Já era algo conhecido de todos – talvez, até, esta coluna tenha citado algo a respeito. E nesta semana, confirmou-se algo que fora falado por Eric Gudde, diretor técnico da federação holandesa, durante a entrevista coletiva que apresentou Ronald Koeman como novo técnico da seleção: “O padrão deve ser o da Copa de 2014”. O tempo mostrou: aquela equipe laranja (ou azul, como nos jogos contra Espanha, Austrália e Brasil) tinha mais esforço do que talento, mas assim obteve bons resultados e foi elogiada. É exatamente tal objetivo que guia esta nova fase da Laranja, que será começada nesta sexta, com o amistoso contra a Inglaterra, em Amsterdã, e seguirá na segunda, em outra partida amigável, contra Portugal, em Genebra – a princípio, seria contra a Espanha.

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Aliás, as novidades não ficam só dentro de campo. As que ocorrem fora parecem indicar, no fundo, uma coisa só: a Holanda quer se assumir como uma seleção… média, que não merece tanta atenção nem tanta celebração, que deseja apenas foco total no trabalho. Algo exemplificado até na mudança da sede da preparação para as datas Fifa. Antes, a apresentação dos convocados era feita no hotel Huis ter Duin, na cidade de Noordwijk – e havia uma curta viagem de ônibus até Katwijk, para os treinamentos no campo do Quick Boys, clube amador. Agora, a mudança de pessoas motivou a federação a também mudar de lugares: treinamentos e concentração serão feitos no KNVB Campus, espécie de centro nacional de desenvolvimento do futebol holandês (com alojamento para os atletas, claro), construído em anexo à sede da federação, em Zeist.

Um lugar mais discreto, para uma preparação mais discreta. Tanto nas entrevistas – Ronald Koeman só concedeu duas delas, na segunda e na quinta desta semana, além de ter enviado a convocação final dos 23 jogadores num simples e-mail à imprensa – quanto nos treinamentos. Conforme já preconizara em sua apresentação, Koeman trouxe à seleção os treinos fechados. Por dois motivos, segundo a imprensa: um óbvio (trazer mais concentração ao grupo de jogadores, livrando-os de chateações de imprensa ou excessivos assédios) e outro implícito, até decorrente do primeiro (fazer com que os jogadores sejam mais… profissionais, tenham mais dedicação enquanto estiverem na seleção – uma das grandes preocupações do novo treinador).

Tudo isso, de certa forma, remete ao exemplo que guiará a seleção holandesa: a supracitada Copa de 2014. Se Eric Gudde foi claro ao citá-la, Koeman aprofundou mais a explicação: “Pode-se dizer que ela deve ser um padrão pelo resultado prático, com a terceira posição que alcançamos. Mas acho que Eric também se referia ao que ocorreu fora de campo. Todos sabiam quem era o técnico, então, e mesmo com uma qualidade menor, o coletivo alcançou um feito maravilhoso. Naquela época, em todos os setores, havia clareza. E acho que clareza é uma de minhas qualidades”.

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De fato, Koeman foi claro para assumir várias coisas. A primeira: de fato, a seleção dificilmente jogará no 4-3-3 sob seu comando. Adivinhem: voltarão os três zagueiros – seja no 5-3-2 de 2014, seja no 3-5-2. A justificativa foi até óbvia: “Com todo respeito, não temos mais os melhores de verdade. Então, procuram-se outras coisas, como um outro esquema. Na minha convocação, procurei escolher jogadores que pudessem ir bem nesse sistema [com três zagueiros]. Trabalhamos duro, treinamos duro, e quero ver o resultado contra a Inglaterra”.

Procuraram-se “outras coisas…”, mas Koeman também procurou os três jogadores que eram símbolos de talento em 2014. Para cada um deles, uma conversa diferente. Com Wesley Sneijder, o objetivo foi dizer que ele não faria parte dos novos planos – até por isso, o anúncio do fim da carreira do meio-campista na seleção, após 15 anos e o recorde de 133 partidas pela Laranja. O meio-campista ficou ligeiramente sentido. Ficou ainda mais desapontado com sua ausência dos amistosos – esperava fazer deles uma espécie de “despedida”, mas novamente o técnico foi claro: “Ele terá uma despedida como merece, mas, com todo respeito a Wesley, isso [um jogo pela seleção] fica para outra hora”. Restou a Sneijder, de folga do Al Gharafa, uma visita aos compatriotas que treinam em Zeist, nesta quinta.

Com Arjen Robben, a prosa foi ligeiramente diferente. Koeman assumiu: queria saber se o atacante realmente havia fechado o capítulo da Oranje em sua carreira contra a Suécia, nas Eliminatórias da Copa, em outubro passado. “No momento em que ele jogou sua última partida, parecia que ele tinha deixado a porta entreaberta. Foi uma das razões pelas quais fui falar com ele”. Robben fechou a porta de vez, mas ainda assim, foi útil: “Acima de tudo, quis saber o que ele achou desses últimos tempos da seleção”. E caso o calvo precoce de Bedum mude de ideia, o técnico já abriu o caminho: “Robben ainda me pareceria um ganho de valor para a seleção”.

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Quem também pode pensar numa eventual volta é o terceiro da lista de “decisivos” em 2014: Robin van Persie. Desde que sob certas condições, conforme o treinador alertou: “Estive no Feyenoord, falei com ele, quis saber sua opinião. Ele não disse que havia parado com a seleção. E mostrou de novo sua classe [com os dois gols contra o Zwolle, na rodada do Campeonato Holandês]. Só que, mesmo que a qualidade seja o critério principal, primeiro ele precisa entrar em forma”.

Enquanto isso, os convocados da vez tentam mostrar a vontade vista nas palavras de Bas Dost: “Eu quero demais mostrar o valor que tenho”. Caras novas, não faltam: há Justin Kluivert (pode estrear na Oranje adulta abaixo dos 20 anos, como o pai fez em 1994), Hans Hateboer (ótimo na Atalanta, o ala é forte candidato a tomar a lateral direita de Timothy Fosu-Mensah e Kenny Tete, outros relacionados da posição), Guus Til (merecida convocação deste novato meio-campista, destaque na ótima campanha do AZ na Eredivisie), Wout Weghorst (mais um membro do AZ – por sinal, junto de Dost, mostrando uma certa tendência de atacantes holandeses altos e corpulentos, sem o maior dos talentos com a bola nos pés). Se alguma ausência surpreende, é a de Daley Blind, somente.

Simultaneamente, Koeman já começa a escolher os jogadores que sustentarão sua base. Um deles já dizia durante os treinos em Zeist: “Ser capitão da seleção é um sonho”. Pois bem, Virgil van Dijk teve a quimera realizada, e certamente será o sustentáculo da defesa de cinco homens, provavelmente ao lado de Stefan de Vrij e Matthijs de Ligt. No ataque, o treineiro holandês carregou mais nas palavras: confiará em Memphis Depay, desconfiando simultaneamente. Afinal, Koeman é daqueles que tanto admira o talento do atacante quanto lamenta a falta de foco às vezes apresentada por ele na carreira: “Eu quis trazê-lo para o Everton. Ele tem muita qualidade. E tive ótima impressão na conversa com ele. Mas é um caminho de mão dupla: eu trabalharei duro para ajudá-lo, mas ele também precisará fazer isso”.

E há os nomes previsíveis: Kevin Strootman, Georginio Wijnaldum, Davy Pröpper, Quincy Promes… A única dúvida de Koeman, a bem da verdade, está no gol. Nenhum dos dois nomes mais cogitados inspira total confiança. Quem escolher? Jeroen Zoet, com ritmo total de jogo (é titular absoluto do PSV), mas num campeonato de nível técnico baixo? Ou Jasper Cillessen, melhor no jogo com os pés, acostumado ao altíssimo nível de competição (reserva do Barcelona que é), mas não só acomodado na suplência, como jogando apenas na Copa do Rei – por mais que tenha ido bem em suas atuações recentes?

As condições estão dadas: trabalho duro e foco no coletivo, como na Copa de 2014. Assim, Ronald Koeman e os jogadores tentarão fazer a Holanda recuperar algum respeito. Afinal, se ela não faz frente às grandes forças europeias – Alemanha, França, Espanha, Bélgica -, também não é pior do que Islândia ou Dinamarca ou Polônia, como muita gente tem achado.

(Ou será que é? Vai saber…)