Quando se fala do Real Madrid multicampeão da virada do século, talvez o primeiro nome que venha a mente é o de Raúl. Natural, diante de toda a idolatria e dos gols fundamentais anotados pelo xodó da torcida. Mas, em nível de simbolismo, Fernando Hierro pode ser colocado no mesmo patamar do camisa 7. Ele foi um dos líderes a reerguer os merengues ao topo do continente. Não à toa, usou a braçadeira de capitão na conquista da Champions League em 2002, sucedendo Manuel Sanchís e Fernando Redondo, outros dois próceres do madridismo. A grandeza do camisa 4, todavia, extrapola o mero senso de sua imponência e de seu espírito competitivo. Ele também foi um defensor completo como poucos, capaz de participar de todas as fases do jogo. Combinava potência física, leitura de jogo e qualidade técnica. Lenda do futebol espanhol, que completa 50 anos nesta sexta.

Fernando nasceu em uma família de futebolistas. Seus dois irmãos mais velhos também eram jogadores profissionais e defensores. Antonio e Manolo fizeram carreira no Málaga, clube da cidade onde os Hierro estavam estabelecidos. Entretanto, quando o caçula foi se provar no clube andaluz, acabou dispensado nos testes. Sua sorte mudou a partir de 1986, quando Manolo se transferiu ao Valladolid. O irmão conseguiu recomendar Fernando à diretoria e logo o adolescente emplacou nas categorias de base. Provou como os boquerones estavam errados.

Hierro ganhou a primeira oportunidade no Valladolid em outubro de 1987. Não precisou de muito para se tornar titular dos blanquivioletas, disputando 29 partidas naquela temporada. Atuava como volante. Já na campanha seguinte, absoluto na cabeça de área do time, não apenas teve o gosto de terminar em uma honrosa sexta colocação em La Liga. Os pucelanos também alcançaram a final da Copa do Rei, derrotados pelo Real Madrid na final. Cheio de moral, o prodígio era cortejado pelos dois rivais da capital. O Atlético chegou a acertar sua contratação, mas, a pedido do jovem, o Valladolid o negociou com o Real.

No Santiago Bernabéu, Hierro não demorou a se afirmar como uma realidade, mesmo se integrando ao time que vinha de quatro títulos consecutivos no Campeonato Espanhol. Firmou-se com Josh Toshack, atuando como zagueiro e por vezes aberto na ala. Anotou sete gols durante o penta, em time que ainda contava com Emilio Butragueño, Hugo Sánchez, Bernd Schuster, Manolo Sanchís e outros ídolos. Ao final da temporada, veio o grande prêmio. El Mariscal pôde disputar sua primeira Copa do Mundo, convocado por Luis Suárez para o Mundial de 1990. Seria reserva ao longo do torneio na Itália.

Os anos seguintes foram mais difíceis a Hierro no Real Madrid. A partir de 1990/91, o clube atravessou uma seca de quatro temporadas em La Liga. Pior, assistiu ao Barcelona se consagrar com o tetracampeonato e ainda conquistar sua primeira Copa dos Campeões. De qualquer forma, o projeto dos merengues para se reerguer passava por Hierro. E era natural que isso acontecesse. O polivalente jogador atuava em diferentes posições no meio-campo e na defesa. Oferecia muita firmeza nos combates, providenciando solidez defensiva ao time. Primava também pela qualidade nos passes, distribuindo o jogo e criando jogadas. Além do mais, tinha um extra por suas aparições no ataque, dono de um chute potente, de uma cabeçada perigosíssima e de precisão nas bolas paradas. Não à toa, adorava anotar os seus gols. Em três temporadas consecutivas, chegou aos dois dígitos no Espanhol – inclusive terminando como vice-artilheiro da competição em 1991/92, com incríveis 21 tentos, à frente até mesmo de Hristo Stoichkov.

Nas Eliminatórias para a Copa de 1994, Hierro se tornou herói nacional, ao anotar o gol da classificação contra a Dinamarca. Porém, alternou entre a reserva e a titularidade no Mundial dos Estados Unidos, mesmo abrindo o caminho na classificação contra a Suíça nas oitavas de final. Depois disso, Hierro experimentou a redenção do Real Madrid. Em 1994/95, o time reconquistou La Liga. Ainda que marcasse seus gols e orientasse a saída de bola, o Mariscal atuava mais recuado, formando célebre dupla de zaga com Sanchís – em time cujo meio-campo possuía uma dupla cerebral formada por Fernando Redondo e Michael Laudrup. Já em 1996/97, o andaluz conquistou mais um título nacional. A prévia para o ápice que começaria a partir de 1998.

A afirmação de Hierro na história do Real Madrid passa pela Liga dos Campeões de 1997/98. O defensor foi um dos protagonistas na campanha que encerrou o jejum de 32 anos no clube. E não apenas pela segurança que transmitia na defesa. O zagueiro anotou três gols, importante sobretudo para eliminar o Bayer Leverkusen nas quartas de final. Ao fim, ajudou a segurar a Juventus na decisão em Amsterdã. Era o responsável por acompanhar Alessandro Del Piero e anulou o craque. Já no ataque, Predrag Mijatovic definiu a vitória por 1 a 0. Em um clube que conta sua história pelos sucessos europeus, o camisa 4 poderia se incluir entre os maiores. Terminou a temporada eleito como o melhor defensor da Europa, além de figurar pela terceira vez entre os votados à Bola de Ouro.

Haveria mais para Hierro. Em 1998, ele disputou sua terceira Copa do Mundo, parte do fiasco da Espanha – eliminada ainda na primeira fase. Nada que manchasse a imagem do veterano. A cada temporada, ergueu ao menos uma taça com o Real Madrid. Voltou a faturar a Champions em 1999/00, apesar de perder espaço na reta final da campanha, ao se lesionar. Em 2000/01, levou La Liga pela quarta vez. Já em 2001/02, aos 34 anos, atravessou uma das melhores temporadas da carreira. Absoluto no Real Madrid, foi ele quem recebeu o troféu da Champions em Glasgow, logo após o eterno gol de Zidane contra o Bayer Leverkusen. E ainda faria uma enorme Copa do Mundo pela seleção espanhola, a ponto de acabar eleito para o time ideal da competição. Grande campanha que terminou em frustração, diante da queda contra a Coreia do Sul nas quartas de final. Despediu-se da Fúria após o torneio, com 89 partidas e 29 gols – maior artilheiro da história da equipe nacional naquele momento, ultrapassado depois por Raúl, David Villa, Fernando Torres e David Silva.

Por fim, Fernando Hierro viveu a última de suas 14 temporadas pelo Real Madrid em 2002/03. Era mais um dos galácticos, apesar de discordar da política de Florentino Pérez em pensar mais na comercialização do que propriamente na construção do time. Entrou em rota de colisão com o dirigente, o que botou um ponto final em sua trajetória sem grandes pompas. Ainda assim, como não poderia ser diferente, terminou com a faixa no peito, campeão espanhol pela quinta vez na carreira. Somou 601 partidas com a camisa merengue, o suficiente para igualar o mítico Paco Gento entre os que mais entraram em campo pelo clube. Atualmente, ambos ocupam a quinta colocação da lista – abaixo de Raúl, Casillas, Sanchís e Santillana. Além disso, o Mariscal anotou 127 gols, marca expressiva apesar de sua função.

Hierro passou uma temporada no Al Rayyan, até integrar o projeto de veteranos do Bolton, atuando por um ano na Premier League – e ajudando os Whites a se classificarem à Copa da Uefa. Em 2005, aos 37 anos, deu por completa a sua missão nos gramados. Mas continuou próximo do futebol. A partir de 2007, atuou como diretor de futebol na federação espanhola, parte da gestão na conquista da Euro 2008 e da Copa de 2010. Depois, seguiria ao Málaga, quadrifinalista da Champions em 2012/13. Trabalhou também como assistente de Carlo Ancelotti no Real Madrid, até assumir o Real Oviedo em curta passagem como técnico principal. Sua contribuição ao futebol, independentemente disso, está gravada para sempre. A camisa 4 do Real e a 6 da Espanha têm um significado especial quando se pensa em Hierro.