Embora os episódios de preconceito não sejam tão recorrentes na Premier League, especialmente quando comparada a outras ligas europeias, o racismo já foi um dos maiores entraves do futebol inglês há algumas décadas. Uma situação que só começou a se transformar na virada dos anos 1970 para os 1980, quando jogadores negros ganhavam mais espaço, mas também sofriam com a intolerância. Um destes pioneiros foi Howard Gayle. Nascido na cidade, ele chegou às categorias de base do Liverpool em 1974. Profissionalizou-se em 1977 e, apesar de permanecer seis temporadas no elenco principal, o atacante só disputou cinco jogos pelo clube. Entretanto, possui sua importância histórica, ao se tornar o primeiro negro a defender os Reds.

Gayle se fez notável principalmente na conquista da Copa dos Campeões em 1980/81. O novato, então com 22 anos, esteve em campo na semifinal contra o Bayern de Munique, contribuindo no empate fora de casa que colocou o Liverpool na decisão. Apesar disso, o inglês também sofreu com o racismo, dentro do próprio clube. Algo que conta em sua autobiografia, ’61 minutos em Munique’, lançada recentemente.

“Regularmente eu sou confrontado com a mesma questão: ‘Qual o segredo daquele Liverpool?’. Muitos jogadores irão responder similarmente e falar sobre a simples intensidade do treinamento. Tudo isso é verdadeiro. Logo depois, porém, vinha a cultura de tentar se colocar acima do outro. A importância disso não pode ser subestimada. Se um jogador não pudesse lidar com os desafios mentais colocados em Melwood, acabaria saindo. A intensidade era feroz. A teoria era a de que, se você pudesse lidar com a intensidade de treinar contra os melhores jogadores do país, as partidas seriam fáceis. Da mesma maneira, com as provocações dos treinos, ninguém se sentiria pressionado durante os jogos. Como único negro, minha situação era singular. Precisei de grande resiliência para sobreviver e ter sucesso”, escreve Gayle, em trecho publicado pelo Guardian.

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“As atitudes em meu entorno eram variáveis. A maioria não tinha problemas com um jovem negro entrando em um ambiente absolutamente branco. Mas eu podia sentir que a minha presença deixava alguns desconfortáveis. Isso apresentava outro problema. Alguns comentários eram feitos por gente que eu gostava, que não me ameaçavam. Mas mesmo se eu deixasse esses comentários acontecerem, poderia criar a impressão para os mais preconceituosos que era normal fazer aquilo. Eu tomei conhecimento das atitudes intolerantes em Melwood através de pessoas que não perceberam que eu estava por perto. Frases inaceitáveis eram usadas. Isso acontecia na cantina, no ônibus. Era uma linguagem em tom de brincadeira. Mas eu não estava rindo disso”, complementa.

Segundo Gayle, não eram incomuns os episódios nos quais a cor de sua pele se tornava piada: “É mais fácil de lidar com o racismo das arquibancadas, porque você pensa que é relacionado ao seu desempenho. Talvez fosse por ingenuidade: eu era atacado jogando bem ou mal. Porém, quando isso vem de seus colegas de trabalho, machuca. Porque se você não tolera e ataca, a comissão técnica percebe isso como um fraqueza. Como poderiam manter a confiança em você em uma situação de pressão? Certa vez, um comentário racista na festa de Natal me deixou desconfortável. Mas, no espírito da noite, onde todos riam de mim como se fosse um comediante no palco, eu ainda era capaz de dar risada”.

O maior entrave de Howard Gayle aconteceu com Tommy Smith, jogador histórico em Anfield. O veterano defendeu o Liverpool por 16 temporadas e vestiu a braçadeira de capitão, com mais de 600 jogos disputados. No entanto, era um defensor de personalidade difícil, conhecido por intimidar os adversários. E que tinha atitudes parecidas com os próprios companheiros, especialmente com o novato negro.

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“Tommy Smith foi o meu maior problema. Na temporada anterior a minha chegada, ele marcou o gol do título da Champions. Um gol que eu comemorei enlouquecidamente como todos os torcedores. Tommy era um dos meus heróis. Ele era uma lenda viva. Os torcedores o amavam e eu era um deles. Mas, rapidamente, percebi a diferença entre a lenda e a pessoa. Ele parecia amargo pelo fim de sua carreira e por ter perdido a braçadeira para Emlyn Hughes. Tommy era difícil de lidar. Não acho que tinha muitos amigos. Eu era jovem, diferente: eu era negro. Ele nunca disse que não gostava de mim. Mas eu tinha essa impressão. No início, pensava que estava me testando. Ele já não era o mesmo jogador e eu me dava melhor no um contra um durante os treinos. Tommy me destratava com comentários horríveis sobre a cor da minha pele. O que ele fez me afetou, me deixou sem vontade de ir aos treinos, meu moral era baixo”, relembra.

“Em certo treino, quando eu ainda era um novato, acertei Tommy sem querer em um lance e foi engraçado. Todos riram, inclusive eu. Todos menos o Tommy, que começou a praguejar termos racistas. O lugar ficou quieto, todos podiam ouvir. Ele era uma lenda, eu nada. Ninguém disse uma palavra. Era o suficiente para mim. Então, fui para cima e o encarei face a face: ‘Uma noite, quando você estiver tirando sarro em casa, estarei esperando por você com um taco de beisebol. Então, veremos o que você dirá’, falei calmamente. Eu queria brigar com ele. Depois, ele saiu. Eu olho para trás e lembro disso como o ponto mais baixo. Eu cresci amando Tommy Smith. Mas você só vê o herói, não conhece a pessoa. Depois disso, deixou de ser meu ídolo. Como ser humano, Tommy Smith era uma completa decepção. Graeme Souness foi o único que veio a mim imediatamente. ‘Bem feito, ele merecia’. Graeme era um verdadeiro líder. O episódio foi um marco. Os comentários deveriam ser feitos às minhas costas, nunca na minha cara. As outras pessoas do Liverpool sabiam que eu não teria medo. Eu encararia qualquer um se fosse necessário”, finaliza a história.

Depois de Gayle, o Liverpool teve outros ídolos negros. A partir de 1987, John Barnes se tornou uma referência do time e defendeu os Reds por mais de 10 anos. O antecessor, entretanto, vê uma situação diferente entre os casos: “Existiram outros jogadores negros depois de mim, que viveram maiores sucessos no Liverpool. Depois que saí, John Barnes se tornou o primeiro jogador negro a ser contratado de outro clube. Mas nós dois tínhamos diferentes educações. Eu cresci em um ambiente branco, onde existiam poucas famílias negras e o racismo era parte da vida. John viveu na Jamaica, entre outros negros. Sua família era razoavelmente rica e respeitada em Kingston. John Barnes não precisou confrontar o racismo diariamente. Para mim, racismo era norma. Era a rotina”. Uma rotina que incidia mesmo dentro do clube.