Vanderlei Luxemburgo é o nome mais lembrado quando se fala sobre um técnico que saiu do futebol brasileiro diretamente para assumir um gigante europeu. Após grandes sucessos por Cruzeiro e Santos, o ‘professor’ foi escolhido para tentar domar os galácticos do Real Madrid. O carioca não foi tão mal em seu primeiro semestre, mas o início oscilante na Liga 2005/06 custou seu emprego. O que pouca gente sabe é que Luxa não foi o primeiro técnico a ser buscado pelos merengues no Brasil. O pioneiro teve a chancela de Santiago Bernabéu, assim como a honra de treinar Di Stefano, Puskás, Santamaría e Gento.

Manuel Fleitas Solich nasceu em 1900, em Assunção. Craque do Nacional Querido durante a década de 1920, o meio-campista foi bicampeão paraguaio. Atraiu a atenção do Boca Juniors, onde também fez história e levantou quatro vezes a taça do Campeonato Argentino. E sua visão de jogo não fazia diferença apenas quando tinha a bola no pé. Ainda no auge da carreira, de 1922 a 1929, Fleitas Solich acumulou as funções de jogador e treinador da seleção do Paraguai. Levou o time a dois vice-campeonatos da Copa América, mas teve que sair meses antes da Copa de 1930, justamente por sua ida ao Boca.

O excelente currículo precoce permitiu que ‘El Brujo’ ganhasse espaço rapidamente como técnico. Passou por diversos times argentinos e paraguaios, incluindo Olimpia, Libertad, Newell’s Old Boys e Huracán. Entretanto, seu grande orgulho era mesmo a seleção paraguaia. Sua quarta passagem pela albirroja foi a mais duradoura, entre 1947 e 1953. Inclusive, participando da Copa de 1950, quando acabou eliminado na primeira fase. Seu grande feito, no entanto, foi contra o Brasil na Copa América de 1953. Os dois times terminaram empatados na tabela e a situação os obrigou a disputar um jogo-extra para decidir o título. Vitória da albirroja no Estádio Nacional de Lima por 3 a 2, contra uma seleção que tinha Djalma Santos, Nilton Santos, Didi, Baltazar e Julinho. O suficiente para Fleitas Solich chamar atenção dos brasileiros e ser levado a peso de ouro pelo Flamengo dez dias depois, substituindo Jaime de Almeida (o pai), que não tinha agradado na função que antes era de Flávio Costa.

Na Gávea, El Brujo fez história. Comandou a reformulação do elenco, fazendo fama pela capacidade de revelar jogadores como Dida, Evaristo e Zagallo. Com uma equipe jovem e rápida, dominou o futebol carioca, conquistando o segundo tricampeonato estadual do clube. Entre 1953 e 1959, dirigiu os rubro-negros por 366 partidas – que, somadas as suas outras duas passagens pelo clube, o tornam o segundo treinador com mais jogos na história da equipe. E sua fama chegou aos ouvidos de Santiago Bernabéu, presidente do Real Madrid, que tinha Otto Glória, então no Benfica, como plano B para o cargo.

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Solich era uma aposta de Bernabéu para rivalizar com o Barcelona, que ganhava terreno em La Liga. O argentino Luis Carniglia havia conquistado as duas últimas edições da Copa dos Campeões, mas permitiu que os rivais ficassem com a taça no torneio nacional em 1958/59. Uma campanha soberana dos blaugranas, sob as ordens do mítico Helenio Herrera. Nada melhor que, para concorrer com El Mago, chegasse El Brujo. O estilo sul-americano de jogar poderia melhorar ainda mais o futebol dos craques merengues.

O nome de Fleitas Solich no Brasil ajudou os merengues a contratarem o então “melhor jogador do mundo” (segundo os jornais da época), o meio-campista Didi. E, para compensar o insucesso nas negociações com o Palmeiras por Julinho Botelho, o Real Madrid também fechou com Canário, destaque do America. Junto com os reforços, o técnico levou uma mentalidade tática diferente ao Chamartín, utilizando o esquema 4-2-4 que ajudou a desenvolver no Brasil, com a linha defensiva formada por quatro homens.

Os números de Fleitas Solich em Madri não foram ruins, com 69% de aproveitamento. Com o esquadrão que tinham em mãos, o paraguaio manteve o Real Madrid na briga pela ponta de La Liga (por mais que seu começo tenha sido oscilante), além de colocar o time nas semifinais da Copa dos Campeões. O problema é que as condições físicas de seus craques não eram tão boas quanto se exigia, e  era apontada como razão a baixa carga de treinamentos aplicada pelo treinador – o oposto de Herrera, um pioneiro na preparação intensa de suas equipes. Já a falta de encaixe do esquema tático também era reclamada, sobretudo pela exposição da defesa. E a deixa para que o mundo desabasse na cabeça do comandante foi justamente uma derrota para o Barcelona: 3 a 1 no Camp Nou, com gols de Kocsis, Eulogio Martínez e Villaverde. Faltando quatro rodadas para o fim da campanha, os blaugranas igualavam a pontuação do Real na liderança do Campeonato Espanhol.

A partir de então, o título da Liga seria decidido nos detalhes. O critério de desempate era o ‘goal average’, a divisão entre os gols anotados pelos sofridos. E, embora o ataque comandado por Puskás e Di Stefano fosse ainda mais voraz que a linha de frente blaugrana, a defesa era menos segura. Solich venceu os três jogos seguintes, mas o Barcelona também. A diferença no goal average só tornava o título possível com um tropeço dos catalães ou com uma goleada por 14 a 0 sobre o lanterna Las Palmas – isso, é claro, se o Barça não fizesse mais do que 1 a 0 no Sevilla. Diante da pressão, Solich não quis pagar para ver, até porque o Barça era seu adversário nas semifinais da Champions.

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Fleitas Solich pediu demissão menos de duas semanas antes do jogo de ida contra o Barcelona. Elogiado por seu cavalheirismo, o paraguaio foi execrado por seu trabalho. Alguns cravavam que os métodos de treinamento sul-americanos, “onde se apostava mais no talento natural do que na preparação física”, eram incompatíveis na Europa. Ferenc Puskás chegou a chamá-lo de ‘sessentão’, já ultrapassado. Em seu lugar, assumiu Miguel Múñoz, lendário capitão merengue que se aposentara anos antes. Os madridistas venceram os dois clássicos por 3 a 1, se garantiram na decisão e ainda provocaram a demissão de Helenio Herrera – que, por barrar o ídolo Ladislao Kubala, atraiu a fúria da diretoria e da torcida. Em 18 maio, com a famosa vitória por 7 a 3 sobre o Eintracht Frankfurt, Múñoz conquistou o quinto título do clube na Copa dos Campeões, a primeira das 15 taças que levantaria nos 14 anos que passou no comando do Real.

Fleitas Solich voltou ao Brasil, recontratado pelo Flamengo. Conquistou o Torneio Rio São-Paulo, antes de se tornar outra vez treinador da seleção paraguaia. Também acumulou trabalhos por outros grandes clubes brasileiros, como o Corinthians, o Fluminense, o Palmeiras, o Atlético Mineiro e o Bahia, faturando um Paulista e dois Baianos. Sua última passagem pelo Flamengo foi em 1971, quando permaneceu no comando por apenas 39 jogos. Pouco, mas o suficiente para lançar no time principal um garoto franzino que era promessa nas categorias de base: ninguém menos do que Zico. Meses depois, El Brujo optou pela aposentadoria.

Após pendurar a prancheta, Fleitas Solich seguiu morando no Rio de Janeiro. Faleceu no dia 24 de março de 1984, há exatos 30 anos. Certamente satisfeito do legado que deixou ao futebol, ainda que não tenha aproveitado a maior oportunidade de sua vida.