O perfil do público dos estádios ingleses mudou muito depois de Hillsborough (Foto: AP)

Hillsborough foi o ‘basta’ que o futebol inglês precisava para mudar

“Algo dera errado – não haviam aberto catracas suficientes, ou então a polícia havia feito um trabalho de porco ao controlar o fluxo da multdião, tanto faz – e houve um tumulto enorme junto às entradas para o lado norte na Avenell Road. Eu podia erguer as duas pernas e continuar preso no ar, e a certa altura tive de levantar os braços para ganhar um pouquinho de espaço e não deixar que meus punhos ficassem entrando no peito e no estômago. Não foi nada de especial, na verdade; tudo que é torcedor já esteve em situações nas quais as coisas por um instante ficaram feias.

(…)

Mas o negócio era que eu confiava no sistema. sabia que não podia ser esmagado até morrer, porque isso nunca acontecia em partidas de futebol (…) Vejam bem: na Inglaterra, alguém, em algum lugar, sabia o que estava fazendo, e havia o tal sistema, que ninguém nunca explicara para nós, que prevenia acidentes desse tipo. Podia até parecer que as autoridades, o clube e a polícia abusavam da sorte em certas ocasiões, mas isso era só porque não entendíamos direito como elas organizavam as coisas. No meio da confusão em Avenell Road, naquela noite havia pessoas rindo e fazendo caretas engraçadas quando ficavam sem ar; riam porque estavam apenas a poucos metros dos despreocupados guardas e oficiais montados e sabiam que isso assegurava a sua segurança. Como é que você podia morrer se o socorro estava tão perto?

Mas me lembrei daquela noite nove anos depois, na tarde da catástrofe de Hillsborough, e me lembrei de muitas outras tardes e noites também, quando parecia que havia gente demais no estádio, ou que a multidão fora distribuída desigualmente. Ocorreu-me que eu podia ter morrido naquela noite, e que em algumas outras ocasiões já estive mais perto da morte do que gosto de pensar. Não havia plano algum, afinal; na verdade, estavam abusando da sorte o tempo todo.

A tragédia de Hillsborough foi um tapa na cara da sociedade britânica. Como descreve bem o escritor Nick Hornby, ao contar o que passou em um Arsenal x Southampton de 1980 em seu livro “Febre de Bola”, até as 96 mortes de Sheffield, acreditava-se que todas as confusões, todos os problemas, todos os perigos estavam sob alguma forma de controle, e que não havia motivo para a busca radical por soluções. Mas era impossível relativizar o que aconteceu naquela semifinal de FA Cup. E todo o Reino Unido ficou com a sensação de que ações duras e imediatas eram fundamentais.

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Muita coisa foi feita, mas nem tudo pode ser creditado apenas ao desejo do governo da época em combater os torcedores. Nunca é demais lembrar que o Hillsborough não foi causado por hooliganismo. O próprio Lorde Peter Taylor, responsável pelo inquérito, culpou a incompetência da polícia e a falta de estrutura do estádio do Sheffield Wednesday pela tragédia. No entanto, a conclusão geral que ficou é de que os torcedores do Liverpool eram vândalos, que não mereciam o benefício da dúvida.

A polícia alterou evidências para culpar a torcida do Liverpool e parte significativa da sociedade, impulsionada pelo sentimento de “Basta!”, estava disposta a acreditar. Esse cenário motivou o tabloide The Sun a publicar uma capa histórica em que acusa os torcedores de urinar nos “bravos policiais”, roubar os mortos e bater nos médicos. O governo foi conivente com essas mentiras porque eram uma boa chance de mudar tudo no futebol inglês e inclusive se vingar do público do futebol, muito parecido com aquele que ia às ruas reclamar das medidas neoliberais da primeira ministra Margaret Thatcher.

“Ela é o anti-cristo”, afirma o músico Daniel Hunt, da banda Ladytron, 39 anos, torcedor fanático do Liverpool e DJ da final da Liga dos Campeões de 2005, entre o seu clube e o Milan. “Ela nos odiava e tinha um ódio especial pelo Liverpool. Era vingativo porque eram as mesmas pessoas que estavam protestando, que estavam criando problema. Não foi apenas: isso é um problema, chegou muito longe. Era uma briga de classes, mas não vamos ver assim na BBC ou no The Sun.”

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O senso comum credita muita das mudanças que ocorreram no futebol inglês a Thatcher, mas ela teve pouca ou nenhuma influência em tudo o que aconteceu. A principal bandeira do Partido Conservador britânico era identificar os torcedores com carteirinhas, sob o Ato de Espectadores de Futebol de 1989. Houve um protótipo disso no Luton Town, cujo presidente David Evans era membro do parlamento pelos Conservadores. “Você teria que passar o cartão pela catraca para ganhar acesso. Cada torcedor teria o seu. Não teria como funcionar, especialmente naquela época em que a tecnologia não havia avançado o suficiente. Teria sido um desastre. De certa forma, Hillsborough salvou o futebol inglês de algo que não daria certo”, analisa o jornalista inglês Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil. A exigência da carteirinha pode parecer boba aos olhos brasileiros, mas é uma atitude agressiva em um país em que não há a cultura de se carregar identidade, e nem da polícia de pedir por essa identificação.

Margaret Thatcher governou a Inglaterra de 1979 a 1991 (Foto: AP)

Margaret Thatcher governou a Inglaterra de 1979 a 1991 (Foto: AP)

A ideia, horrível, indica como Thatcher nunca tentou entender o hooliganismo e preferiu seguir pelo autoritarismo. Meses depois, por causa de Hillsborough, a proposta do cartão de identidade foi abandonada. “Ela não entendia qualquer coisa coletiva”, continua Vickery. “O governo da época não entendeu futebol, estava apavorado com a cena cultural do futebol. Mas as mudanças, com o relatório Taylor, aconteceriam em qualquer governo. O papel dela, especificamente, foi zero. Ela não teve nada a ver.”

O relatório do inquérito liderado pelo Lorde Taylor fez 43 recomendações para que o futebol fosse um entretenimento seguro para o povo britânico, 27 delas precisavam ser implementadas antes do início da temporada 1989/90, ou seja, imediatamente. Elas eram relacionadas à capacidade e monitoração das arquibancadas, regularização dos alambrados e grades, responsabilidades do clube dono dos estádios e planejamento da polícia. As principais causas de Hillsborough.

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A mais importante foi que todos os palcos das partidas das principais divisões do futebol inglês deveriam ter cadeiras, acabando com a tradição de torcer de pé. A ideia dos clubes da primeira divisão de se separar da Football League e criar uma liga própria já existia, mas a necessidade de arrecadar mais dinheiro para as reformas exigidas ajudou a impulsionar a criação da Premier League. A partir daquele momento, eles poderiam negociar separadamente os contratos de patrocínio e transmissão de TV.

“(O relatório Taylor) Foi muito importante porque implicou uma mudança total na cultura da torcida”, analisa Tim Vickery. “Ficar em pé fazia parte do jogo desde que ele era um jogo. Acabar com isso, sem Hillsborough, era impensável. Para se ter uma ideia, a capacidade do estádio do Tottenham é de 35 mil, mas eu me lembro de 50 mil pessoas ali. O estádio está maior com capacidade menor. Em compensação, o preço do ingresso aumentou.”

Essas mudanças foram responsáveis por uma elitização do futebol inglês. Aqueles grupos de operários e de pessoas de classes sociais mais baixas que frequentavam os estádios desapareceram. O jeito de torcer ficou muito mais frio e se perdeu um pouco a essência do futebol. Por outro lado, grupos ultranacionalistas que haviam tomado conta das firms de hooligans também ficaram do lado de fora da porta.

Com as cadeiras, a capacidade dos estádios ingleses diminuiu e os preços aumentara (Foto: AP)

Com as cadeiras, a capacidade dos estádios ingleses diminuiu e os preços aumentara (Foto: AP)

“Sempre tem prós e contras”, avalia. “Perdeu-se ambiente, não tem dúvida disso. Essas pessoas agora não têm condições financeiras de ir. Por outro lado, a média de público é muito mais alta. Os clubes foram mais do que compensados por pessoas que vão todos os jogos. Antes, especialmente na década de 1970, o futebol inglês tinha um ambiente de racismo deprimente, repugnante. Isso acabou. Hoje em dia, você olha para a torcida e vê muitos imigrantes da Índia, do Paquistão, do Caribe. Há 30 anos, o ambiente era muito hostil para eles. Ganhou bastante, perdeu bastante, acaba sendo uma questão de qual lado pesa mais.”

A diminuição do racismo nos estádios também tem a ver com o Ato de Ofensas no Futebol, de 1991, que tornou crime comentários preconceituosos, lançar objetos no gramado ou invadi-lo. Mas nenhuma ação do governo, nenhum relatório ou conjunto de recomendações poderia ter funcionado se não tivesse havido, dentro das próprias pessoas que formavam a sociedade do Reino Unido, o sentimento de que aquela festa violenta, rústica e brutal havia ido longe demais. “Uma coisa é acontecer em Bruxelas, sem internet. Outra é você ver acontecendo ao vivo. Isso mudou o comportamento do futebol inglês”, comenta Anna Carolina Fagundes, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de East Anglia, em Norwich. “Você chegou a um ponto em que não se tratava de um cara na Bélgica. Você via o cara que perdeu o irmão, pai e filho que morreram juntos, um tentando proteger o outro. Era muito próximo.”

Foi apenas quando 96 pessoas morreram em Sheffield que a Inglaterra percebeu a gravidade de casos como o descrito por Nick Hornby após uma operação falha da polícia no lado norte do estádio Higbury em 1980. Por coincidência, Tim Vickery, torcedor do Tottenham, estava nessa partida, para ver Kevin Keegan, um dos melhores jogadores ingleses da época. O jornalista conta que também passou por um sufoco, mas, como o resto do país, não pensava que poderia perder a vida em algo tão corriqueiro e inócuo quanto um jogo de futebol. Até Hillsborough.

“Depois de Hillsborough, eu pensei: ‘porra, eu poderia ter morrido’. Era uma possibilidade real”, afirma. “O futebol inglês, na época, percebeu isso. Uma das coisas mais marcantes, que não é comentado o suficiente por aqui no Brasil, é como isso mudou a cultura da torcida. Porque se fala muito das medidas legais tomadas pela autoridade, mas nada disso daria certo sem o fato de que a própria torcida reconheceu aquilo como o fundo do poço”.

Os hooligans não desapareceram. Continuam formando gangues e brigando entre si, mas cada vez mais isso está longe do futebol. Com todo esse contexto, as autoridades britânicas são extremamente rigorosas com quem causa confusão associada ao futebol e não economiza nas punições. Os pontos positivos e negativos dessa mudança fazem parte de outra discussão. O inegável é que a segurança dos estádios de futebol da Inglaterra melhorou muito depois de Hillsborough. “Se Taylor tem crédito por isso, se o público mudou, ou se a sociedade no geral ficou mais civilizada, eu não sei, mas isso, de haver perigo de ir ao estádio, sumiu”, encerrou Daniel Hunt.


5 respostas para “Hillsborough foi o ‘basta’ que o futebol inglês precisava para mudar”

  1. João Paulo Mallmann disse:

    Uma imagem que diz muita coisa

  2. hilton dominczak disse:

    Margaret Thatcher morreu há poucos meses, esquecida, anônima no bairro em que morava. Lembro que no dia de sua morte, a velha mídia brasileira, jornais e rádios, elogiaram seu legado. Ou seja, aqui no Brasil a elite ainda vive nos tempos da dama de ferro. Velha e pobre mídia de direita essa que temos no Brasil. Até quando?

    • Fabrízio Michelon disse:

      Os mesmos que aplaudem ela, certamente ficariam de mimimi porque não tem emprego, que o salário é baixo e por ai vai. O que chamo de coxinha!

    • Lacertoss disse:

      Margareth Thatcher foi uma das maiores figuras políticas do século XX, amigo. Morreu esquecida?? Ela escolheu a privacidade por culpa de sua doença. Todos os índices de renda no Reino Unido melhoraram MUITO ao final de seu governo, ela é odiada pela esquerda unicamente por ter quebrado os sindicatos e liberalizar a economia, duas medias corretíssimas. Mesmo os trabalhistas britânicos reconhecem os méritos do governo dela. Ela salvou os britânicos do fiasco europeu.
      Divirta-se:
      https://www.youtube.com/watch?v=Rl8ltnDkZR4

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