Há 150 anos o futebol se tornou um esporte formal. Foi em 1863 que distintos senhores ingleses reuniram-se em um pub para redigir as regras e deixar as bases da modalidade como ela é conhecida hoje. No entanto, desde muitos séculos antes, o ser humano se diverte chutando uma bola – ou, às vezes, somente algo parecido com isso. Existiram ancestrais do futebol entre gregos, romanos, chineses, aborígines australianos e povos pré-colombianos. A própria Inglaterra contava com a prática daquilo que é chamado de Futebol Medieval. E que foi proibido há exatos 700 anos.

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Durante a Idade Média, os jogos eram bastante difundidos nas vilas inglesas. Os confrontos envolviam aldeias vizinhas, com até centenas de jogadores, e as regras dependiam da região. Bastava chutar, arremessar ou carregar a bola (que, na verdade, era a bexiga de um porco enchida com areia) até um ponto de referência da outra vila para se jogar o ‘futebol’. E, além da vitória, o resultado mais comum da disputa era a destruição e a violência – algumas vezes, também como mortos no saldo final.

Em Londres, porém, a liberdade acabou em 13 de abril de 1314. Os comerciantes da cidade apresentaram uma queixa ao reino. Reclamavam dos prejuízos causados pelo futebol medieval. E o decreto foi assinado pelo dono da coroa, o Rei Eduardo II – que, séculos depois, foi retratado como príncipe no filme ‘Coração Valente’, derrotado na Primeira Guerra de Independência da Escócia e traído (só na ficção) por sua mulher com o mítico William Wallace.

Mesmo que não tenha sido atordoado pelo adultério, Eduardo II foi impassível em sua determinação: “Há um grande barulho na cidade, causado por uma disputa através de bolas enormes, das quais muitos males podem surgir e dos quais Deus nos livre. Nós comandamos e proibimos em nome do rei, sob pena de prisão, que tal jogo ímpio seja praticado na cidade”.

EdwardII-Cassell

Independente da queda do rei, a proibição vigorou. Duas décadas depois, a Inglaterra iniciou a Guerra dos Cem Anos. E o veto ao futebol era útil à máquina bélica dos britânicos. Afinal, os arqueiros eram importantes para o sucesso nos primeiros anos do conflito, mas preferiam os jogos de futebol aos treinos com arco. Tanto é que o rei Eduardo IV chegou a ordenar em 1477: “Ninguém deve praticar o futebol ou jogos parecidos, mas as pessoas fisicamente capazes devem praticar o arco, pois a defesa nacional depende disso”. Algo repetido por monarcas de França e Escócia, seus inimigos.

O problema é que os vetos não adiantavam muito, mesmo renovados por cinco sucessores de Eduardo II – incluindo Henrique VIII, que também gostava de ‘bater uma bolinha’ e teria encomendado anos antes aquele que é considerado o primeiro par de chuteiras da história. O futebol seguiu praticado nas vilas. Modificou-se com o passar dos anos. Chegou até mesmo a ser ferramenta de rebelião no Século XVIII, pretexto para as manifestações contra a lei de terras que alterava o regime de propriedade privada no país.

Mas, paradoxalmente, foi a monarquia inglesa uma das maiores incentivadoras do futebol no Século XIX. O esporte era um meio para a disciplina e para a educação física, amplamente difundido nas universidades londrinas. De lá, se espalhou no resto do país, para o controle do proletariado, e do mundo, com os marinheiros, os ferroviários e os outros encarregados de levar a outros cantos as tecnologias inglesas. Hoje, Londres conta com 40 clubes ativos na hierarquia do futebol inglês, o centro mais mercantilizado do futebol no mundo. Uma consequência irônica para aqueles comerciantes que clamaram pela proibição em 1314. Faltou tino comercial nessa postura.

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Uma resposta para “Há 700 anos, rei da Inglaterra decretava que jogar futebol era crime”

  1. Mós Degenerado disse:

    A prova de que reis não manjam nada!

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