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Heleno de Freitas, o craque de excessos que o mundo não pôde conhecer

O tipo mais autêntico de esnobe é aquele que o é por ter plena consciência de toda sua capacidade e importância. Craque dentro de campo, Heleno de Freitas nunca deixou sua figura se resumir ao que fazia com a bola. Era um boêmio, bon vivant, uma figura relevante no Rio de Janeiro dos anos 1940. Havia estudado Direito antes de ser jogador de futebol. Apreciava jazz e literatura russa. Era um cara excessivo. Excesso de facetas, excesso de qualidade no gramado, excesso na vida. E, no meio de tantos excessos, lhe faltou a oportunidade de alcançar a glória mundial.

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Sua história no futebol começa de maneira quase folclórica, diferente da maioria dos atletas profissionais. Heleno de Freitas foi descoberto nas areias de Copacabana por Neném Prancha, que o levou para o departamento juvenil do Botafogo em 1935. Pelo fim das atividades de categoria de base, Heleno acabou indo para o Fluminense, mas sua carreira profissional começaria em 1939 pelo clube de General Severiano mesmo, do qual foi o maior ídolo antes da chegada de Garrincha.

Os traços mais marcantes de Heleno já se apresentavam desde seu início no Botafogo. Ágil e goleador dentro de campo, indisciplinado e polêmico no gramado e fora dele, o atleta despertava simpatia e adoração nos torcedores do clube e animosidade nos adversários e até mesmo entre seus companheiros de equipe. Em 1939, seu ano de chegada ao alvinegro, atuou apenas em um jogo. Um amistoso contra o San Lorenzo que acabou em vitória dos argentinos por 5 a 1. Na temporada seguinte, logo em sua terceira partida pelo clube, fez os dois gols de um triunfo sobre o São Cristóvão. O restante do ano teria somente mais três gols, mas o jogador estava apenas se ambientando no terreno em que tanto brilharia posteriormente.

Na temporada de 1941, Heleno já deu um salto enorme. Terminando o ano com 30 gols. Na seguinte, mais 34 para sua conta. Entre 1943 e 1945, mais 60 gols, média de 20 por temporada, e, em 1946, seu auge no Botafogo: 42 gols em apenas 39 partidas. O Sua fase espetacular coincidiu justamente com o período das duas Copas do Mundo que foram canceladas pela Segunda Guerra Mundial. Se os torneios fossem realizados, fatalmente o atacante alvinegro seria o grande destaque do Brasil, o herdeiro de Leônidas (ou talvez companheiro de ataque, pois o artilheiro de 1938 também estava jogando demais, pelo São Paulo) como o goleador da Seleção.

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Os gols de Heleno poderiam levar o Botafogo a vários títulos cariocas nesse período, mas não havia como concorrer com o Expresso da Vitória do Vasco. Mas o comportamento de Heleno também tinha seu papel nessa dificuldade do clube de General Severiano. O craque sabia de sua importância e relevância, e conforme seus feitos iam se amontoando, sua soberba também crescia, e o tratamento que conferia aos companheiros de equipe ia se deteriorando. Em diversas oportunidades discutia com os colegas durante treinamentos ou partidas de maneira acintosa e cometia outros atos de indisciplina, sendo frequentemente punido e até mesmo afastado do time.

Após anos no Botafogo sem conquistar um título e com o relacionamento desgastado no clube, transferiu-se para o Boca Juniors, em que atuou por apenas 17 partidas, marcando sete gols. Da passagem pela Argentina, vem a história de que teria até mesmo se envolvido com Eva Perón, boato que contribui ainda mais para a construção no imaginário popular da figura que foi Heleno. De volta ao Brasil, foi jogar pelo Vasco, pelo qual marcou 19 gols em 24 partidas, conquistando seu único Campeonato Carioca, em 1949. Após a curta estadia em São Januário, encerrada pelo relacionamento turvo que tinha com o técnico Flávio Costa, mais uma experiência internacional: no Junior de Barranquilla, da Colômbia, que até hoje tem uma estátua do atleta em seu estádio. Em seu período como jogador no futebol colombiano, foi diversas vezes personagem de crônicas de Gabriel García Márquez.

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Heleno tinha 30 anos e poderia fazer parte da Seleção na Copa de 1950, mas essa possibilidade era nula por dois motivos. Primeiro, o técnico do Brasil era Flávio Costa. Segundo, a liga colombiana não era reconhecida pela Fifa e quem nela atuava não poderia ser chamado para uma competição reconhecida pela entidade mundial. Com isso, o Maracanã, construído para a competição, foi testemunha de Heleno de Freitas apenas uma vez, em sua estreia pelo América. Ficou em campo apenas por 25 minutos, já que acabou expulso por ofensas a companheiros de equipe. Deixou o gramado sob vaias e decidiu abandonar o futebol.

Foi fora dos gramados, de sua vida desregrada, que veio sua ruína final. Os vícios em éter e lança-perfume e a sífilis foram, aos poucos, acabando com sua saúde mental. Há um episódio emblemático de uma vez em que, já aposentado do futebol, tentou se eletrocutar na chave de luz do Botafogo. Mesmo após encerrar a carreira como jogador, vivia frequentando os vestiários do clube do qual foi ídolo, talvez para tentar retornar a uma época em que havia sido tão adorado.

Heleno morreu em um sanatório em Santarém. Destino cruel e completamente contrário do gênio que um dia despertou sentimentos mistos no torcedor brasileiro. Cruel, mas criado pelo próprio jogador. “Antagonista de si mesmo”, como definiu o jornalista Alexandre Alliati em texto publicado no GloboEsporte.com à época do lançamento do filme em que é estrelado por Rodrigo Santoro, Heleno foi goleador e indisciplinado, ágil e controverso, conquistador e arredio. Construiu sua brilhante história e a destruiu também por conta própria, tropeçando nas próprias pernas, que antes o haviam levado ao estrelato. O artilheiro de 204 gols pelo Botafogo viu as circunstâncias da época e as que ele mesmo criou minarem sua chance de ser para sempre lembrado mundialmente. O Brasil conhece sua história, a Argentina e a Colômbia também, mas é uma pena que o restante do planeta não teve essa chance.

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