Um 4-3-3 com dois pontas bastante ofensivos. Este foi o esquema básico da seleção holandesa desde que o Futebol Total impressionou o mundo, nos primeiros anos da década de 1970. Esquema ligado à imagem da seleção holandesa de tal maneira que surgiu até a lenda urbana de que era cláusula do contrato de todo técnico da Oranje que ele fosse usado, “para preservar o espírito ofensivo da equipe”. Mas o 4-3-3 já vinha sendo progressivamente esquecido, com Bert van Marwijk e Louis van Gaal consolidando o 4-2-3-1 como a nova imagem tática da seleção. De quebra, Van Gaal viu sua aposta do 5-3-2 dar muito certo na Copa.

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Só que Guus Hiddink decidiu escalar a Holanda no 4-3-3 velho de guerra em sua volta à seleção, contra a Itália, em Bari. A decisão para o amistoso desta quinta causou até certa surpresa. Afinal de contas, Hiddink afirmara na entrevista coletiva de sua apresentação que apoiava o esquema mais defensivo visto na Copa, e que a mentalidade futebolística holandesa deveria aceitar o fato de que jogar bem nem sempre era a única coisa que contava, embora fosse altamente importante. Com isso, esperava-se por um esquema mais cauteloso, até porque o início da temporada e a falta de férias levaram a lesões que tiraram Robben, Van der Vaart, Huntelaar e Vlaar da convocação.

Nem assim o “Mago de Varsseveld” desistiu de escalar a equipe no esquema clássico. Poderia até ter dado certo o 4-2-1-3 com que a Oranje foi ao gramado do San Nicola, tendo Sneijder como principal armador, enquanto Wijnaldum e De Jong ficavam a cargo da marcação no meio-campo. Só que o 4-3-3 expôs uma falha que o 5-3-2 da Copa conseguira minorar: a ingenuidade gritante da zaga holandesa. Pior ainda: houve demora dos jogadores em ficarem atentos ao jogo. Essas duas deficiências levaram aos dez primeiros minutos pavorosos da Oranje, que praticamente definiram a vitória italiana.

O primeiro gol da Azzurra, por exemplo, saiu de uma falha de De Vrij, logo aos três minutos: ele errou ao tentar interceptar um passe de Bonucci, deixando Immobile livre para fazer 1 a 0. Percebendo a fragilidade da defesa holandesa, o time italiano aplicou uma pressão nem tão forte, mas suficientemente perigosa para forçar erros. O segundo gol surgiu assim: Janmaat falhou na linha de impedimento, e deixou Simone Zaza (um dos destaques do jogo, ao lado de Immobile) livre. Restou a Bruno Martins Indi correr atrás, fazer o pênalti e tornar-se o jogador holandês a ter a expulsão mais rápida numa partida da seleção do país.

Com o 2 a 0 feito por De Rossi, o jogo estava praticamente definido em dez minutos. De quebra, Hiddink teve de enfraquecer o ataque, tirando Lens para colocar Veltman, que faria a parceria com De Vrij. Porém, a Oranje ainda poderia ter uma chance de mostrar serviço no ataque. Se (e somente se) seus destaques tivessem mais velocidade. Não foi o que aconteceu. Van Persie visivelmente precisa se recuperar da desgastante temporada passada, pois mostra um cansaço incrível – e ainda assim, chegou até a mandar uma bola na trave, no segundo tempo. Sneijder, novamente, decepcionou na armação. E Kuyt não é nem nunca foi tão rápido quanto Robben.

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Claro, as desatenções que custaram a vitória foram motivos de críticas de Hiddink: “Que alguém saia tão livre nas nossas costas é algo que não pode acontecer. Uma vez ou outra, pressionar no meio-campo fica impossível, mas aí é cuidar nas disputas diretas para não ser superado. Nós não sentimos o perigo. E daí o jogo acabou. Não podíamos mais causar danos à Itália, apenas minorar o desastre”. Kuyt também lamentou o “apagão de dez minutos”: “Nosso começo foi desastroso. Após a expulsão e o pênalti, o jogo tinha acabado. Este mesmo grupo fez uma Copa do Mundo fantástica, mas agora isso não importa mais”.

Fica a dúvida para Hiddink se continuar jogando no 4-3-3 ainda é o melhor para a seleção da Holanda, diante da ascensão experimentada nos últimos anos sob o 4-2-3-1. E ele não tem muito tempo para pensar e responder. Afinal, já na terça a Oranje volta a campo. E agora o jogo vale: é contra a República Tcheca, em Praga, pelas eliminatórias da Euro 2016. Claro, nada está perdido. Cabe até lembrar que Van Gaal também começou sua segunda passagem pela seleção com derrota (4 a 2 para a Bélgica, em 2012). Só que a primeira partida sob Guus talvez tenha mostrado que o bom e velho 4-3-3 só se sustentará caso os jogadores fiquem sempre atentos à marcação.

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