Um dos maiores dilemas da seleção inglesa às vésperas da Copa do Mundo está no gol. Há muitos nomes disponíveis ao técnico Gareth Southgate. Nenhum deles, porém, desfruta de confiança suficiente neste momento. Joe Hart segue convocado, apesar de ser reserva do West Ham e da má fase que dura quase duas temporadas. Jack Butland e Jordan Pickford são opções com grande futuro, mas têm oscilado recentemente. E, não à toa, o treinador resolveu testar uma nova alternativa desta vez, além de Fraser Forster ou Angus Gunn, chamados em 2017. A aposta é Nick Pope, grande revelação da posição nesta Premier League.

A trajetória de Pope na temporada, por si, já é singular. Contratado pelo Burnley em 2016, o arqueiro jogou míseras quatro partidas em 2016/17. Contudo, a lesão de Tom Heaton – outro convocado à seleção inglesa no atual ciclo – abriu alas ao arqueiro de 25 anos a partir de setembro. Chance esta que ele não desperdiçou. A boa campanha dos Clarets na Premier League passa por suas luvas, com defesas fundamentais para que o time de Sean Dyche se mantivesse na metade superior da tabela. De solução emergencial, o substituto se tornou uma certeza. Será interessante até mesmo acompanhar a disputa com Heaton, que ainda se recupera da lesão sofrida no ombro.

A história de Pope, ainda assim, consegue ser bem mais profunda. E como outros jogadores que recentemente passaram pela seleção inglesa (em lista que inclui Jamie Vardy, Michail Antonio e Rickie Lambert), o goleiro chegou a trabalhar em “empregos comuns” antes de realmente engrenar no futebol. Sua caminhada ao sucesso inclui vários momentos de superação, até finalmente conseguir se estabelecer em um clube de primeira divisão. E agora, conto de fadas praticamente completo, também na equipe nacional.

Nascido em Soham, cidade no leste da Inglaterra, Pope cresceu torcendo pelo Ipswich Town – um dos principais clubes da região. Frequentava as arquibancadas, até que ingressou nas categorias de base. O sonho de defender o time de coração durou até os 16 anos, quando recebeu uma notícia desanimadora: os Blues não contavam mais com seus serviços. Dispensado, o adolescente precisava procurar outro rumo. Teve que conciliar o futebol amador, os estudos e o trabalho.

“Quando fui dispensado pelo Ipswich, pensava que chegar à seleção era uma possibilidade distante. Mas tive sorte suficiente de ir à faculdade e de me encontrar em uma realidade na qual mantive os pés no chão, através das pessoas que conheci e com quem me encontrei”, relembrou Pope, em entrevista coletiva nesta terça. “Fiz dois anos de marketing e um ano de ciências do esporte. Tive alguns empregos ao mesmo tempo. Trabalhei em uma loja e depois entregando leite. Não pagavam muito. Eu acordava às quatro da manhã e ia ao caminhão para a distribuição”.

Ainda aos 16 anos, Pope se tornou goleiro titular do Bury Town, então disputando a oitava divisão. “Essa situação me permitiu fazer 150 partidas em três anos, algo impossível nas categorias de base. Pude entrar no jogo de homens quando era um garoto, e isso me ajudou a crescer como jogador”, analisa. Por lá, conseguiu o acesso para a sétima divisão e, então, uma chance no Charlton. Aos 19 anos, juntou-se à Red Army, que estava na terceira divisão.

Ainda assim, o prodígio demorou a ganhar uma espaço de verdade no clube tradicional. Com aparições esporádicas pelo Charlton, perambulou por seis clubes diferentes entre 2011 e 2015, sempre emprestado. Inicialmente, defendeu times da chamada “non-league”, como o Cambridge United e o Aldershot Town. Pôde se firmar no nível profissional a partir de 2013/14, defendendo o York City e depois o Bury, ambos figurando na League Two – a quarta divisão. Mais um trampolim para algo maior.

“Joguei em algumas ligas frias, obscuras. Passei pelo time de reservas do Bury Town. Jogar em Brightlingsea era bem difícil… Espero que as pessoas de lá não se importem com isso! Joguei também em Little Oakley, lugares que você precisa de um mapa para descobrir onde é. Nas arquibancadas, eram dez pessoas e um cachorro. Você precisa se provar a cada nível para chegar ao próximo. Sinto que me provei em todos. Não acho que seja um acaso a convocação, embora obviamente eu não imaginasse. É uma euforia tremenda a mim, à minha família e aos meus amigos”, analisa o arqueiro.

Em 2015/16, enfim, Nick Pope ganhou sua oportunidade no Charlton. O time não viveu uma boa temporada na Championship, rebaixado na antepenúltima posição. De qualquer maneira, o novato conseguiu mostrar serviço durante os 24 jogos que disputou. O suficiente para convencer o Burnley, campeão daquela edição da segundona. Justamente na última rodada, os dois clubes se enfrentaram. A Red Army perdeu por 3 a 0, mas ainda assim a atuação de Pope o referendou aos Clarets. Acertaram sua contratação nas semanas seguintes, por €1,3 milhão, para ser reserva na Premier League.

Curiosamente, Nick Pope atravessou a temporada passada como terceiro goleiro do Burnley. Enquanto Tom Heaton era o titular, a reserva cabia ao veteraníssimo Paul Robinson, camisa 1 da seleção inglesa na Copa do Mundo de 2006. O novo contratado atuou apenas em jogos da Copa da Inglaterra e da Copa da Liga Inglesa no primeiro ano em Turf Moor, mas pôde absorver bastante com a experiência dos companheiros. Em 2017/18, com a aposentadoria de Robinson, ascendeu um pouco mais na hierarquia. E, diante da infelicidade de Heaton, ganhou a grande chance de sua carreira, estreando na Premier League. Aproveitou o momento, a ponto de ser convocado pelos Three Lions.

“Agora estou aqui, gosto de pensar que as minhas ambições são maiores do que apenas compor o elenco. Você precisar ter fome. Essa é a primeira vez que sou convocado e quero me provar. Jogar pela seleção é o objetivo final, mas você atravessa a carreira com diferentes objetivos. Quando assinei com o Charlton, minha ambição era atuar na quarta divisão. Conforme sua carreira avança, você estabelece novos alvos. A Premier League nesta temporada me ensinou a aproveitar o momento e esquecer o barulho. São apenas 90 minutos em um gramado qualquer, vá e mostre quem é você. É algo que aprendi no Burnley: não tenha medo do desafio”, pontua.

Pelos números na temporada, Nick Pope está um passo à frente de todos os seus principais concorrentes – Hart, Pickford, Butland e Forster. Comparando as estatísticas na Premier League, a cada 90 minutos em campo, o goleiro do Burnley é o que: tem mais partidas sem sofrer gols; tomou menos gols; fez mais defesas a cada gol sofrido; agarrou mais bolas; cometeu menos erros; e possui a maior pontuação, em algoritmo criado a partir das estatísticas. Agora, precisa demonstrar sua capacidade também nos treinos e nos amistosos pela seleção. Mas não se duvida que, depois de tanta superação, o inglês poderá chegar à Copa do Mundo. E sem precisar acordar tão cedo para desempenhar seu trabalho na Rússia.