prorrogação, perfazendo humilhantes 5 a 1 (pela quarta vez em seis temporadas os nerazzurri caíam diante do Real Madrid em uma copa europeia). No final daquele mês, aquele Real Madrid cederia nada menos que sete jogadores à seleção espanhola, formando a base da Fúria que faria bom papel na Copa do Mundo do México, na qual Butragueño seria o principal destaque.

Nas temporadas seguintes, o elenco seria reforçado por nomes como o goleiro Buyo (ex-Sevilla), o zagueiro Tendillo (ex-Valencia, mas vindo de uma temporada pelo Murcia), o meia alemão Bernd Schuster (ex-Barcelona) e mais adiante os zagueiros Hierro (ex-Valladolid) e o argentino Ruggeri (ex-Logroñés). Além de peças importantes na composição do elenco vindas da cantera, como o defensor Jesús Solana, o ponta Francisco “Paco” Llorente (sobrinho do lendário “El Supersónico” Gento) e o atacante Sebastián Losada, destaque da Espanha derrotada pelo Brasil na decisão do Mundial de Juniores de 1985. Com estes jogadores, o clube enfileirou cinco ligas consecutivas, estabelecendo marcas expressivas. Em 1987, mostrou fôlego ao ganhar o Espanhol mais longo da história (34 jogos da fase de pontos corridos, mais dez em uma liguilla pelo título). Dois anos depois, além de fazer o doblete com a conquista da Copa do Rei, foi campeão com apenas uma derrota, igualando feito obtido no período pós-Guerra Civil apenas pelos próprios merengues em 1969 e posteriormente, pelo Barcelona em 2010. Por fim, na temporada 1989-90 anotaria nada menos que 107 gols, 38 deles de Hugo Sánchez, empatando com o recorde de Telmo Zarra, do Athletic Bilbao, estabelecido em 1950, e superado apenas em 2011 por Cristiano Ronaldo.

Hegemônico no país, a este Real Madrid escapou no entanto o título da Liga dos Campeões, embora durante toda aquela segunda metade da década de 80 tenha sido frequentemente apontado como um dos poucos times europeus a enfrentar em pé de igualdade as potências da milionária Série A italiana. Não à toa, por duas temporadas seguidas os merengues despacharam os campeões da Bota logo nas primeiras fases da competição europeia – nada menos que a Juventus de Platini e Laudrup, em 1986/87, e o Napoli de Maradona e Careca, em 1987/88. Esta última temporada foi a chance desperdiçada mais lamentada pelos madrilenhos, já que a campanha foi quase irretocável jogando só contra pesos pesados: depois de eliminarem os partenopei logo de cara, passaram pelo Porto e pelo Bayern de Munique (respectivamente, campeão e vice da edição anterior), antes de cair nas semifinais diante do PSV Eindhoven nos gols fora de casa após dois empates (1 a 1 no Bernabéu e 0 a 0 na Holanda). Nas duas participações seguintes, entretanto, não foram páreo para o quase perfeito Milan de Arrigo Sacchi. Ainda assim, o Real da Quinta del Buitre é reverenciado até hoje pelo punhado de grandes jogadores que revelou e lembrado como uma das equipes mais fortes a jamais ter tido a sorte de levantar a principal taça do continente.

real madrid - copa da uefa 86