Há jogos de Copas do Mundo que servem para criar lendas. Um deles aconteceu há exatos 30 anos. A Dinamarca de Sepp Piontek vinha fazendo fama desde a Euro 1984, quando caiu apenas nas semifinais. Porém, o desempenho dos nórdicos na primeira fase do Mundial de 1986 foi assombroso: três vitórias em três partidas, com nove gols marcados e apenas um sofrido. Isso tudo no chamado “grupo da morte”. E o ápice aconteceu em 8 de junho de 1986, no gramado do Estádio Neza 86, com a goleada por 6 a 1 sobre o Uruguai. Ali a Dinamáquina atingia a sua combustão máxima.

A estreia da Dinamarca já tinha sido notável, batendo a Escócia de Alex Ferguson por 1 a 0. E o Uruguai se indicava um desafio tão grande quanto, até pelo bom momento dos charruas. A Celeste vinha da conquista da Copa América de 1983 (e buscaria o bicampeonato em 1987). Em campo, apesar do desfalque de Rodolfo Rodríguez, contava com nomes da estirpe de Francescoli, Saralegui, Alzamendi e Diogo. E mesmo assim os uruguaios acabaram engolidos pelo timaço dinamarquês.

Sepp Piontek é considerado um dos maiores revolucionários do futebol, não sem motivos. Ele consagrou o 3-5-2, tirando um homem da defesa para rechear o meio de campo. Mas não dava para esperar uma equipe retrancada, muito pelo contrário. Aquela Dinamarca primava pelo bom toque de bola e jogadores talentosíssimos servindo de engrenagem à máquina. O líbero e capitão era Morten Olsen, que se tornaria herdeiro da prancheta de Piontek de 2000 a 2015. O meio-campo dispunha da qualidade de Soren Lerby, Frank Arnesen e Jesper Olsen (que começou no banco contra os uruguaios), renomados e entrosados juntos no Ajax. Na armação, uma promessa: o jovem Michael Laudrup, às vésperas de completar 22 anos, mas já se destacando no Calcio com a camisa da Juventus. O grande astro, contudo, era outro: Preben Elkjaer, atacante fantástico do Verona campeão italiano em 1985, que tinha ficado no pódio da Bola de Ouro nos dois anos anteriores.

E foi exatamente Elkjaer quem comandou o massacre em Nezahualcóyotl. Após grande lance de Michael Laudrup, o atacante abriu a contagem aos 11 minutos, sete antes de Miguel Bossio ser expulso e facilitar o serviço aos dinamarqueses. Elkjaer serviu e Lerby aumentou a conta aos 41, enquanto Francescoli descontou de pênalti, aos 45. Já no segundo tempo é que o atropelamento se deu: Elkjaer balançou as redes mais duas vezes, enquanto Laudrup (no gol mais bonito da tarde, em belíssima jogada individual) e Jesper Olsen (com nova assistência de Elkjaer) também deixaram os seus. Mais do que o placar, valeu a forma, o futebol deslumbrante, as trocas de passes envolventes. Parecia impensável que o time uruguaio saísse de campo olhando para o 6 a 1 no placar – e que não acabasse com nenhum outro expulso, após descer o pé. Mas aconteceu.

A Dinamarca ainda venceria a Alemanha Ocidental cinco dias depois, por 2 a 0. No entanto, quando já começava a ser cotada entre os favoritos, se despediu da Copa de maneira vexatória nas oitavas de final: 5 a 1 para a Espanha, de virada, com quatro gols de Emilio Butragueño. Ainda assim, não reduziu a reputação conquistada pela Dinamáquina. Já Elkjaer terminou eleito o terceiro melhor jogador do Mundial, muito por conta de sua partidaça contra o Uruguai.