O recorde de gols de Cristiano Ronaldo na Liga dos Campeões beira o absurdo. Na competição que possui os melhores clubes do mundo, em que nenhuma equipe faz mais de 13 partidas, imaginar o artilheiro com mais de 13 gols é difícil. Pois o camisa 7 do Real Madrid não apenas superou essa marca, como também precisou de um número ainda menor de jogos para isso. Chegou a 16 gols em 10 partidas, uma média fantástica. Superou os 14 gols de José Altafini, o Mazzola, que perdurou durante 51 anos e por um bom tempo pareceu imbatível.

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Eram outros tempos quando Mazzola balançou as redes tantas vezes. Apenas os campeões nacionais participavam da então Copa dos Campeões, disputada apenas em mata-matas. Um time não podia fazer mais do que nove partidas. E o brasileiro esteve em campo em todos os compromissos do Milan para poder se tornar artilheiro, titular absoluto do primeiro clube italiano a erguer a taça continental, em 1962/63.

O baixo número de jogos, aliás, explica por que lendas como Di Stéfano, Fontaine, Eusébio e Van Basten nunca chegaram a marcas ainda superiores, mesmo tendo médias de gols melhores do que Cristiano Ronaldo em toda a sua carreira no torneio. Mazzola está entre esses mitos, com a terceira melhor média entre todos os jogadores com 20 gols ou mais, abaixo apenas de Gerd Müller e Ferenc Puskás. No entanto, nem o alemão e nem o húngaro foram tão mortais quanto o brasileiro em uma única edição.

É verdade que a artilharia de Mazzola foi bastante facilitada pelo primeiro duelo do Milan, contra o Union Luxemburgo. Foram oito gols nos dois jogos contra os luxemburgueses, sendo que os quatro primeiros foram marcados em um intervalo de 36 minutos. Ainda assim, o atacante permaneceu fazendo a diferença para os rossoneri nas fases seguintes. Assim como Cristiano Ronaldo, massacrou o Galatasaray, com quatro tentos nas quartas de final. E foi o herói da decisão em Wembley. O Benfica tinha um verdadeiro esquadrão, era o bicampeão continental após ter encerrado a hegemonia do Real Madrid. Porém, os milanistas tiveram forças suficientes para evitar o terceiro título dos encarnados. Eusébio abriu o placar, mas Altafini decidiu no segundo tempo, marcando os dois gols na vitória por 2 a 1.

altafini

O brasileiro se tornava naquele momento um dos grandes do futebol europeu. Sua consagração no Brasil já era antiga, depois de fazer carreira no Palmeiras e ser reserva de Pelé na Copa de 1958. Negociado ainda na Suécia, se transferiu ao Milan logo depois do Mundial. Para emplacar imediatamente: em suas quatro primeiras temporadas, não marcou menos do que 20 gols pela Serie A, liderando a artilharia em 1961/62. Só não foi bicampeão do mundo com o Brasil porque a Seleção era restrita a jogadores que atuassem fora do país, e por isso mesmo disputou a Copa pela Itália. Voltou do Chile para dar ao Milan o primeiro de seus sete títulos da Champions, e mesmo com quatro gols em quatro jogos, não conseguiu fazer o seu time ser bicampeão na edição seguinte, eliminado pelo Real Madrid nas quartas.

Pouco tempo depois Mazzola se transferiu para o Napoli, onde ficou longe da Copa dos Campeões. O atacante só voltou a disputar o torneio no fim da carreira, em 1972/73, quando chegou à Juventus. Marcou dois gols contra o Derby County de Brian Clough para colocar os bianconeri na final, mas não levantou a taça novamente porque o Ajax de Johan Cruyff era realmente mais forte.

Ainda teve tempo de disputar mais duas edições da Champions, mas longe do mesmo brilho, apenas reserva da Juve. Pouco importava. A história de Mazzola já estava feita. Não se apaga nem mesmo com o novo recorde de Cristiano Ronaldo. E talvez a marca do brasileiro ainda se mantenha superior à do português em um aspecto: a média de gols. Se Ronaldo passar em branco na decisão, a vantagem do veterano. No Estádio da Luz, casa do mesmo Benfica que Altafini superou há 51 anos. Nada mais simbólico.