Com seu retorno à elite da Bundesliga recentemente confirmado, o Nuremberg ganhou motivação nova para comemorar o aniversário de uma importante conquista na última sexta-feira. Há 50 anos o tradicional clube do sul da Alemanha levantava seu nono e, até agora, último título alemão – e o único no atual formato da liga – consolidando-se, na ocasião, como o maior campeão nacional. Um triunfo surpreendente de um time sem estrelas, embora comandado com mão de ferro por um treinador tarimbado. E que seria sucedido por um desfecho bastante insólito.

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Um clube em busca de um novo auge

Fundado em 1900, o Nuremberg viveria sua Era de Ouro – que lhe rendeu o apelido “Der Club” (simplesmente “O Clube”) – após o fim da Primeira Guerra Mundial. Nela, instaurou hegemonia impressionante ao vencer nada menos que cinco vezes o título alemão ao longo dos anos 20 – o segundo deles, em 1921, sob o comando do húngaro Izidor “Dori” Kürschner, que na década seguinte aportaria no Rio de Janeiro para comandar o Flamengo e, mais tarde, o Botafogo, sendo um dos introdutores do sistema WM no país, antes de falecer em 1941.

Naquele período vitorioso, a equipe ainda decidiu o campeonato de 1922, da chamada “final eterna” contra o Hamburgo e que permanece até hoje sem campeão declarado, após dois empates (um deles em jogo interrompido), várias apelações judiciais e uma decisão administrativa da federação. Mais tarde, o clube levantaria ainda os títulos de 1936, 1948 (o primeiro após a Segunda Guerra) e 1961 – os dois últimos sob a liderança do atacante Max Morlock, campeão do mundo com a seleção da Alemanha Ocidental em 1954, na Suíça.

Apesar de obter com facilidade a vaga na edição inaugural da Bundesliga pelo retrospecto no decênio anterior, o clube já experimentava um declínio quando da criação do novo campeonato. Terminou num discreto nono lugar na temporada 1963/64, subiu para sexto nas duas posteriores, mas caiu para um fraco décimo posto em 1966/67 – campanha que poderia ter sido ainda pior, já que o time rondou a zona de rebaixamento na primeira metade da competição.

Foi nesse período mais agudo de baixa, porém, que a reconstrução começou. O técnico húngaro Jenö Csaknady foi demitido e, após um período sob comando interino, a equipe ganhou um novo treinador no início de janeiro de 1967. Era uma aposta alta: o austríaco Max Merkel, o novo nome, vinha de ótima passagem pelo Munique 1860, o qual levara a um título da liga e outro da copa alemã, além da final da Recopa europeia de 1965. Também havia sido vice-campeão nacional com o Borussia Dortmund em 1961, perdendo a final justamente para o Nuremberg.

Com Merkel, o Nuremberg se recuperou no returno e terminou sua campanha de forma bem mais digna, ainda que longe das primeiras posições. Para sua primeira temporada completa no clube, o técnico surpreendeu ao manter praticamente o mesmo elenco, o qual considerava talentoso e experiente (ainda contava com vários remanescentes do título de 1961), precisando apenas de um comando mais firme, exigente e centrado para almejar posições melhores.

A montagem do elenco

Assim, fez apenas duas contratações de maior peso, ambas vindas do exterior: o ponteiro iugoslavo Zvezdan Cebinac, ex-PSV Eindhoven, e o meia-atacante austríaco August “Gusti” Starek, ex-Rapid Viena. Para compor o elenco, além de garotos promovidos da base, também chegaram jovens como o meia Horst Blankenburg (20 anos), trazido do pequeno Heidenheim e que não chegaria a ser utilizado na liga, mas teria uma carreira notável dali em diante.

Em princípio, o Nuremberg não estava entre os clubes mais cotados para brigar pelas primeiras posições. Principalmente por não ser um time de estrelas. Embora tivesse a média de idade um tanto alta, apenas dois jogadores haviam atuado pela seleção alemã, e mesmo assim em poucas ocasiões. E os reforços vindos do exterior ainda precisavam mostrar a que vieram. Entretanto, dessa mistura de experiência e juventude, de talento local com estrangeiro, nasceria uma equipe que tomaria de assalto a Bundesliga naquela temporada, especialmente em seu início.

O time começava com o goleiro Roland Wabra, nascido em Praga, mas de nacionalidade alemã, e que integrava o elenco há cerca de uma década. Na defesa, jogavam os laterais Horst Leupold (prata da casa) e Fritz Popp, juntamente com os centrais Ferdinand Wenauer (um dos dois com passagem pela Nationalelf) e Ludwig Müller. O meio-campo era um pouco mais jovem e incansável, formado pela dupla Karl-Heinz Ferschl e Heinz Müller.

Na frente, pelas pontas, jogavam Zvezdan Cebinac e a revelação Georg Volkert, cria da base de apenas 21 anos. Já pelo centro valia a experiência: integrante da seleção alemã que disputara a Copa do Mundo do Chile, em 1962, e capitão do time, Heinz Strehl, tinha a companhia de um rodado centroavante, o implacável goleador Franz Brungs, ex-jogador do Colônia e dos Borussias Mönchengladbach e Dortmund. Como uma espécie de 12º jogador, sempre pronto para entrar no time, como titular ou vindo do banco (novidade daquela temporada) estava Gusti Starek.

Começo arrasador

O Nuremberg goleou o Bayern de Munique por 7 a 3

Esse time-base começou o campeonato voando e já na terceira rodada alcançou a liderança ao golear o Hamburgo de Uwe Seeler por 4 a 0. Nos três jogos seguintes, venceria fora de casa o Eintracht Frankfurt por 2 a 1 e o atual campeão Eintracht Braunschweig por categóricos 3 a 0, além de derrotar em seus domínios o co-líder Borussia Mönchengladbach por 1 a 0.

Mais adiante, após tropeçar num empate sem gols na visita ao lanterna Schalke 04, o time recuperou o apetite ofensivo aplicando três goleadas sobre Stuttgart (5 a 1), Werder Bremen fora de casa (4 a 0) e Kaiserslautern (4 a 1). A invencibilidade seria perdida somente na 13ª rodada com revés diante do Duisburg fora de casa por 2 a 0. Mesmo assim, o clube seguia inalcançável na liderança, tendo o vice-líder Bayern de Munique na tentativa de se aproximar.

Dali a três jogos, pela penúltima rodada do turno, os dois se enfrentariam no Städtisches Stadion, nome de então da casa do Nuremberg. Uma vitória naquela tarde de 2 de dezembro de 1967 deixaria os visitantes a apenas um ponto do líder. Mas embora já contassem com o talento dos jovens Sepp Maier, Franz Beckenbauer e Gerd Müller, não passariam nem perto de conseguir o resultado favorável. Pelo contrário: foram atropelados pelo time local.

Já na primeira etapa, o Nuremberg vencia por 3 a 0 com gols de Strehl, Volkert e do artilheiro Brungs. No segundo tempo, o centroavante apelidado de “Goldköpfchen” (ou “cabecinha de ouro”), voltou infernal: marcou três vezes em 11 minutos e, após Gerd Müller descontar para 6 a 1, acertou um lindo voleio para anotar seu quinto gol no jogo e o sétimo do time. Os visitantes ainda marcariam duas vezes com Dieter Brenninger, mas o massacre já estava consolidado. Os inapeláveis 7 a 3 aumentaram a vantagem do time de Max Merkel para cinco pontos.

Antes da pausa de inverno, o time ainda bateria o Borussia Dortmund no velho estádio Rote Erde por 2 a 1, ampliando a vantagem para sete pontos graças a mais um tropeço do Bayern, agora goleado em casa pelo Duisburg. Porém, tão surpreendente quanto o ótimo desempenho do Nuremberg na primeira metade do campeonato seria seu declínio a partir da terceira rodada do returno, quando o time sofreu sua segunda derrota, caindo na visita ao Hamburgo por 3 a 1.

Returno oscilante

Em seguida, viria o primeiro revés em casa, diante do Eintracht Frankfurt (2 a 0), sucedido por um empate em 1 a 1 na visita ao Borussia Mönchengladbach. Embora marcasse a terceira partida consecutiva sem vencer, acabou sendo um resultado útil para manter os Potros, agora na vice-liderança, ainda afastados. Aparentemente, a pausa de inverno quebrara o ritmo do time, fazendo com que as atuações de jogadores como Cebinac – antes um terror para as defesas em suas jogadas pela ponta – caíssem nitidamente de nível.

Merkel então alterou a estrutura tática, fechando-se mais para tentar estancar a perda de pontos. Cebinac foi para o banco por um tempo, entrando Starek no time para preencher o meio-campo. Ao mesmo tempo, Wenauer foi recuado para o posto de líbero, transformando o 4-2-4, no qual o time vinha atuando, em uma espécie de 1-3-3-3. Dois triunfos seguidos, contra o Braunschweig e o Munique 1860, também foram importantes para a equipe respirar antes de mergulhar em outra sequência ruim, com dois empates e duas derrotas nos próximos quatro jogos.

O returno seguiu nessa toada: sequências de tropeços compensadas por vitórias eventuais para manter o fôlego e a boa vantagem de pontos construída no turno. Após bater Colônia e Duisburg, o Nuremberg chegava à 30ª rodada – a quatro do fim do certame – quatro pontos à frente do Borussia Mönchengladbach e cinco de Werder Bremen e Bayern de Munique. A derrota para o Alemannia Aachen, dali a uma semana, seria a última na campanha, reabilitada pela vitória por 2 a 1 sobre o Hannover que deixou o clube com a salva de prata praticamente garantida.

A confirmação da conquista viria em 18 de maio diante do mesmo adversário contra o qual o time havia feito sua exibição mais memorável naquela temporada: o Bayern de Munique. O rival havia acabado de sair da briga pelo título e sequer ofereceu resistência, mesmo jogando no estádio Grünwalder (sua casa antes da inauguração do Olympiastadion, em 1972). Aos 29 minutos, Brungs aproveitou um rebote do travessão para marcar de cabeça e abrir o placar. Dez minutos depois, também de cabeça, Strehl ampliaria e encerraria a contagem, dando início às comemorações do nono título alemão do clube, então o maior vencedor do país.


Na última rodada, a equipe ainda teria fôlego para derrotar novamente o Borussia Dortmund por 2 a 1, diante de sua torcida em êxtase. A grande presença do público, aliás, foi outra marca da campanha vitoriosa: o Nuremberg teve, com sobras, a melhor média do campeonato, registrando acima de 37 mil torcedores por jogo em casa, número que superava em mais de dez mil o segundo colocado neste quesito, o Stuttgart. “Der Club” teve também a melhor defesa e o segundo melhor ataque da competição, superado apenas pelo Borussia Mönchengladbach.

Após a conquista, o anticlímax

A conquista indiscutível parecia representar o retorno do clube ao grupo das potências do futebol do país. Porém, os rumos tomados foram outros. Estranhamente, sob o pretexto de renovar o elenco, Max Merkel decidiu negociar vários titulares e outras peças importantes, entre eles Karl-Heinz Ferschl (dínamo do meio-campo), Helmut Hilpert (reserva imediato da defesa e antiga bandeira do clube), o novato Horst Blankenburg e até mesmo o goleador Franz Brungs e o curinga August Starek – que seguiu para o Bayern de Munique.

Uma legião de reforços chegou ao clube, mas o novo time em nenhum momento chegou a dar liga. Caiu logo na primeira rodada da Copa dos Campeões, goleado pelo Ajax por 4 a 0 em Amsterdã, após empate em 1 a 1 em casa. A relação entre o rigoroso Merkel e os jogadores, já desgastada desde o trôpego returno da campanha vitoriosa, deteriorou-se por completo. O treinador acabou demitido em março de 1969, mas o time seguiu na parte de baixo da tabela.

Na penúltima rodada, a equipe teve a chance de confirmar sua permanência na elite caso vencesse o ameaçado Borussia Dortmund em casa, mas ficou no empate em 2 a 2. Na jornada decisiva, uma derrota por 3 a 0 para o Colônia fora de casa, somada a uma vitória dos aurinegros pelo mesmo placar sobre o Kickers Offenbach selou o inacreditável rebaixamento. O campeão naquela temporada, levantando seu primeiro título da Bundesliga, seria o Bayern de Munique, até então detentor de apenas um campeonato nacional, o de 1932.

O desfecho seria simbólico e decisivo para o destino dos dois clubes: o Nuremberg ficaria fora da elite até 1978. E após várias campanhas discretas na primeira divisão e eventuais rebaixamentos, chegaria a jogar a terceirona na temporada 1996/97. Vivendo quase sempre de sua história desde então (exceto pela conquista da Copa da Alemanha em 2007), o clube ainda conseguiu se manter como o maior campeão alemão até 1987, quando foi ultrapassado justamente pelo Bayern.

Ainda hoje, “Der Club” se sustenta como o segundo maior vencedor do título nacional, embora o time de Munique já some mais do triplo de seus nove canecos. Vice-campeão da 2.Bundesliga na atual temporada, o clube retorna agora à elite após quatro campanhas na divisão de acesso. Volta como azarão, mas sonhando em novamente surpreender os prognósticos: se o título é praticamente impossível, uma campanha segura já seria um ótimo negócio.