A partir da década de 1950, o futebol nos Jogos Olímpicos passou a ser dominado pelo Leste Europeu. Em tempos nos quais o amadorismo era exigência do COI, a estrutura dos clubes nos países comunistas mantinha suas seleções intactas. Foi assim até os anos 1980, quando as regras começaram a ser modificadas. Neste intervalo, esquadrões da Cortina de Ferro se consagraram com o ouro olímpico. E um dos times mais célebres subiu ao topo do pódio há 60 anos, em Melbourne-1956: a União Soviética, em sua primeira grande conquista internacional.

Sabia-se da evolução do futebol soviético ao longo das décadas anteriores. O esporte, tão popular entre as massas, também ganhou aporte governamental. E uma das principais impressões que os soviéticos deixaram além de suas fronteiras, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, veio na excursão do Dínamo de Moscou ao Reino Unido. Contudo, em uma época na qual os torneios continentais apenas começavam a sair do papel, havia pouca noção sobre o real poderio da União Soviética nos gramados.

A própria seleção soviética demorou a se formar. Após alguns jogos esparsos na década de 1920, a equipe nacional só voltou a ser alinhada para as Olimpíadas de 1952. Disputou três partidas, caindo para a Iugoslávia. Os amistosos só se tornaram frequentes a partir de 1954. Foi quando os soviéticos demonstraram o potencial para montar um grande time. Naquele início, golearam por duas vezes a Suécia (7 a 0 e 6 a 0), empataram com a fortíssima Hungria (em dois jogos por 1 a 1) e bateram a então campeã do mundo Alemanha Ocidental em Moscou e em Hannover. Era inquestionável a capacidade do bom elenco que se formava.

O primeiro grande teste à seleção soviética, então, surgiu com os Jogos Olímpicos de 1956, a primeira competição desde que a equipe nacional passou a jogar com frequência. Um torneio esvaziado, é verdade, mas que já valia aos soviéticos para se medirem com outras potências do Leste Europeu.

A tabela previu logo para a estreia a seleção da Alemanha – que, naqueles jogos, unificou-se entre orientais e ocidentais. Vitória por 2 a 1 da União Soviética, após manter a vantagem por quase todo o tempo. Nas quartas de final, a surpresa era a Indonésia. E os asiáticos até fizeram jogo duro, com uma retranca enorme que segurou o empate por 0 a 0 nos primeiros 120 minutos. Assim, fez-se necessário um confronto extra, com a impiedosa goleada dos soviéticos por 4 a 0. Já nas semifinais, um épico contra a Bulgária. O placar zerado prevaleceu durante os 90 minutos regulamentares, quando o lateral Tisjenko atuou de maneira heroica, mesmo com a clavícula fraturada. Emoção guardada para a prorrogação. Kolev deixou os búlgaros em vantagem, mas Streltsov e Tatushin definiram o triunfo no segundo tempo extra.

Na decisão, pedreira para a URSS: a Iugoslávia possuía uma seleção estabelecida havia mais tempo e de bons resultados internacionais, com duas pratas olímpicas nos Jogos anteriores. Retrospecto que não adiantou nada ao bom time estrelado por Dragoslav Šekularac, Todor Veselinović e Muhamed Mujić. Os soviéticos conquistaram o ouro com a vitória mínima, por 1 a 0. O gol decisivo foi anotado aos três minutos do segundo tempo, por Anatoli Ilyin. Um dos maiores ídolos do Spartak Moscou nos anos 1950, o atacante foi condecorado pelo governo.

“O último jogo, contra a Iugoslávia, aconteceu no encerramento das Olimpíadas. Foi um jogo solene e festivo. A cidade inteira de Melbourne correu para o estádio, com 86 mil presentes. As bandeiras olímpicas tremulavam. Obviamente, estávamos em clima de luta. Ficamos impacientes para encerrar a grande competição com sucesso. Foi um duelo digno do alto nível dos Jogos Olímpicos. Por um longo tempo, os times se alternaram no domínio. O ritmo era acelerado. Isso acabou no início do segundo tempo. Yatsev interceptou uma bola com a cabeça e logo passou para Ilyin, que mandou para as redes Aconteceu muito rápido. Posteriormente, esse foi chamado de ‘O Gol de Ouro’. Nós buscamos a vitória”, relatou, anos depois, o capitão Igor Netto.

Aquelas Olimpíadas serviram para revelar ao resto do mundo grandes jogadores soviéticos. A começar pelo gol, onde despontava ninguém menos que Lev Yashin. O lendário arqueiro sofreu apenas dois tentos, em uma época na qual ganhava notoriedade no Dínamo de Moscou. No meio-campo, o motor da equipe era Igor Netto. Atleta dinâmico e conhecido pela liderança, de quem usou a braçadeira de capitão da seleção por nove anos. Já no ataque, se sobressaíam os talentos de Valentin Ivanov e Eduard Streltsov. O primeiro se transformou no terceiro maior artilheiro do país extinto, com larga carreira no Torpedo Moscou. Era também parceiro de clube de Streltsov, considerado por muitos como o maior craque já surgido na URSS. O atacante viveu sua principal conquista em Melbourne, já que pouco tempo depois passaria sete anos realizando trabalhos forçados em um gulag, após controverso caso de estupro.

No banco de reservas, consagrou-se Gavril Kachalin. O técnico é considerado como o principal responsável pelo “futebol científico” praticado pelos soviéticos. Priorizava uma preparação física bastante rígida, que fazia os seus atletas estarem quase sempre níveis acima de seus adversários. Além disso, também enfatizava os conceitos táticos, com uma equipe bastante organizada e de jogadas trabalhadas.

A União Soviética seguiu protagonizando grandes partidas nos anos seguintes. Qualificou-se à primeira Copa do Mundo em 1958 e eliminou a Inglaterra na fase de grupos, apesar do baile tomado de Garrincha. Os soviéticos caíram apenas nas quartas de final, eliminados pela anfitriã Suécia. Oito jogadores campeões olímpicos disputaram o Mundial. Já em 1960, se consumou o principal feito soviético no futebol: a seleção faturou a primeira edição da Eurocopa. Yashin foi o melhor goleiro da competição, Valentin Ivanov dividiu a artilharia e Igor Netto ergueu a taça. Curiosamente, campeões após derrotarem os velhos conhecidos iugoslavos na decisão, em Paris.