A história se inicia na primavera de 1937, quando um grupo de marroquinos se reunia em Casablanca. Eles formalizavam a criação de um clube dedicado à população nativa, de origem árabe, para que pudessem frequentar as piscinas públicas localizadas na região do porto da cidade. Um dos membros, porém, se atrasou. E quando chegou ao comitê, explicou o motivo de sua demora: estava no cinema, assistindo ao filme mais recente estrelado por Umm Kulthum – famosa atriz e cantora egípcia, conhecida como ‘A Estrela do Leste’. Naquele evento, os rapazes decidiam o nome da agremiação. E um estalo veio quando o retardatário mencionou a película: Wydad, palavra árabe que significa ‘Amor’. Assim nascia o Wydad Athletic Club. Assim começava uma história de amor.

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A explicação mais aceita para a origem do nome do clube parece ter sido premonitória. Afinal, poucos times no mundo traduzem tão bem a palavra ‘amor’ por aquilo que se vê nas arquibancadas. O passado inteiro do Wydad está ligado à dedicação de seus membros e de seus torcedores. A agremiação com origens na classe média não demorou a se popularizar. Como outras entidades árabes no norte da África, participou da luta pela independência das colônias francesas, diretamente vinculada ao nacionalismo – o vermelho de sua camisa simboliza justamente o vermelho da bandeira marroquina. No país recém-estabelecido, virou uma potência, enfileirando várias taças. E, desta maneira, formou sua enorme massa de seguidores. Uma das maiores torcidas do Magrebe, uma das torcidas mais apaixonadas do planeta.

Em 2005, porém, o amor pelo Wydad realmente começou a ecoar além das fronteiras. Os alvirrubros já eram os maiores campeões marroquinos, já tinham conquistado a Copa dos Campeões da África uma vez, haviam revelado jogadores de renome – como Badou Zaki e Noureddine Naybet. Entretanto, que o WAC fosse lembrado em um canto ou outro do mundo, pouco se sabia sobre sua torcida. Uma noção que se transformou com a criação dos Winners, o primeiro grupo de ultras do clube.

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Aquele ano, aliás, foi determinante para a eclosão da cena nas arquibancadas do Marrocos. Os movimentos de torcedores no Magrebe cresceram especialmente na virada do século, influenciados pelos ultras da Itália. Em 2005, três dos principais clubes marroquinos ganharam novas organizações uniformizadas: Wydad, Raja e FAR Rabat. Grupos que serviram não apenas para melhorar a atmosfera nos estádios, como também para injetar interesse no campeonato nacional.

Os Winners surgiram encabeçados por jovens. Segundo a definição da própria torcida, eles são “filhos e netos dos primeiros torcedores do Wydad, nos anos 1940 e 1950, que combateram os colonizadores franceses e amaram o clube em uma época na qual isso era passível de opressão das autoridades”. O nome escolhido faz referência ao espírito vencedor desses responsáveis pela resistência, enquanto o símbolo traz a imagem de um fedayin palestino, guerrilheiro nacionalista em prol da libertação do território árabe – que enfatiza a ideologia dos ultras.

A posição política, todavia, não é um traço tão marcante das torcidas marroquinas, como se vê em outros países próximos, especialmente o Egito. Embora politizados, os alvirrubros concentram suas forças naquilo que acontece no círculo do WAC. “Os Winners se tornaram desde sua criação uma parte integral do clube, ao contrário de dirigentes e jogadores, que vêm e vão. Torcer pelo Wydad não é apenas motivo de orgulho, mas também a consciência do privilégio de ser um wydadi. Os Winners vivem a paixão do wydadismo e transmitem isso. A partir desta paixão que nasceu o slogan do grupo, ‘Juntos para sempre'”, se definem os ultras.

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Coincidência ou não, os primeiros meses de existência dos Winners se combinaram com a conquista do Campeonato Marroquino 2005/06, o primeiro do clube em 13 anos. E, além de motivarem o time, os ultras se tornaram também um ator a mais nos bastidores alvirrubros. Em 2013, por exemplo, a pressão feita pelos torcedores – boicotando os jogos do WAC e esvaziando as arquibancadas – culminou no pedido de demissão do presidente Abdelilah Akram. As frases de protesto tomavam as paredes de Casablanca e viraram até mesmo mote de um mosaico exibido no clássico contra o Raja. A queda do dirigente, que tentara dissolver o grupo, escancarou a influência que os ultras atingiram em menos de uma década de existência. Ainda assim, um de seus preceitos é manter a autonomia em relação às diferentes gestões do Wydad.

Em entrevista à revista alemã 11 Freunde, o sociologista Abderrahim Rharib afirmou que, segundo uma pesquisa dirigida por ele com 600 ultras marroquinos, a maior parte deles vem da classe média, possui bons empregos e tem um alto nível de escolaridade. Na mesma reportagem, entretanto, um dos líderes dos Winners (que estudou na Holanda e na Suécia, trabalha na Bélgica, mas volta com frequência para acompanhar os jogos em Casablanca) garantiu que as origens de seus membros são das mais diversas, com o grupo dividido em subseções regionais e até mesmo internacionais. Algo coerente com um clube identificado com as massas.

E as veias populares se unem a uma percepção cultural acima da média nas ações dos Winners. A multidão que canta em uníssono costuma protagonizar mosaicos com sacadas muito boas, em referências pop. Talvez o mais famoso deles tenha sido realizado em 2013, quando um aparelho de som gigante surgiu diante da curva norte do Estádio Mohammed V, em Casablanca. À medida que o nome de uma nova canção aparecia no visor do “equipamento”, a torcida se sintonizava outra vez e passava a entoar uma nova música. Da mesma maneira, já criaram coreografias com a imagem de Muhammad Ali, de Leônidas de Esparta ou mesmo Humphrey Bogart e Ingrid Bergman – protagonistas de ‘Casablanca’, clássico dos cinemas.

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Em seu QG, os Winners contam com dezenas de “operários”, prontos para tornar o espetáculo real. Os mosaicos são planejados em softwares requintados, que criam um modelo do estádio e reproduzem as medidas exatas do que será feito. Então, vão para as mãos de jovens que atuam praticamente como artesãos, confeccionando cada peça do quebra-cabeças enorme que se montará na curva norte. Os custos dos materiais geralmente são bancados pela venda de produtos dos próprios ultras – como camisetas, blusas, cachecóis, faixas e outros artigos com os símbolos oficiais dos Winners. Uma cadeia produtiva para sustentar as ações suntuosas.

Além disso, os Winners também possuem sua própria estrutura interna. Há uma hierarquia que se assemelha com uma corporação. “O grupo é composto por executivos e pessoas com competências altamente técnicas, que ocupam os postos que interessam dentro da estrutura civil. O comitê decide coletivamente os mosaicos, o design dos produtos destinados à venda, as viagens para os jogos fora de casa, a defesa dos ultras contra os rivais. É um conselho político e econômico, por vezes marcial”, afirma um membro-fundador dos Winners, em entrevista ao Le Desk. O grupo ainda atua na comunidade de outras maneiras, realizando ações sociais. Em novembro, por exemplo, os alvirrubros promoveram o seu ‘dia das crianças’, com várias atividades ao público infantil.

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Já o ápice da alta capacidade de organização dos Winners acontece nas arquibancadas. É na curva norte que se nota da melhor maneira o trabalho excepcional feito pelos ultras. A sincronia nos mosaicos impressiona, mas consegue ir além. Há uma espécie de maestro na parte inferior das tribunas, de costas ao campo, que rege os milhares de fanáticos à sua frente. A multidão forma um só coro, mas também complementa os cânticos com gestos corporais e outras coreografias um tanto quanto hipnotizantes. Muitas vezes, nos jogos do Wydad, e especialmente no Dérbi de Casablanca, vale mais a pena ficar admirando o que acontece do lado de fora do que exatamente a partida que se desenrola no gramado. Além disso, os ultras são os principais responsáveis pelas filmagens e vídeos que ajudaram a espalhar sua fama ao redor do mundo.

Obviamente, nem tudo são flores aos Winners e aos outros grupos de ultras do Marrocos. Os episódios de violência, como em outras partes do mundo, acontecem e são altamente explorados pela mídia, assim como provocam generalizações demonizantes pelas autoridades. Em 2014, a invasão de um treino, com ameaça aos jogadores, virou escândalo nacional. Já em dezembro de 2015, o cenário foi o dérbi contra o Raja Casablanca. O clima hostil era palpável, presente inclusive em insultos nos mosaicos. Já ao final da partida, indivíduos subiram na cobertura da arquibancada principal do Estádio Mohammed V e passaram a se digladiar com paus e pedras. Os Winners abriram uma investigação e prometeram banir os membros responsáveis pelos danos causados, reiterando seu papel como torcida. Mas a escalada da violência logo chegaria ao seu estopim.

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Dois meses depois, em fevereiro de 2016, o confronto entre duas facções rivais do Raja deixou dois mortos e dezenas de feridos. Foi o marco para que cerco aos ultras aumentasse exorbitantemente. A medida do Ministério do Interior do Marrocos, nada muito diferente do simplismo visto em outros países, foi suprimir os ultras locais. As autoridades passaram a proibir faixas, bandeiras, instrumentos musicais e até mesmo os famosos mosaicos. Além disso, aumentaram o controle sobre as organizações.

Num primeiro momento, o boicote dos ultras foi massivo, organizado por uma união nacional, antes de ser seguido por protestos. Mas, diante da inflexibilidade do governo, os grupos voltaram às arquibancadas na temporada passada, sem suas principais identificações, com os cânticos se transformando na única força. Além disso, as repressões também se tornaram comuns. Qualquer sinal de “desordem à autoridade” passou a ser combatido pelas forças policiais. As manifestações, por outro lado, seguem ecoando através dos Winners e de outros grupos. Uma faixa preta simples, com a inscrição ‘Ultras’ em letras brancas, virou o desafio mais visível à imposição.

“Banimento do estádio para alguns, interdição nas viagens para outros e, depois, a proibição de todas as atividades anunciando a presença do grupo. Vocês creem que nós não temos mais o direito de nos manifestar dentro do estádio, mas vocês não têm ideia de tudo o que nós planejamos fazer, mesmo sob abolição. O que nós fazemos não se limita apenas às arquibancadas e nós nunca daremos a oportunidade de pisotearem nossas liberdades e nossos direitos em um país livre e que não é submisso”, escreveram os Winners, em carta publicada no aniversário de 12 anos do grupo, comemorado no final de novembro.

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“Os produtos não são mais autorizados, as faixas agora são parte de nosso passado, as bandeiras gigantes são vistas como armas de destruição em massa e os mosaicos à base de mensagens viraram cartas ameaçadoras incitando as pessoas ao ódio e a apropriação indevida de ideias políticas. Quanta vergonha e quanta desordem!”, complementaram, ironicamente. A carta ainda possui fotografias dos torcedores com faixas de protestos em diversos cantos de Casablanca e do mundo, representando a amplitude do movimento e do próprio grupo.

Por isso mesmo, a reconquista da Liga dos Campeões da África acontece em um momento tão importante ao Wydad e aos Winners. As ambições de erguer outra vez a principal taça do continente se cumpriram após 25 anos de espera. E o Mundial de Clubes se transforma em um esperado palco aos ultras, como já tinha sido em 2013 aos rivais do Raja Casablanca, de um jeito completamente diferente. A presença dos alvirrubros nos Emirados Árabes poderá não apenas recobrar um pouco do espetáculo que se via até as proibições, mas também amplificar as insatisfações com as autoridades. Resta saber até que ponto os torcedores conseguirão se desvencilhar do controle da polícia e quantos realmente estarão presentes em Abu Dhabi. Será um desafio dentro e fora de campo ao WAC, no intuito de ecoar sua grandeza.

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