Há jogos que não precisam acontecer nas melhores competições ou ser protagonizados por verdadeiros craques para se transformarem em lendários. Aliás, aos torcedores que tomam chuva nas arquibancadas, as histórias que se contam quase sempre não passam em rede mundial. Um caso desses aconteceu há exatos cinco anos, em 12 de maio de 2013. Tudo bem, os playoffs da Championship têm um valor bem alto, sobretudo financeiro, valendo algumas dezenas de milhões a quem conseguir subir à Premier League. Mas isso é detalhe quando se pensa naquele Watford x Leicester, partida de volta das semifinais da competição.

O Leicester tinha feito a sua parte no jogo de ida, batendo o Watford por 1 a 0 no Estádio King Power, gol de David Nugent. Já a volta se desenhava como um drama. Matej Vydra abriu o placar aos anfitriões em Vicarage Road aos 15 minutos. Nugent empatou aos 19. E aos 20 do segundo tempo, Vydra retomou a vantagem para o Watford, em placar de 2 a 1 que forçaria a prorrogação. Então, em meio ao desespero, aconteceu a alucinação nos acréscimos.

O Leicester poderia ter matado o jogo aos 52 do segundo tempo. As Raposas ganharam um pênalti (duvidoso) a seu favor e Anthony Knockaert precisava apenas converter para confirmar a classificação às finais dos playoffs. Seu chute no meio do gol parou nos pés de Manuel Almunia e, no rebote, o goleiro salvou de novo. Então, começou a narração que todo torcedor do Watford sabe de cor, memória indefectível de um contragolpe perfeito, que durou meros segundos. “Agora vem o Watford. Forestieri. Esse é Hogg. Deeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeney!”. Fernando Forestieri partiu pela direita e cruzou. Jonathan Hogg ajeitou e Troy Deeney desferiu o golpe fatal. Da desesperança, o Vicarage Road ganhou uma vitória para ser recontada ao longo de séculos.

Mais bonito que o gol de Deeney foi a comemoração, tirando a camisa e se jogando no meio das arquibancadas. A torcida mal se conteve e invadiu o campo antes mesmo que o árbitro decretasse o final do jogo. Gianfranco Zola, técnico do Watford, até caiu em meio à euforia que o tomou. E de cortar o coração era a imagem de Knockaert, prostrado, vendo tudo aquilo acontecer diante de seus olhos. O triunfo por 3 a 1 dava a classificação à Yellow Army.

O curioso é que, na final em Wembley, o Watford não subiu. Perdeu para o Crystal Palace, tomando um gol de pênalti na prorrogação. E vários personagens daquela partida, por descaminhos da vida, fariam história. O Leicester conquistou o título da Championship em 2013/14, se safou do rebaixamento na Premier League com um milagre em 2014/15 e escreveu seu conto de fadas incomparável em 2015/16. Kasper Schmeichel, Wes Morgan, Jeffrey Schlupp, Andy King, Jamie Vardy e Danny Drinkwater foram os remanescentes daquela derrota amarga, que acabaram erguendo a taça sob as ordens de Claudio Ranieri.

Naquele Leicester, há outras figuras que merecem menção. Nugent subiria também com o Middlesbrough em 2015 e volta a figurar nos playoffs nesta temporada, estrelando o Derby County. Chris Wood rodou por outros clubes da Championship até encabeçar o Burnley que vai à próxima Liga Europa. Naquela partida, o neozelandês foi substituído por um garoto de 19 anos emprestado pelo Tottenham, um tal de Harry Kane. Já Anthony Knockaert, além de ajudar no acesso em 2014, teve sua verdadeira redenção em 2017, eleito o melhor jogador da Championship ao recolocar o Brighton na elite, após uma espera que durava mais de 30 anos.

O Watford precisou perseverar um pouco mais. Depois de uma campanha de meio de tabela em 2013/14, o time terminou com o vice-campeonato na Championship 2014/15, valendo o acesso direto. Desde então, são três temporadas na Premier League, com desempenhos bastante honrosos. Curiosamente, o lateral Ikechi Anya e o centroavante Matej Vydra são companheiros de Nugent no Derby County que disputa os playoffs. Os remanescentes em Vicarage Road são apenas dois: o meio-campista Nathaniel Chalobah e Troy Deeney. Este, só sai do clube se quiser, e endeusado. Apesar de suas limitações, é um jogador que deu tudo de si aos Hornets nos últimos anos. Que deu o momento mais fantástico que a Yellow Army pôde vivenciar.