Já está na hora de acabar de vez com a hipocrisia. Há homossexuais no futebol, vários. E, aos poucos, eles vão ganhando coragem para revelar isso publicamente e mostrar que é bobagem achar que “futebol é coisa para macho”. Nesta quarta, o ex-volante alemão Thomas Hitzlperger saiu do armário em entrevista ao jornal Die Zeit. Ele não era craque, mas é o jogador mais importante a se revelar gay.

“Em Inglaterra, Itália e Alemanha, ser homossexual não é grande coisa, pelo menos não no vestiário. Nunca me envergonhei de ser que eu sou, mas nem sempre era fácil me sentar a uma mesa com 20 caras e ouvir piadas sobre gays. Você deixa eles continuarem, desde que as piadas sejam um pouco engraçadas e não muito insultantes. Ser gay é um assunto ignorado no futebol e não é um assunto sério no vestiário”

Não é uma ação isolada. O processo já vem de um tempo e pode ganhar velocidade. No ano passado, Robbie Rogers se aposentou para anunciar que era homossexual, já esperando uma reação pesada. Acabou tendo um contrato oferecido pelo Los Angeles Galaxy, voltou ao esporte e virou um símbolo da causa. Algum tempo depois, no final de novembro, a Alemanha deu um importante passo quando a Deutsche Fussball Liga (entidade responsável pelas ligas no país) assinou a Declaração de Berlim, para combater a homofobia no futebol. A entrada de Hitzlsperger agora na discussão é relevante principalmente pelo fato de, diferentemente de Rogers, o alemão ter jogado por clubes importantes, como Stuttgart e Lazio, e inclusive ter defendido a seleção alemã na Copa de 2006. Ele ainda leva a questão para o futebol inglês, pois defendeu Everton, Aston Villa e West Ham. E o caso mais notório de homossexualidade com futebol inglês não é nada agradável.

O fato de o ex-jogador ter esperado sua aposentadoria chegar para assumir sua homossexualidade ilustra o temor que ainda cerca o assunto dentro do futebol. Ele considerou que, se o fizesse antes, teria dificultado mais sua carreira. Em vez disso, preferiu se manter calado e teve uma trajetória respeitada. Venceu a Bundesliga com o Stuttgart em 2007 e defendeu a seleção alemã de 2004 a 2010, incluindo as campanhas da Copa 2006 e da Euro 2008. “Espírito de luta, paixão e mentalidade vencedoras estão intrinsecamente ligados (ao futebol), e isso não se encaixa no clichê de que ‘gays são delicados’”, comentou Hitzlsperger.

O alemão sabe que é o início de uma onda positiva para a causa e que sua atitude pode ajudar a dar mais impulso a ela. Dependendo dos tipos de reação que possam surgir, especialmente pelo status que Hitzlsperger teve na carreira, mais jogadores importantes podem acabar seguindo o mesmo caminho e fortalecendo ainda mais a discussão. Especialmente na Alemanha, parece um momento propício para isso.