Durante décadas, a seleção brasileira não passou de um combinado entre Rio de Janeiro e São Paulo. A associação se fazia natural, diante das dificuldades nos transportes e da influência dos dois estados na época. Mas ignorava a riqueza do futebol em outras partes do país. Até 1955, apenas nove jogadores que atuavam em outros Estados haviam entrado em campo pela equipe “nacional”: Alvarizza, Mica, Niginho, Cardeal, Caju, Paulo, Nena, Adãozinho e Tesourinha. E três deles trazidos do Rolo Compressor do Internacional, um esquadrão que a CBD não pôde ignorar. Assim, o Campeonato Pan-Americano de 1956 se faz tão importante: pela primeira vez, outra região do Brasil ganhava espaço efetivo na Seleção. E o título conquistado por jogadores exclusivamente de clubes gaúchos se tornou orgulho.

A criação de uma seleção gaúcha que representasse o Brasil, contudo, só veio pelas circunstâncias. O calendário da equipe estava cheio, com a participação da edição extra do Campeonato Sul-Americano até fevereiro e o extinto Pan-Americano a partir de março. Assim, a CBD abraçou a ideia dada pelo jornalista Ênio Melo, de chamar os atletas do Rio Grande do Sul para a viagem ao México. A pré-convocação contou com 46 jogadores, representando 11 clubes: Grêmio, Internacional, Renner, Floriano, Cruzeiro, Nacional, Força e Luz, Brasil, Pelotas, Aimoré e Juventude. A dupla Gre-Nal acabou formando a base na lista final, com oito representantes cada. Mas também vale mencionar Renner, campeão estadual em 1954, que também tinha grande importância na montagem do time.

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Do Renner, aliás, vieram dois dos nomes mais célebres daquela seleção. O goleiro era o promissor Valdir Joaquim de Moraes, que posteriormente faria história na meta da Academia do Palmeiras. Enquanto isso, Ênio Andrade carregava a 10 nas costas, com o talento para conduzir o meio-campo. Ênio Rodrigues, zagueiro marcante do Grêmio nos anos 1950, vestia a braçadeira de capitão. Mas o restante do time titular era composto basicamente por jogadores do Internacional. Natural, para quem havia conquistado 13 dos 16 estaduais anteriores e ainda tinha cedido o técnico Teté para comandar a equipe nacional. Entre os nomes mais célebres, diversos ídolos históricos dos colorados, como o Larry, Chinesinho, Oreco e Florindo.

1956

A Seleção teve um desempenho notável no Pan. Em suas quatro primeiras partidas, quatro vitórias. A estreia veio contra o Chile de Leonel Sánchez, com Luizinho e Raul Klein definindo a vitória por 2 a 1. Na segunda rodada, o jogo mais polêmico, contra o Peru. Larry abriu o placar no final do primeiro tempo com um balaço no ângulo do goleiro. Porém, o veterano Félix Castilho infernizava a defesa. Após driblar dois adversários, o peruano estava a ponto de marcar, quando o massagista Moura – que atendia Ênio Rodrigues atrás do gol brasileiro – arremessou na bola a maleta do médico Derly Monteiro. A maluquice causou grande confusão e espalhou os curativos pelo campo, mas atrapalhou Castilho. Garantiu a vitória por 1 a 0, já que o árbitro assinalou apenas escanteio. Depois, ainda houve os 2 a 1 sobre o México e os 7 a 1 na Costa Rica – com quatro gols de Larry e três de Chinesinho.

A decisão, por fim, aconteceu diante do adversário mais pesado: a Argentina, treinada por Guillermo Stábile. Contudo, dois tropeços anteriores da Albiceleste davam ao Brasil a vantagem do empate contra o adversário direto. E os vizinhos vinham cheios de desfalques, após o 0 a 0 com o México repleto de jogadas violentas e expulsões. No primeiro tempo, Chinesinho abriu o placar, enquanto Yúdica empatou. Já o gol do título saiu dos pés de Ênio Andrade. Aos 40 da etapa complementar, o craque Omar Sívori até conseguiu igualar o marcador, mas o 2 a 2 acabou servindo para consagrar a Seleção. Em 18 de março de 1956, há exatos 60 anos, o Brasil dos gaúchos era campeão.

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A volta ao país teve as pompas oferecidas a uma grande conquista. O time passou por São Paulo e pelo Rio de Janeiro, recebendo homenagens e se encontrando com o presidente Juscelino Kubistchek. Mas nada superou a recepção que os jogadores tiveram em Porto Alegre. As repartições públicas declararam ponto facultativo, assim como o comércio fechou suas portas. Em um feriado extraordinário, cerca de 80 mil pessoas foram ao aeroporto Salgado Filho parabenizar os heróis, segundo o Almanaque Esportivo de 1957. Além disso, mais de mil carros participaram do cortejo até o centro da cidade.

Hoje, o que resta é a lembrança orgulhosa de quem participou daqueles feitos, já que a taça Jarrito foi derretida em 1983, roubada da sede da CBF junto com a Jules Rimet. Ainda assim, resiste a representatividade histórica daquela competição. Depois disso, combinados de Bahia, Pernambuco e Minas Gerais também chegaram a vestir a amarelinha em torneios. Já a seleção brasileira aos poucos começou a se abrir além de cariocas e paulistas. E um dos primeiros passos foi dado há seis décadas.