Helena Costa assumirá o cargo de treinadora do Clermont, clube da segunda divisão francesa, a partir da próxima temporada. Ela substituirá Régis Brouard, que deixará o time, 14º colocado na Ligue 2. Será a primeira mulher a ocupar o cargo de treinadora principal de um time de futebol profissional na França. Ao mesmo tempo em que a notícia é triste, por pensarmos que em pleno 2014 a presença de mulheres nos cargos de futebol ainda é uma raridade, ela é também animadora. Afinal, se isso já deveria ter acontecido antes, ao menos alguém resolveu dar o primeiro passo.

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Um zagueiro do Clermont, Anthony Lippini, deu uma declaração que mostra bem o espírito que a contratação pioneira da técnica Helena Costa deve ser encarado. “Eu estava falando com meu fisioterapeuta sobre a vez em que a primeira mulher entrou no exército, um ambiente muito machista. No começo, houve um pouco de choque. Mas agora, a presença de mulheres no exército se tornou normal. Deve acontecer o mesmo no futebol”, afirmou o jogador ao jornal L’Équipe.

“Eu mal posso esperar para voltar na próxima temporada e fazer parte disso. Eu estou realmente curioso. Será uma experiência única ser o primeiro time profissional a ser dirigido por uma mulher na França. É bom, cria repercussão”, disse ainda o jogador. No comunicado que anunciou Helena Costa como técnica, o clube disse que a escolha da treinadora “deve ajudar o clube a entrar em uma nova era”.

A portuguesa de 36 anos tem muita experiência com futebol. Começou a carreira no Benfica, onde ocupou vários cargos até começar a dirigir o time feminino. Depois, tornou-se olheira do Celtic em Portugal e na Espanha entre 2008 e 2011. O clube escocês, aliás, divulgou um comunicado parabenizando a sua ex-funcionária pelo novo cargo que ocupará.

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“Nós gostaríamos de parabenizar Helena sinceramente por assumir esse novo cargo”, afirmou um representante do Celtic ao jornal Guardian. “Ele fez um excelente trabalho para nós e sabemos que ela dará, nesse novo cargo, o mesmo nível de comprometimento e dedicação que ela deu ao Celtic”.

Não será a primeira vez que Helena comandará um time masculino. Ela treinou o Cheleirense, time que disputa divisões inferiores de Portugal e pelo qual venceu o campeonato regional de Lisboa em 2006. Ela também comandou times femininos no país, como a Sociedade União, clube pelo qual foi campeã portuguesa e levou a equipe à Liga dos Campeões feminina em 2008, e o Odivelas, levando o clube para a primeira divisão portuguesa feminina.

No comando do Catar, Helena conseguiu dar à seleção a sua primeira vitória,  4 a 1 sobre as Ilhas Maldivas em 2012. No Irã, último cargo que ocupava, não conseguiu classificar o time para a Copa do Mundo feminina. Na fase de classificação para a Copa Asiática, que serve como Eliminatórias para a Copa, o time ficou em terceiro no Grupo B, atrás da Tailândia e Filipinas, ficando à frente apenas de Bangladesh. Em três jogos, o time venceu uma e perdeu duas. Mesmo assim, ela só deixou o cargo porque um familiar adoeceu e ela teve que voltar a Portugal.

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Em entrevista ao jornal português Record, a treinadora falou sobre a sua paixão de futebol. “É mais do que uma paixão, é um vício”, ela disse. Ela revelava ter convites para treinar a Líbia e as Ilhas Maldivas, mas que preferia continuar como olheira do Celtic nesse tempo, se dedicar à família e esperar por uma oportunidade melhor.

Antes de Helena Costa, a última mulher que tinha ocupado o cargo de treinadora em um dos países mais importantes do futebol europeu tinha sido Carolina Morace, que assumiu o Viterbese, da terceira divisão italiana, por dois jogos em 1999. Helena Costa será apresentada à imprensa logo após o final da temporada.

Que seja só a primeira e que logo nós não tenhamos nem mais motivos para falar sobre uma mulher assumindo o comando de um time de futebol. Ainda há um longo caminho pela frente.

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