É impossível contar a história das Copas do Mundo sem falar de Brasil e Alemanha. Afinal, 14 das 20 finais do torneio (já contando 2014) tiveram ao menos um deles em campo. Somente o Mundial de 1930 não contou com alemães ou brasileiros entre os quatro primeiros. As únicas duas seleções que passaram dos 100 jogos em Copas e que somam juntas 134 vitórias – uma a mais que o acumulado por Itália, Argentina, Inglaterra e Uruguai. E que, apesar de toda essa história, se cruzarão apenas pela segunda vez no torneio.

O primeiro jogo, como era de se esperar, aconteceu em uma ocasião grandiosa. A final da Copa do Mundo de 2002, quando a Alemanha buscava o tetra com Oliver Kahn fechando o gol e o Brasil apostava no talento de Rivaldo e Ronaldo para conquistar o penta. Prevaleceu a técnica mais apurada da seleção brasileira, para a consagração da Família Scolari. E o reencontro nesta Copa marca um momento não menos emblemático. Os brasileiros, na luta por voltar a uma final em casa, depois de 64 anos e reescrever o Maracanazo. Os alemães, com sua geração mais talentosa em muito tempo, que tenta deixar para trás a pecha de perdedora.

É claro que o primeiro duelo não precisaria acontecer apenas na 17ª Copa do Mundo, no 87º jogo do Brasil no certame e no 85º da Alemanha. Por detalhes, um tropeço aqui ou acolá, o grande jogo não veio bem antes. Nas próximas linhas, relembramos todas essas ocasiões em que o Mundial poderia ter sido marcado por um grande Brasil x Alemanha, não fosse um mísero resultado diferente para qualquer um dos dois times.

1954: Brasil de Julinho x Alemanha Ocidental de Fritz Walter


Se há uma Copa do Mundo com regulamento ridículo, é a de 1954. O torneio começava com grupos de quatro equipes, mas cada seleção só enfrentava dois de seus adversários. E, a partir das quartas de final, todos os líderes de grupo ficavam de um mesmo lado do chaveamento. Tiveram que se digladiar por uma vaga na final, enquanto a outra ficou com os segundos colocados.

Azar do Brasil, que teria melhor caminho se fizesse pior saldo que a Iugoslávia e ficasse na segunda posição do Grupo 1. O prêmio pelo primeiro lugar foi cruzar com a poderosa Hungria e, em um jogo marcado bem mais pela violência do que pela arte exibida em campo, Sandor Kocsis decidiu a “Batalha de Berna”: 4 a 2 para os magiares. Se o chaveamento seguisse a lógica e os brasileiros pegassem o segundo do Grupo 2, enfrentariam justamente a Alemanha Ocidental. Não dá para dizer que o “Milagre de Berna” nunca teria acontecido, mas os brasileiros tinham condições de fazer um jogo mais duro contra os futuros campeões. Na vida real, o time do craque Fritz Walter bateu a Iugoslávia por 2 a 0, com um gol contra e outro de Helmut Rahn.

1958: Brasil de Didi x Alemanha Ocidental de Seeler

A Alemanha tinha perdido força em relação ao Mundial anterior. Tanto que penou para passar da fase de grupos e só venceu a Iugoslávia nas quartas de final pelo placar mínimo. Nas semifinais, o desafio foi a anfitriã Suécia. Não deu para o Nationalelf. Por mais que Schäfer tenha inaugurado o placar, a virada por 3 a 1 saiu nos minutos finais, com Gren e Hamrim. Se os alemães vencessem, teriam a chance de buscar o bicampeonato contra o Brasil de Didi, Pelé e Garrincha. O milagre que aconteceu em Berna teria que se repetir no Estádio Rasunda.

1970: Brasil de Pelé x Alemanha Ocidental de Gerd Müller


A Alemanha tinha qualidade suficiente para desafiar o Brasil na Copa de 1970. Não conseguiu porque parou no maior épico da história do torneio. Nas semifinais, o “Jogo do Século”, contra a Itália. Beckenbauer jogou com o braço enfaixado, o Nationalelf buscou um empate aos 45 minutos do segundo tempo, virou no início da prorrogação, e mesmo assim não conseguiu bater a Azzurra. A vitória por 4 a 3 dos italianos é um emblema, embora a exigência daqueles 120 minutos extenuantes também tenha influenciado na goleada dos brasileiros na final, com o resultado feito no segundo tempo. Se os alemães passassem, poderíamos ter Beckenbauer marcando Pelé em uma final de Copa.

1974: Brasil de Rivellino x Alemanha Ocidental de Beckenbauer


A gente sabe que o Brasil de 1974 estava muito distante do time que conquistara o Tri quatro anos antes. Sobrava força e faltava talento em relação à seleção anterior. Mesmo assim, os brasileiros ficaram a apenas uma vitória de decidirem o Mundial em Munique, contra o timaço da Alemanha Ocidental. Não foi possível porque a Holanda de Cruyff botou a equipe de Zagallo na roda e o placar de 2 a 0 ficou até barato, graças à grande atuação de Leão. Se a Laranja Mecânica não foi páreo na final, é difícil imaginar que o time de Zagallo pudesse fazer melhor contra Beckenbauer, Gerd Müller, Maier, Breitner e tantos outros craques. Ainda assim, o Brasil havia vencido amistoso disputado em junho de 1973: 1 a 0 em Berlim, gol de Dirceu. Na segunda fase, o Brasil também bateu a Alemanha Oriental por 1 a 0, graças à falta violentíssima de Rivellino.

1986: Brasil de Careca x Alemanha Ocidental de Matthäus


A eliminação na Copa de 1986 é uma das mais amargas para os brasileiros. Por mais que o time fosse uma versão envelhecida de 1982, com algumas mudanças, o Brasil ficou a um pênalti de ir ainda mais longe. O erro de Zico no tempo normal, de Sócrates e de Júlio César na decisão nos penais, colocaram a França de Platini na semifinal daquela Copa. Os Bleus fizeram uma partida com gosto de revanche contra a Alemanha Ocidental, depois da eliminação na mesma fase quatro anos antes. Mas de novo o Nationalelf se impôs, com Brehme e Völler resolvendo. Às vésperas da Copa, Brasil e Alemanha se enfrentaram duas vezes, com um triunfo para cada lado: 2 a 0 para os alemães em Frankfurt e 3 a 0 para os brasileiros em Goiânia, com gols de Muller, Alemão e Careca. Dava para imaginar outro jogo parelho no México.

E o que aconteceu, mas não valeu à Copa de verdade


O Mundialito de 1980 é um dos torneios amistosos mais importantes da história. Realizado no Uruguai para comemorar os 50 anos da primeira Copa, contou com cinco dos seis campeões mundiais até então – mais a Holanda substituindo a Inglaterra, que não aceitou o convite. Brasil e Alemanha Ocidental se pegaram logo na primeira fase. E o protótipo do time de 1982 goleou o então campeão da Eurocopa. Mesmo com Rummenigge (que havia recebido a Bola de Ouro naquele ano), Allofs, Briegel, Schumacher e Magath do outro lado, a Seleção de Telê Santana enfiou 4 a 1 no Nationalelf. Sócrates, Júnior, Cerezo e Serginho fizeram os gols, em um time que não contava com Zico e Falcão na ocasião.

Em maio de 1981, as duas seleções voltaram a se enfrentar em amistoso disputado em Stuttgart, em uma das maiores provas de força do time de Telê. Outra vitória brasileira, desta vez por 2 a 1, com tentos de Júnior e Cerezo. O grande nome daquela partida, contudo, foi Waldir Peres, que defendeu (por duas vezes, depois que o árbitro mandou voltar) o primeiro pênalti perdido por Paul Breitner na carreira. Se a Itália de Paolo Rossi não aparecesse pelo caminho, era possível que Brasil e Alemanha Ocidental decidissem a Copa de 1982.