Nesta semana, Uruguai e Argentina oficializaram as intenções de sediar a Copa do Mundo de 2030. Uma maneira de comemorar no berço dos Mundiais o centenário da primeira edição. Pois a celebração do torneio de 1930 não é inédita na bacia do Rio da Prata. Entre 1980 e 1981, o Uruguai voltou a receber grandes seleções para a realização do Mundialito, organizado pela própria Fifa – uma maneira de relembrar os 50 anos da primeira Copa. E a final aconteceu há exatos 35 anos, em clássico entre uruguaios e brasileiros que ainda aludia ao Maracanazo. Uma decisão que simbolizou a grandeza da Celeste, mas também a liberdade que os uruguaios reconquistavam nos últimos anos da ditadura militar.

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Seis países disputaram o Mundialito de 1980: cinco dos campeões mundiais até então (Alemanha Ocidental, Argentina, Brasil, Itália e Uruguai) e a Holanda, substituindo a Inglaterra, que declinou o convite. Divididas em dois grupos, as seleções jogaram a sério o torneio festivo, com seus principais jogadores. Uruguaios e brasileiros avançaram à final, após terminarem suas chaves na primeira posição – o time de Telê Santana empatou com os argentinos por 1 a 1, enquanto goleou os alemães por 4 a 1.

O Estádio Centenário recebeu a decisão com mais de 70 mil torcedores nas arquibancadas. E o Uruguai, treinado pelo veterano Roque Máspoli (o goleiro titular em 1950), conseguiu se impor sobre a Seleção de Sócrates, Júnior, Toninho Cerezo, Éder e parte do elenco que disputou a Copa no ano seguinte. A Celeste também contava com uma base forte, estrelada por Rodolfo Rodríguez, Hugo De León e Rubén Paz. Abriu o placar aos cinco minutos do segundo tempo, com Jorge Walter Barrios, embora tenha permitido o empate logo na sequência, em gol de Sócrates. Já aos 35, Waldemar Victorino se consagrou. O centroavante, que em 1980 já havia marcado os tentos do Nacional nos títulos da Libertadores e do Mundial Interclubes, venceu João Leite para deixar a taça com os anfitriões.

A cena mais marcante da conquista, porém, não aconteceu dentro do campo. Instaurada em 1973, a ditadura militar viu na oferta da Fifa em realizar o Mundialito uma chance de se promover. Afinal, aquele momento tinha suma importância aos generais: em 30 de novembro, o governo realizou um plebiscito para legitimar o governo cívico-militar e abolir a Constituição de 1967. Receberam o “não” de 57% da população, em um resultado histórico. Contudo, em um ambiente de medo, ninguém comemorou o resultado. Até a realização do Mundialito.

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O presidente Aparicio Méndez e outros membros da ditadura tiveram que engolir a seco os gritos da torcida ao fim da partida. “Se va acabar, se va acabar, la dictadura militar” era um cântico de libertação, que serviu de exemplo ao Brasil. Vivendo também um período de enfraquecimento, o regime militar brasileiro ainda tentou usar a participação da Seleção de maneira ufanista. Todavia, a imprensa aproveitou a brecha para recrudescer as críticas sobre a crise que se instaurava, sobretudo na economia. A derrota não pôde ser usada por nenhum dos lados, mas os jogadores presenciaram uma manifestação popular concreta no país vizinho.

Enquanto os gritos ecoavam no Centenário, a banda militar à beira do campo tentou abafa-los. No entanto, o presidente Méndez pediu para que os músicos parassem, já que estimulavam ainda mais os clamores da torcida. Depois disso, a ditadura perdurou por mais quatro anos no Uruguai, mas aquele momento acabou sendo decisivo para a abertura. Uma vitória dupla do Uruguai, de sua seleção e de seu povo.

Em 2010, um documentário sobre a história política do Mundialito foi lançado. Abaixo, o trailer: