Arsenal e Tottenham fazem um clássico do Campeonato Inglês, chamado de dérbi do norte de Londres, o que já sugere um caráter geográfico para a rivalidade. A história desse dérbi passa por um dirigente, nos anos 1910: Henry Norris. O ex-presidente mudou o Arsenal do Sul para o Norte e articulou uma decisão polêmica que colocou o Arsenal na primeira divisão justamente no lugar do Tottenham, criando um clima de inimizade eterna entre os dois clubes que acirrou a rivalidade. A história da mudança de lugar do Arsenal e a articulação que prejudicou o Tottenham é a faísca inicial da inflamada rivalidade entre os dois clubes.

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A mudança de bairro do Arsenal

O primeiro duelo entre Arsenal e Tottenham aconteceu no dia 19 de novembro de 1887. Só que o panorama era diferente em vários aspectos e um particularmente importante: eram dois times de lugares opostos de Londres. Na época, o Arsenal era Woolwich Arsenal e ficava na região de Plumstead, no sul da cidade e que faz parte da Grande Londres. Sim, o Arsenal não era um time efetivamente de Londres, mas dos arredores da cidade.

O Arsenal era presidido então por Sir Henry Norris, um presidente descrito por alguns como “ditador do Arsenal”. Apaixonado por futebol, ele se tornou diretor e presidente do Fulham e teve participação indireta na fundação do Chelsea, rival e vizinho dos Cottagers.

Isso porque ele se recusou a mudar o Fulham para o estádio de Stamford Bridge, por considerar o preço pedido, £ 1.500 por ano, muito alto. O empresário Gus Mears, então, resolveu fundar um clube para usar o estádio: o Chelsea Football Club. Mas a participação de Henry Norris no futebol de Londres seria mais marcante mesmo pelo que fez pelo Arsenal.

Norris era implacável. Até o seu visual costumava assustar: tinha mais de 1,80 metro, usava um bigode grosso e estava sempre com um charuto na boca. O empresário fez fortuna com uma empresa de imóveis. A sua empresa, Allen & Norris, foi uma das responsáveis por transformar Fulham de um bairro ainda quase rural e em um bairro intensamente urbano. Sua atuação empresarial deu a ele, além de dinheiro, muitos contatos importantes, que deviam favores a ele.

Em 1910, ele se tornou acionista majoritário do então Woolwich Arsenal, depois do clube abrir falência. A situação financeira do clube era, evidentemente, muito ruim e Norris considerava o futuro do clube longe de Plumstead. Ele primeiro tentou fundir Fulham e Arsenal – já imaginaram? –, levando o Arsenal para Craven Cottage para fundar um “superclube” de Londres.

A ideia não vingou, mas não por oposição da diretoria ou torcedores, mas sim porque a Football League impediu. A única vez que isso aconteceu. O dirigente concluiu que seria necessário mudar o Arsenal de lugar para melhorar a situação do clube. A mudança ficou conhecida como “a grande aposta do Arsenal”.

Foi preciso muita habilidade para superar os problemas legais que envolviam a mudança. Outro problema era a oposição dos torcedores, que não se conformavam com uma mudança tão grande. O dirigente acusou a torcida de não comparecer em número suficiente. A suspeita é que Norris articulou para que isso acontecesse e o estádio ficasse vazio.

Isso porque na temporada 1912/13, a única em que o Arsenal foi rebaixado da primeira divisão na sua história, acusam Norris de ter vazado a informação sobre a ideia da mudança e investiu menos do que podia no time, intencionalmente enfraquecendo-o. Com isso, menos gente foi ao estádio, o clube ficou em situação pior e a ideia de mudança seria mais aceita como imprescindível. Torcedores escreviam para os jornais locais acusando Norris de “vender a alma do clube”.

Em uma carta enviada por um torcedor ao Kentish Gazette mostra como a torcida via a mudança. “O senhor Norris decidiu que o ganho financeiro é mais importante que proteger o nosso clube local. Ele está cometendo um erro. Você não pode fazer uma franquia de um clube de futebol. Woolwich Arsenal deve permanecer perto de Woolwich. Norris defenderia mudar Liverpool para Manchester? Pessoas como ele não tem lugar no futebol”.

Nada disso parou Norris. Os protestos de Leyton Orient, Chelsea e Tottenham fizeram a Football Association (FA) investigar, mas o poder e influência de Norris fizeram a mudança seguir adiante. Os clubes, na verdade, temiam perder torcedores para um novo clube na cidade. Entre os opositores, ainda estavam os moradores de Highbury, que temiam a movimentação causada por futebol e os prejuízos aos seus negócios, e a Igreja da Inglaterra, que considerava o futebol algo profano e não queria o clube por ali – o terreno era próximo da igreja. Todos obstáculos superados por Norris, com sua habilidade política, poder e, alguns dizem, dinheiro.

Foram considerados lugares em Battersea e Haringey, mas o espaço encontrado em Highbury acabou sendo o mais atrativo, ao lado da estação de metrô Gillespie Road (mais tarde renomeada estação Arsenal). O Tottenham não gostou da mudança desde o começo, com um rival para a sua área.

Foi quando começou mesmo a rivalidade entre os dois times. O Arsenal cruzou o rio Tâmisa em 1913 e ficou a apenas quatro milhas do Tottenham. Foi só então que se moldou o que chamamos de clássico do Norte de Londres. Desde então, os torcedores do Tottenham usem o argumento que eles são autenticamente da região norte de Londres e o Arsenal não é dali.

Também na época da mudança, os dois times estavam em situações bem diferentes. O Tottenham estava na primeira divisão, enquanto o Arsenal estava na segunda. Este, aliás, seria o segunda capítulo de uma rivalidade intensa.

A votação que beneficiou Arsenal e rebaixou o Tottenham

Um dos episódios mais marcantes da história da rivalidade entre os dois times aconteceu fora de campo. O Arsenal é o time há mais tempo na primeira divisão do país, considerando toda a história. Foi promovido em 1919 e nunca mais deixou de estar na primeira divisão inglesa. Só que o acesso do clube é muito controverso, para dizer o mínimo.

Quatro meses depois do Dia do Armistício, que marcou o fim da Primeira Guerra Mundial, as autoridades queriam revitalizar o futebol do país e a ideia era aumentar o número de clubes da primeira divisão de 20 para 22. A tradição nesse tipo de situação, que já tinha acontecido antes, era que os clubes rebaixados fossem mantidos e os primeiros colocados da segunda divisão promovidos.

Por causa da Primeira Guerra Mundial, não houve campeonato entre 1915 e 1919. Em 1915, Derby e Preston foram os dois primeiros colocados da segunda divisão e seriam promovidos, logo depois da parada que houve por causa da Primeira Guerra Mundial. O Chelsea, que tinha sido 19º colocado, foi mantido na primeira divisão na época. A história foi polêmica na época.

O Manchester United, para evitar o rebaixamento naquele 1915, combinou resultado com o Liverpool. Sim, o Liverpool, maior rival, e venceu por 2 a 0. Com isso, mandou o Chelsea para a zona do rebaixamento. Só que o presidente do Liverpool, John McKenna, talvez por sentir culpa pelo ocorrido, disse, na reunião da 1919, que argumentou anos antes pela permanência do Chelsea na primeira divisão. McKenna teria recebido dinheiro do Manchester United para que o Liverpool entregasse o jogo, o que lhe rendeu o apelido irônico de “honesto”.

Henry Norris, presidente do Arsenal, usou a situação a seu favor. Ele argumentou que o Arsenal era quem mais merecia um lugar na primeira divisão do país, com base no longo serviço prestado pelo clube à própria liga. O Arsenal foi o primeiro clube do sul da Inglaterra a entrar na Football League, em 1893. Norris argumentou que o Arsenal merecia mais o lugar na primeira divisão que o Tottenham, além de outros clubes que se candidataram, como Barnsley e Wolverhampton. Só que havia um problema: o Arsenal tinha terminado em quinto lugar na tabela.

Depois do Arsenal entrar com essa argumentação contestável, outros clubes também tentaram aproveitar a brecha. Nottingham Forest, Birmingham e Hull também se candidataram a ficar na primeira divisão. Com isso, eram sete clubes brigando por uma vaga. Em 10 de março de 1919, a liga se reuniu e havia muita expectativa sobre o resultado do encontro. O relato do Daily Express sobre a reunião em Manchester, na época, mostra que a política estava fervendo.

“Londres nunca esteve mais intimamente preocupada com as deliberações da Football League que esta ocasião… Há um entendimento que o Chelsea será votado para a Primeira Divisão, e quando o esquema atual foi discutido pela primeira vez, foi considerado claro que eles seriam acompanhados pelo Tottenham Hotspur, mas o Arsenal considerava que eles tinham uma reivindicação superior e fez um apelo aos clubes que votassem nele em relação aos Spurs… Há uma forte opinião que considera que o Tottenham Hotspur deve permanecer na Primeira Divisão”.

Quem teve um papel decisivo na mudança dessa tendência foi o presidente do Liverpool e da liga na época, John McKenna, que era amigo próximo de Norris. Lembremos: o Liverpool tinha combinado um resultado com o rival Manchester United para salvar este segundo do rebaixamento, um escândalo que fez McKenna interceder contra o rebaixamento do Chelsea em 1915. O Chelsea estava garantido na primeira divisão nessa expansão muito por causa desse episódio, portanto. E McKenna foi quem argumentou em favor de Norris, e do Arsenal.

McKenna pediu encarecidamente que os clubes votassem a favor do Arsenal, em vez do Tottenham, dizendo que os Gunners tinham entrado na liga 15 anos antes dos Spurs. Ele validou, assim, o discurso de Norris. Quando os votos foram contados, o Arsenal venceu a disputa com o voto de 18 clubes, contra oito votos para o Tottenham, cinco do Barnsley, cinco para o Wolverhampton, três para o Forest, dois para o Birmingham e apenas um para o Hull.

Apesar de ter terminado em quinto lugar na segunda divisão na temporada anterior à interrupção pela guerra, em 1914/15, o Arsenal foi quem ficou com um lugar na primeira divisão. O Tottenham, 20º colocado, foi rebaixado. A decisão causou revolta nos dirigentes e torcedores do Tottenham, que acusaram Norris de comprar votos de outros times da liga.

Dizer que a decisão foi uma farsa é anacrônico, porque naquela época esse tipo de decisão acontecia – o próprio Tottenham se beneficiou disso anos antes, em 1908, ainda na Southern League, sendo promovido em detrimento do Queens Park Rangers, campeão da divisão, mesmo os Spurs tendo ficado apenas em oitavo lugar. Mas isso não significa que aquela decisão não tenha sido vista por muitos como um golpe de Norris, apoiado por McKenna. Norris se tornou um inimigo mortal do Tottenham.

O Tottenham voltou à primeira divisão no ano seguinte, depois de conquistar o título da temporada 1919/20 e, assim, a história de rivalidade e de confrontos inflamados com o Arsenal logo seria retomada, agora com novos elementos de inimizade entre os dois clubes.

Na primeira divisão, o primeiro clássico do Norte de Londres que aconteceu na primeira divisão foi no dia 15 de janeiro de 1921. O Tottenham venceu por 2 a 1 e o clima esquentou muito. Tanto que, 18 meses depois, dado o clima hostil, a FA ameaçou realizar o jogo com portões fechados como punição aos clubes.

Desde então, os dois clubes fazem um clássico repleto de rivalidade e com uma história cheia de altos e baixos ao longo de muitas décadas. Estes episódios, porém, ficaram marcados para sempre na história dos dois clubes.

A contratação de Chapman e a saída por irregularidades financeiras

Norris foi fundamental para que o Arsenal seguisse existindo e, mais do que isso, para que se tornasse o que é atualmente. A mudança de bairro foi crucial para o clube, assim como a articulação que o controverso dirigente conseguiu naquele final da década de 1919, prejudicando o clube que se tornaria maior rival dos Gunners. A sua importância para o clube, porém, vai além.

Foi Norris que contratou o maior técnico da história do Arsenal. E também com um escândalo que o tirou de circulação por irregularidades pelas quais foi acusado. Brian Glanville, jornalista e autor do livro “The Real Arsenal: From Chapman to Wenger”, descreve a importância de Norris para o Arsenal assim:

“No panteão de heróis do Arsenal, ninguém fica mais alto que o supremo Herbert Chapman, rivalizado como um técnico excepcional apenas por Arsène Wenger. Mas, na minha opinião, a figura mais influente da longa e notável história do Arsenal é Sir Henry Norris. Um nome certamente há muito esquecido nos anais do futebol inglês, e com toda certeza, na minha opinião, o homem que com força, malandragem, persistência e riqueza, tornou possível para o clube que ele levou a atravessar o Tâmisa em 1913”.

Uma mudança que transformou não só a história do Arsenal, mas também do Tottenham. O clube se recuperou e conseguiu viver anos de glória anos depois, quando, em 1925, Norris substituiu o então técnico Leslie Knighton com o revolucionário Herbert Chapman. O dirigente, porém, deixaria o Arsenal de forma nebulosa: investigado por irregularidades financeiras pela FA, em 1929, ele saiu do clube.

Morreu em 1934, mas deixou um legado enorme – e controverso – ao Arsenal, especialmente pela recuperação financeira, que incluiu a mudança para Highbury e a contratação de Chapman. Sem, claro, deixar de lado que se tornou inimigo do Tottenham para toda eternidade.