Uma das histórias mais célebres de ascensão meteórica no futebol mundial, a transformação do Nottingham Forest de clube de meio de tabela da segunda divisão inglesa em um esquadrão bicampeão europeu pelas mãos do lendário técnico Brian Clough (e seu auxiliar Peter Taylor) em apenas três anos, passa fundamentalmente pela conquista da liga inglesa (a única da história do clube), que completa 40 anos neste domingo. Mesmo sem ter um elenco estelar, a equipe nadou de largas braçadas ao longo da competição, superando a forte concorrência das outras potências da época e o insistente descrédito da imprensa. E estabeleceu em âmbito doméstico uma campanha tão histórica quanto as continentais que viriam depois. E que será relembrada agora em detalhes.

O clube

Fundado em 1865, três anos depois do rival local Notts County (o time de futebol profissional mais antigo do mundo em atividade), o Nottingham Forest também desenvolveu, ao longo da história, rivalidades acirradas com dois dos principais clubes de cidades vizinhas da região de East Midlands: o Derby County e o Leicester City. Curiosamente, o Derby foi o rival derrotado na decisão que valeu ao clube o seu primeiro título, a FA Cup de 1898. Na segunda e última taça até onde a nossa história começa (a da edição de 1959 da mesma competição), o adversário batido na final em Wembley foi o Luton Town.

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Em suas 74 temporadas dentro da Football League até a de 1976/77, o Forest havia disputado igualmente 36 na primeira divisão e 36 na segunda, além de duas campanhas na terceira, bem na virada das décadas de 1940 e 1950. Seu único momento de brilho até então acontecera em 1966/67, quando o time dirigido por Johnny Carey e impulsionado pelos atacantes Joe Baker e Ian Storey-Moore foi vice-campeão, após disputar palmo a palmo o título com o Manchester United de Bobby Charlton, George Best e Denis Law.

Nas temporadas que se seguiram, porém, o clube voltou à metade inferior da tabela, até ser rebaixado outra vez em 1972. Na segunda divisão, patinou ao terminar em 14ª lugar na primeira campanha. Na segunda, melhorou um pouco e ficou em sétimo. Na terceira, vinha ocupando a 13ª posição no início de janeiro de 1975, mais próximo da degola do que do acesso. Incomodados com aquela pasmaceira, os dirigentes resolveram demitir o técnico escocês Allan Brown (ex-jogador do Luton naquela final de 1959) e contratar um nome que recentemente havia feito história na região. Um certo Brian Clough.

O técnico

Ex-artilheiro do Middlesbrough e do Sunderland, Clough iniciara sua carreira de treinador ainda jovem, aos 30 anos, pouco depois de ser forçado a pendurar as chuteiras por uma séria lesão. No Hartlepool, clube da quarta divisão, começou uma parceria duradoura com seu assistente Peter Taylor. Os dois aportariam pela primeira vez em East Midlands em 1967, para comandar o Derby. Dali a duas temporadas, colocariam os Rams na elite. E em 1972, levariam o clube ao seu primeiro título da liga – na mesma temporada em que o rival Nottingham Forest acabaria rebaixado.

Porém, a relação com Sam Longson, presidente do clube, era conflituosa: em outubro de 1973, depois de levar o clube à semifinal da Copa dos Campeões, Clough e Taylor pediriam demissão. Enquanto o cargo era ocupado por seu ex-jogador Dave Mackay (que, por ironia, treinava então o Forest), a dupla desceria de novo à quarta divisão, rumo ao Brighton. A passagem de Clough foi curta e desastrosa. Mas o pior foi romper com o velho parceiro, que preferiu continuar por lá, enquanto o treinador seria convidado para um salto e tanto: dirigir o Leeds, campeão inglês, que acabara de perder Don Revie para a seleção.

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Foi uma passagem anedótica, de apenas 44 dias. Crítico dos métodos de Revie e do estilo de jogo da equipe (o qual considerava sujo, desleal, violento), Clough naturalmente não contou com a boa vontade do elenco que recebeu em Elland Road. Em setembro de 1974, com o time na lanterna da liga, recebeu o bilhete azul. Teve pouco mais de três meses para refletir sobre a carreira. Até que em janeiro, o Nottingham Forest, à deriva na segunda divisão, bateu em sua porta. E ele, modestamente, aceitou a missão.

A montagem do elenco

No grupo de jogadores que Clough encontrou no City Ground, alguns nomes se destacavam. Havia um lateral-direito esguio e de muito fôlego (Viv Anderson). Um versátil armador (Ian Bowyer) revelado pelo Manchester City, mas que vinha de duas temporadas quase anônimas no Leyton Orient. Um talentoso meia-direita norte-irlandês graduado em Economia (Martin O’Neill). Um troncudo, mas habilidoso e driblador ponta-esquerda escocês (John Robertson). Além de um jovem meia-atacante a ser lapidado, que pouco havia atuado pelos profissionais (Tony Woodcock, na foto abaixo).

A essas peças – e a outras que também estavam lá, mas não vingariam – Clough aos poucos acrescentou novas. Em fevereiro, um mês depois de chegar ao clube, tratou de resgatar do Leeds dois escoceses que haviam sido seus homens de confiança desde os tempos do Derby: o volante John McGovern (em breve, tornado capitão) e o atacante John O’Hare. Naquela temporada 1974/75, os dois seriam fundamentais na tarefa de evitar a queda para a terceira divisão – o time terminou na 16ª colocação, seis pontos à frente dos condenados Milwall e Cardiff City.

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Após o fim da campanha, o treinador trouxe sem custos o bom lateral-esquerdo Frank Clark, do Newcastle. Na primeira temporada completa sob o comando de Clough, o Forest melhorou sua campanha de maneira substancial, terminando na oitava colocação, ainda que sem chegar a brigar pelo acesso. O elenco ainda precisava ser reforçado (outro lateral-esquerdo, Colin Barrett, ex-Manchester City, chegaria ao longo da campanha). Mas havia sinais animadores, auspiciosos. O principal deles viria em julho de 1976: a retomada da parceria com Peter Taylor, com o velho companheiro retornando ao posto de assistente.

Como outras grandes duplas de treinadores imortalizadas no futebol britânico, os dois se completavam. Clough era direto, falastrão, de opiniões (e decisões) contundentes. Apreciava o jogo ofensivo, objetivo, técnico, limpo e disciplinado. Taylor, por sua vez, era mais cordial e observador. Tinha olho clínico não só para encontrar os jogadores ideais como também para identificar características insuspeitadas no estilo de cada um. Para aquela temporada 1976/77, ele seria o responsável por recrutar o jovem, porém rodado centroavante Peter Withe, do Birmingham, e o zagueiro Larry Lloyd, do Coventry.

Lloyd era um zagueiro sólido, que se impunha pelo jogo físico, um verdadeiro xerife. Titular absoluto da zaga do Liverpool de Bill Shankly, perdera espaço com a saída do treinador e a entrada de Bob Paisley em 1974, sendo negociado com o Coventry por uma quantia recorde para os Sky Blues. Em outubro de 1976, após ser trazido por empréstimo, acabou contratado em definitivo pelo Nottingham Forest. Outros nomes jovens também foram acrescentados ao elenco, vindos das categorias de base (como o goleiro reserva Chris Woods) ou da liga amadora (como o atacante Garry Birtles, vindo do Long Eaton United).

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Mas a principal transformação operada pela dupla Clough-Taylor foi sentida pelo escocês John Robertson. Meia-armador que esteve para ser despachado para o pequeno Partick Thistle, de seu país, no tempo em que Allan Brown era o treinador, vivia um período de baixa na carreira. Desmotivado, engordava a olhos vistos. Mas tinha duas qualidades evidentes, que chamaram a atenção dos treinadores: o chute forte e preciso com os dois pés e, mais ainda, o drible estonteante para os dois lados. Embora nunca tivesse sido um jogador veloz, foi deslocado para a ponta-esquerda. Mas não sem antes se submeter a um regime rigoroso, supervisionado pela comissão técnica. Foi o que salvou seu futebol.

O acesso

Na gênese de muitos grandes esquadrões existem aqueles jogos definidores dos rumos do destino. Partidas que até inadvertidamente alteram o curso da história. Em fevereiro de 1977, o Forest vivia momento delicado na disputa pelo acesso. Eliminado na FA Cup com uma derrota fora de casa para o Southampton no replay, emendaria aquele revés com derrotas para o Wolverhampton no Molineux e o Luton em casa. Enquanto isso, na primeira divisão, o Derby acabara de demitir Dave Mackay e fez uma proposta tentadora a Clough para que retornasse ao Baseball Ground. Ainda afeiçoado ao clube, o treinador ficou balançado.

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No dia 19, o Southampton veio ao City Ground para mais um jogo pela segunda divisão. O Forest fazia péssima partida e perdia por 1 a 0. Uma quarta derrota seguida fatalmente arruinaria de vez o embalo da equipe. Mas as forças da natureza resolveram dar uma mãozinha: uma densa neblina vinda do rio Trent pairou sobre o campo, tornando impossível seguir com o jogo. A partida foi interrompida aos dois minutos do segundo tempo e depois abandonada. No jogo seguinte, em 2 de março, o time bateu o Hereford por 1 a 0 fora de casa e respirou. E Clough decidiu permanecer no clube.

Vinte dias depois da vitória sobre o Hereford, veio o jogo remarcado contra o Southampton. Com atuação convincente, o Forest venceu por 2 a 1 e iniciou ali uma importantíssima sequência de cinco triunfos que o recolocaram na briga pelo acesso. No dia 7 de maio, a equipe completou sua tabela derrotando o Millwall no City Ground por 1 a 0. Somava 52 pontos e ocupava a terceira colocação, atrás dos ponteiros (e já garantidos) Wolverhampton e Chelsea.

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Porém ainda havia a ameaça do Bolton, quatro pontos atrás, mas ainda com três partidas adiadas por fazer. No dia 10, os Trotters venceram o Cardiff por 2 a 1. Quatro dias depois, enquanto elenco e comissão técnica do Forest viajavam para a Espanha para descansar e fugir da tensão, o Bolton recebeu o Wolverhampton e perdeu por 1 a 0 num jogo dramático. O resultado selou a promoção do time de Brian Clough e foi efusivamente comemorado por todos assim que chegaram.

O início da caminhada para o título

Quando a temporada 1977/78 começou, o Liverpool era apontado por unanimidade como o favorito destacado a conquistar o que seria seu terceiro título consecutivo. Os outros candidatos eram a dupla de Manchester, United e City, o Aston Villa e o Everton. Quanto ao Forest, os prognósticos variavam entre o meio de tabela e a briga contra o rebaixamento, com um ou outro comentarista mais airoso colocando a equipe no bloco dos que poderiam surpreender e beliscar uma vaga na Copa da Uefa.

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Pudera. O clube contava com um elenco sem estrelas, formado em sua maioria por jogadores que ainda tinham o que provar na primeira divisão. E só fizera uma contratação na pré-temporada: o escocês Kenny Burns, um tipo corpulento, brigão e chegado a uma bebida a mais, que vinha jogando de centroavante no Birmingham. Mas que, para o espanto geral, passou a ser escalado no miolo de zaga por Clough.

O time, no entanto, começou a surpreender. Estreou com uma boa vitória sobre o badalado Everton em pleno Goodison Park: saiu atrás no marcador, mas se ajustou e virou para 3 a 1. Em seguida, vitórias em casa sobre o Bristol City (1 a 0) e o Derby, no clássico (3 a 0). Mas bastou perder a primeira – 3 a 0 para o Arsenal em Highbury – para a imprensa britânica demonstrar todo o seu ceticismo.

O Times escreveu: “A chegada espetacular do Nottingham Forest na primeira divisão foi facilmente enganosa. Pode ser que eles tenham que se preparar para o respeitável conforto do meio de tabela”. No mesmo jornal, o colunista Geoffrey Green foi taxativo: “Não têm time para ganhar o campeonato”. Foi o momento em que Clough e Taylor, numa tacada de mestre, fizeram duas contratações decisivas.

Primeiro, aproveitaram o recente rebaixamento do Stoke para trazer de lá, no dia 15 de setembro, o goleiro Peter Shilton, revelado pelo Leicester e que havia sucedido o lendário Gordon Banks em ambos os clubes e também na seleção inglesa. Estava prestes a se tornar um dos melhores camisas 1 da Europa. ”É um goleiro que ganha jogos”, diria Peter Taylor, satisfeito em pagar aos Potters a quantia recorde no futebol inglês de então (£ 270 mil) por um jogador da posição.

Duas semanas depois, a dupla foi buscar outro jogador escocês a quem já conhecia dos tempos do Derby: o meia-armador Archie Gemmill, jogador dinâmico, de excelente controle de bola, além de fôlego e talento para organizar o setor. Deixado de lado pelo novo técnico dos Rams (seu compatriota Tommy Docherty, com quem já havia brigado quando defendia a seleção), não teve dúvidas em assinar com o rival Forest, enquanto o antigo goleiro titular, John Middleton, seguia na direção oposta como contrapeso.

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O time-base, então, finalmente tomou forma, começando por Peter Shilton no gol. A defesa tinha o lateral Viv Anderson, também importante peça ofensiva, provendo o apoio pelo flanco direito. Na zaga, uma dupla que impunha respeito, fosse como fosse: Larry Lloyd e Kenny Burns. Já pelo lado esquerdo, Colin Barrett ganhou a disputa naquela temporada com Frank Clark, que depois retomaria a titularidade.

No meio-campo, John McGovern cobria a defesa e iniciava a saída de jogo. Archie Gemmill impulsionava o time à frente com suas arrancadas. Martin O’Neill era o homem do talento na criação de jogadas, fechando da meia direita para o centro e abrindo o corredor por aquele lado para a passagem de Anderson. Enquanto John Robertson rasgava defesas com dribles pela ponta esquerda.

Na frente, havia o inteligente ponta-de-lança Tony Woodcock, que finalmente conquistara espaço após ganhar experiência em dois empréstimos. E Peter Withe era o homem de área valente e temido pelos zagueiros. Completando o elenco, peças valiosas como Ian Bowyer e John O’Hare, versáteis, experientes e confiáveis. Mais tarde, para acrescentar profundidade ao elenco na defesa, foi feita a última contratação: o zagueiro David Needham, do Queens Park Rangers, que chegou a ter longa sequência de jogos.

E o time continuou vencendo. Bateu os cotados ao título Aston Villa (2 a 0), na estreia de Shilton, e Manchester City (2 a 1), fez 3 a 0 no Leicester na casa do rival, goleou o bom time do Ipswich de Bobby Robson por 4 a 0, com impressionantes quatro gols de Peter Withe, e repetiu o placar contra o Middlesbrough. Nos primeiros 13 jogos, foram dez triunfos. O suficiente para ocupar tranquilo o topo da tabela ao fim de outubro, quatro pontos à frente do Liverpool.

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Mesmo assim, o descrédito da imprensa – especialmente a londrina – continuava. O time era tratado como um “líder interino” da liga, e as previsões eram as de que, cedo ou tarde, o Liverpool o ultrapassaria. Bob Wilson, ex-goleiro do Arsenal e então comentarista da BBC, perguntava quando a “bolha” do Forest iria estourar. Julie Welch, jornalista do Observer, era enfática: “Com certeza, logo o Forest começará a vacilar”. Danny Blanchflower, o lendário capitão do Tottenham, exaltava o time, antes de ser reticente: “O que eles estão fazendo é mágico. Mas por quanto tempo o milagre do Forest pode durar?”.

De fato, durante o mês de novembro de 1977, o time pareceu dar razão aos críticos e oscilou: jogou quatro vezes e perdeu duas, nas visitas ao Chelsea e ao Leeds, sempre pelo placar mínimo. Bateu o Manchester United em casa e parou num 0 a 0 diante do West Bromwich também no City Ground. Mas o revés em Elland Road seria o último na temporada pela liga. E o mês seguinte redimiria completamente os tropeços anteriores, com uma coleção de cinco vitórias e um empate em seis jogos.

O momento mais sublime

Uma dessas vitórias seria considerada o ponto alto da campanha. O Manchester United não fazia grande campanha (era apenas o 13º colocado entre 22 clubes), mas contava com jogadores de primeiro nível no futebol britânico, era o atual detentor da FA Cup e havia sido um dos postulantes ao título da liga no início da competição. Além disso, contaria com mais de 54 mil torcedores a empurrá-lo em Old Trafford. Mas o Forest, que estreava David Needham na zaga, em nenhum momento pareceu intimidado.

Como manda a cartilha de um time campeão, o time de Brian Clough também contou com a sorte para abrir o placar: após uma triangulação com Withe e Gemmill, Woodcock confundiu Brian Greenhoff, driblou o goleiro Paddy Roche e chutou sem ângulo na trave. A bola voltou nas pernas do zagueiro do United e entrou. Ainda na primeira etapa, Robertson avançou pela ponta esquerda e cruzou rasteiro. Withe desviou de calcanhar para o meio da área e Woodcock encheu o pé para anotar o segundo.

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Na etapa final, o terceiro gol sairia numa combinação de resiliência defensiva e objetividade no contra-ataque. Uma cobrança de falta para o United parou na barreira e o rebote foi afastado pela zaga de cabeça. A bola então caiu nos pés de Archie Gemmill, que deu um drible da vaca em Jimmy Nicholl, arrancou e deu um passe na diagonal para Robertson. O ponteiro invadiu a área, driblou Roche e tocou para o gol vazio.

Letal nos contragolpes, o Forest ainda marcou o quarto após outra arrancada de Gemmill, que encontrou Woodcock livre na intermediária adversária e fez o passe em profundidade. O jovem meia-atacante mal entrou na área e já tocou rasteiro, na saída do arqueiro do United. Os 4 a 0 foram uma exibição de gala, que silenciou definitivamente todos os que duvidavam da consistência e da categoria daquele time. Barry Davies, narrador da BBC, resumiu: “Foi a melhor atuação que tive o privilégio de ver nesta temporada”.

O Forest virou o ano bem descolado na liderança e seguiu impávido, sem ser ameaçado pelos perseguidores e acumulando resultados positivos com voracidade. Entre dezembro e o começo de abril, foram 29 pontos ganhos em 34 disputados. Newcastle, Arsenal, Wolverhampton, West Ham, Leicester, Chelsea, Aston Villa, todos eram batidos sem dificuldade. Toda a Inglaterra percebia que a bolha simplesmente não estouraria.

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Paralelamente, o clube também seguia de vento em popa nas duas copas inglesas. Na FA Cup, entretanto, a trajetória seria interrompida nas quartas de final, ao ser derrotado pelo bom time do West Bromwich na casa do adversário. Mas a Copa da Liga providenciaria a primeira comemoração de título naquela temporada. Mesmo sem poder contar com Shilton, Gemmill e Needham, que não puderam ser inscritos por já terem atuado por seus clubes anteriores, o Forest não tomou conhecimento dos rivais.

Primeiro despachou o West Ham por sonoros 5 a 0. Em seguida, fez 4 a 0 no rival local Notts County. O Aston Villa, atual campeão da competição, foi eliminado com um 4 a 2. Após a virada do ano, o time fez 3 a 0 fora de casa sobre o Bury. Nas semifinais em jogos de ida e volta, o adversário seria o Leeds, responsável pela última derrota do time na liga. Mas desta vez não houve o que temer: os Whites foram batidos em ambos os jogos pelo arrasador placar agregado de 7 a 3.

Na final, um duelo duríssimo. O oponente era nada menos que o Liverpool – que apesar de vir emendando conquistas ao longo daquela década, nunca havia levantado aquele troféu. O título começou a ser decidido em 18 de março, em Wembley, mas a partida terminou empatada sem gols após 120 minutos de bola rolando, graças a uma atuação memorável do jovem goleiro Chris Woods, o novo reserva de Shilton.

Foi preciso um replay em Old Trafford, quatro dias depois, decidido num pênalti que gerou reclamação do time de Merseyside, mas que foi cobrado e convertido por John Robertson. Era a primeira conquista de peso do clube desde a vitória na FA Cup, 19 anos antes. Além disso, já garantia o Nottingham Forest na Copa da Uefa da temporada seguinte, mas Brian Clough tinha ambições maiores – e perfeitamente possíveis dado o estado de graça em que o time se encontrava.

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Em 11 de abril, de volta à liga, o Forest abriu uma vantagem absurda ao empatar sem gols com o Manchester City em Maine Road: já eram cinco pontos à frente do vice-líder Everton mesmo tendo três partidas a menos (eram os tempos dos dois pontos por vitória, é bom lembrar), o que o possibilitou administrar com tranquilidade o desfecho da campanha. Ironicamente, era a vez de Clough se manter cético: “O campeonato certamente ainda não acabou e há um longo caminho”.

Modéstia. Três jogos e 11 dias depois, o time visitava o Coventry precisando de apenas um ponto para garantir matematicamente o primeiro título inglês de sua história, com quatro partidas de antecedência. Com uma atuação enorme de Peter Shilton no gol, salvando inclusive uma cabeçada à queima-roupa de Mick Ferguson na pequena área, o 0 a 0 valeu a taça inédita e muito aguardada.

O Forest ainda conseguiu manter sua série invicta que vinha desde o fim de novembro até o último jogo, um simbólico empate sem gols em Anfield contra o Liverpool – que aproveitaria jogos adiados para ultrapassar o rival Everton e terminar com o vice-campeonato. Os 26 jogos sem derrota, aliás, seriam estendidos a 42, terminando apenas em dezembro de 1978 e estabelecendo o novo recorde do país.

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O balanço final da campanha era de fato bastante impressionante. O time obteve 25 vitórias, 14 empates e apenas três derrotas (todas como visitante) em seus 42 jogos. Somou 64 pontos, sete a mais que o Liverpool, e teve de longe a defesa menos vazada (24 gols sofridos), além do quarto melhor ataque. Tudo isto utilizando um elenco enxuto, em que apenas 16 jogadores entraram em campo pela liga.

O ótimo conjunto também fez brilhar individualidades, e o Forest dominou as premiações da temporada: Kenny Burns foi eleito o melhor jogador pela crônica esportiva, enquanto Peter Shilton foi o escolhido da associação de jogadores e Tony Woodcock foi apontado como a revelação. Brian Clough, por sua vez, tornou-se apenas o segundo técnico na história do futebol do país a levantar o título por dois clubes diferentes (depois de Herbert Chapman, vencedor com Huddersfield e Arsenal nos anos 1920 e 1930).

Pela quinta vez (e última até os dias de hoje) um clube conquistava a primeira divisão inglesa depois de promovido na temporada anterior. O Forest, porém, era o primeiro e único a não ter conquistado o acesso como campeão, o que tornou a história de seu êxito ainda mais surpreendente na época, e a transformou em parâmetro para surpresas futuras. E aquele foi apenas o primeiro passo. Com a equipe ligeiramente modificada, o céu – ou o bicampeonato europeu – seria o limite para os comandados de Brian Clough. Mas esta já é uma outra história.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo, no Mundo Rubro-Negro e no It’s a Goal, página especialmente voltada à história do futebol inglês.