Sempre que se fala em Inglaterra e Copa do Mundo, muitos veículos ingleses tratam a seleção como uma das grandes, embora esteja longe das conquistas e da tradição de Brasil, Itália ou Alemanha. A Inglaterra é o país onde o futebol foi criado como o esporte como se vê hoje. Roy Hodgson, no alto da experiência de alguém que comandou 16 times em oito países diferentes, parece com os pés no chão, mas não deixa de sonhar alto.

Cair em um grupo tão forte como o D, com Uruguai e Itália – além da pobre Costa Rica – não tornou a vida da Inglaterra fácil no Mundial. Mas Hodgson não parece que se preocupa muito com isso. “Quando você olha para os grupos, eu não vejo muitos onde a vida seria muito mais fácil, e você pode ser enganado em pensar que será fácil. É algo perigoso a fazer. Nós fizemos isso em 2010, quando as pessoas sugeriram que o grupo da Inglaterra na África do Sul era muito fácil e seria uma questão simples ser líder do grupo. A conversa era sobre as oitavas de final e até quartas de final”, alertou Hodgson.

O técnico tenta minimizar o fato de estar em um grupo que é, sim, muito difícil. É grande a chance da Inglaterra sequer passar de fase. Uruguai, jogando na América do Sul, será um adversário duro, mesmo que não seja um time tão coeso quanto já foi no terceiro lugar da Copa de 2010 ou no título da Copa América de 2011. A Itália, bom, é um time com quatro títulos mundiais, finalista da Europa de 2012 e com um time que está longe do estereótipo da retranca. A Inglaterra também não é um time desprezível, é claro, e os outros times também se preocuparão com ela. Mas será uma batalha dura.

Como sempre acontece na Inglaterra, Hodgson foi perguntado a respeito de título. Ele confessou que sonha, mas colocou a Inglaterra no seu devido lugar: o de uma seleção que não é favorita. Ele até comparou a situação dos ingleses à Dinamarca e Grécia, campeãs inesperadas no passado.

“Eu nunca perdi o sonho. Poucos esperavam que Dinamarca e Grécia ganhassem a Eurocopa (em 1992 e em 2004, respectivamente). Nós não podemos ignorar os países, especialmente no continente Sul-Americano, porque eles provavelmente estão em uma posição melhor para serem favoritos, mas eu não gostaria de dizer quem irá vencer”, declarou o técnico à BBC.

Roy Hodgson, técnico da seleção inglesa (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)

Roy Hodgson, técnico da seleção inglesa (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)

De fato, sonhar é de graça. Mas a situação inglesa é complicada não só pela fase de grupos, mas porque é difícil imaginar que o time esteja pronto para enfrentar qualquer um dos favoritos ao título. Brasil, Espanha, Alemanha, Argentina, todas são seleções mais fortes e mais temíveis que a Inglaterra. Entre os campeões do mundo, talvez só a França sofra tantas incertezas quanto os ingleses. Muito pela sua enorme confusão nos bastidores, algo que é tradicional na seleção do país. É como se a cada Copa, o time quisesse fazer uma revolução francesa. Ou dá muito certo e o time é ao menos semifinalista, ou dá tudo errado e o time cai na primeira fase.

Os ingleses têm um time tão capaz de ganhar a Copa quanto a Colômbia, por exemplo. São times com talentos individuais e alguma tradição, mas que estão atrás da maioria das grandes seleções do mundo. Dificilmente aguentariam Brasil ou Argentina em um mata-mata.

Na imprensa inglesa, é comum dizer que falta à Inglaterra a força mental dos seus concorrentes, sendo a Alemanha o principal exemplo nesse sentido. Hodgson discorda. “Eu não acusaria os jogadores de falta de força mental. Às vezes nós sofremos de cansaço porque nós temos uma liga muito intensa sem uma parada. Nós às vezes jogamos 60 jogos [por temporada]. As três semanas dadas antes de um grande torneio é pouco tempo para fazer o time e o elenco chegarem na situação que nós queremos”, analisa o treinador.

“Os alemães, por exemplo, tem uma vantagem de ter menos jogos na sua liga, não ter muita ênfase nas suas competições de Copa como nós damos e têm uma longa parada de inverno. Isso ajuda mais do que a falada força mental. Nós temos que tomar cuidado para não dar às outras nações qualidades milagrosas que não possuímos. Nós temos jogadores mentalmente fortes e também temos jogadores que talvez não tenham tanta força mental”, argumentou o treinador.

O argumento faz algum sentido. O calendário da Alemanha é mesmo mais leve que o inglês, que tem uma copa a mais, a Copa da Liga, além de ter os tradicionais jogos de fim de ano, algo que não acontece na Alemanha, onde o inverno rigoroso obriga uma parada no meio de dezembro até o fim de janeiro. A Bundesliga só volta a ser disputada no dia 24 de janeiro.

Além do calendário, a questão da força mental dos alemães é bastante questionável. Aliás, é um ponto que os alemães mesmo se questionam. Afinal, desde 2006 montaram um time jovem, com um futebol ofensivo e envolvente, mas que não consegue ganhar em momentos decisivos. Lembremos que em 2006 o time caiu para a Itália na semifinal, em casa. Em 2008, perdeu a final da Eurocopa para a Espanha, até então considerada “amerelona”. Em 2010, novamente caiu para a Espanha na Copa. Em 2012, sucumbiu à Itália de Balotelli. Então, dizer que os alemães possuem mais força mental, nesse momento, não parece ser mesmo adequado.

A Inglaterra pode ter sucesso na Copa e isso não quer dizer ganhar o título. A Inglaterra ganhar a Copa ser ia uma zebra, como Hodgson citou a Dinamarca em 1992 e a Grécia em 2004. Seria algo desse tamanho. Mas chegar às quartas de final é um sonho possível. Se passar me primeiro no seu grupo, a Inglaterra enfrenta nas oitavas o segundo do Grupo C, que tem Colômbia, Costa do Marfim, Japão e Grécia. Se passar em segundo, enfrenta o primeiro deste mesmo grupo. Em qualquer cenário, a classificação é possível. Mas nas quartas, a situação se complica. Pode pegar Argentina ou Brasil, por exemplo. Mas seria um papel digno.

A Inglaterra é uma seleção tradicional, mas seleção tradicional não quer dizer uma seleção forte. O Uruguai, durante anos, foi uma seleção tradicional que sequer conseguia ir à Copa. Mas a Inglaterra é um bom time. Só que de bons times, a Copa tá cheia.