A coluna até já comentou sobre o assunto. Mas a dimensão que ele anda ganhando é tanta (e importante a tal ponto) que merece ser o tema principal, mesmo quando o fim de semana marca o retorno do Campeonato Holandês, começando pela 19ª rodada – com direito a Ajax x PSV entre as partidas, e com o time de Eindhoven ostentando provavelmente o mais importante reforço do futebol holandês nesta janela, ao trazer de volta ao futebol holandês Bryan Ruiz, por empréstimo. Só que a seleção holandesa pode estar tendo seu destino traçado e seus técnicos decididos até 2018, no mínimo.

E é bem provável que ele esteja sendo traçado por meio de reportagens em um jornal, “despretensiosamente”. As aspas aqui denotam uma alta probabilidade de ironia, porque o De Telegraaf é o maior jornal da Holanda – pelo menos, o mais falado. Baseado em Amsterdã – e, até por isso, mais focado nas coisas do Ajax, futebolisticamente -, com tiragem diária de cerca de 520 mil exemplares, em dados oficiais, o diário tradicional (completou 121 anos em 1º de janeiro) tem sido ponta-de-lança de acontecimentos no futebol holandês, nos últimos anos.

Primeiramente, foi a “Revolução de Veludo” pela qual o Ajax passou entre os últimos meses de 2010 e o início de 2011. O estopim dela foram as colunas que Johan Cruyff escreve no jornal às segundas-feiras, por meio das quais Cruyff começou a pedir maior participação dos ex-jogadores do Ajax nos destinos futebolísticos do clube, para que ele voltasse a dominar o futebol holandês. De fato, teve êxito: hoje, todos os postos-chave do futebol Ajacied são exercidos por ex-jogadores, e é inegável que o tricampeonato exibe nova fase de soberania do clube de Amsterdã.

E foi a partir de outro famoso colunista esportivo do De Telegraaf que ficou clara a discussão sobre quem treinará a seleção holandesa após a Copa de 2014 (Louis van Gaal já anunciou a saída). Para lembrarmos: a coluna intitulou como “Apenas mais uma de amor” o comentário sobre o que Guus Hiddink escreveu num de seus textos. Parafraseando a canção homônima, parecia que treinar a seleção holandesa era apenas uma ideia que Hiddink tinha na cabeça. E não tinha a menor obrigação de acontecer, até porque o treinador que comandou a Oranje entre 1995 e 1998 está supostamente aposentado.

Isso, até que Cees van Nieuwenhuizen, agente do técnico, confirmasse o desejo dele em suceder Van Gaal. E que fosse até além: “Se a federação o chamar para uma conversa, tenho certeza de que ele irá aceitar. Guus pode esperar”. Pois bem: Guus Hiddink foi ter uma conversa com Bert van Oostveen, o diretor de futebol profissional da federação holandesa. E não houve mais informações sobre o que se decidiu nela, se é que algo foi decidido.

Para todos os efeitos, o principal favorito a tornar-se técnico da seleção era Ronald Koeman, de trabalho elogiável no Feyenoord, carreira já mais consolidada e identificação com o time nacional. Mas o De Telegraaf noticiou, em 14 de dezembro do ano passado, que aquela conversa com Van Oostveen já tinha decidido as coisas. Hiddink seria anunciado logo como o novo técnico da Holanda, para após a Copa de 2014, e comandaria a equipe até a Euro 2016. Após o torneio continental, se tornaria diretor técnico da entidade e ajudaria na escolha do novo técnico. A matéria até nomes indicada: Frank de Boer ou Clarence Seedorf eram as apostas para depois da Euro.

Claro, tal notícia teve grande repercussão. Koeman nada falou sobre a hipotética contratação de Hiddink, mas demonstrou implicitamente uma grande chateação, por ter sido esquecido sem que nada lhe fosse esclarecido. Pior: a federação propôs a ele virar auxiliar do novo técnico, até repetindo a Copa de 1998 (Hiddink teve como auxiliares o próprio Koeman, então recém-aposentado, além de Johan Neeskens e Frank Rijkaard). A federação só se pronunciou numa nota, na qual Van Oostveen negava qualquer decisão.

Mas o próprio jornal se encarregou de colocar mais lenha na fogueira neste começo de ano: no sábado passado, dia 11, cravou que o sucessor de Hiddink também já está escolhido. Contente com seu trabalho como um dos auxiliares de Van Gaal, a federação faria de Danny Blind o técnico da seleção depois da Euro 2016, e o ex-zagueiro a comandaria até a Copa de 2018. Novamente, ninguém falou nada: nem a KNVB, nem o pai de Daley.

E Blind até poderia resultar num bom técnico. Mas até agora, teve experiências apenas no Ajax, entre 2005 e 2006. Desde então, ora exerce cargos de diretor técnico, ora é apenas auxiliar técnico. Seria bom vê-lo ganhar cancha em outro lugar, entre 2014 e 2016. E seria bom, antes de tudo, que a federação holandesa confirmasse urgentemente quais são seus planos para a sucessão de Van Gaal. Isso deixará a situação mais honesta, deixando de ser apenas notícia de jornal.