“Você me faz querer ser um homem melhor.” Com essa frase simples e singela, Melvin Udall (Jack Nicholson) resumiu a razão do amor estranho e belo que tinha por Carol Connelly (Helen Hunt), no filme “Melhor é impossível” (“As good as it gets”), talvez o outro megasucesso do cinema em 1998 – lógico, além de “Titanic”. Até como prêmio pelas ótimas atuações, Nicholson e Hunt levaram o Oscar em suas respectivas categorias. Ele como ator, ela como atriz.

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Pois bem, a Holanda queria ser um time melhor para disputar esta Copa do Mundo. E grande parte desse crescimento poderia ser exibido em sua estreia na Copa. Contra a Espanha, que fora a algoz do sonho de mais um título mundial, em 2010. Com um time novo, cheio de figuras desconhecidas, sustentado pelo trio velho de guerra: Robben, Van Persie e Sneijder. Estava dando errado. Mas um empate na hora certa iniciou a mais bela vitória da Holanda desde… as quartas de final contra o Brasil, em 2010.

E o começo até dava indicações de um final feliz, como em “Melhor é impossível”. Com um ótimo passe de Robben para Sneijder, o camisa 10 chegou livre na área, já no início do primeiro tempo. Só que os fantasmas voltaram: como em 2010, o chute foi fraco demais, fácil para Casillas rebater. E aí recomeçou o suspense no filme holandês.

Porque a Espanha, que começou até tímida, empreendeu o seu velho estilo. Toque de bola incessante entre os jogadores. E como a linha de cinco defensores holandeses mal saía da defesa (e o meio-campo marcava em cima, pelo menos com De Jong e De Guzman), era necessário para o time de Vicente del Bosque fazer mais lançamentos e usar dos contra-ataques.

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Aí, sim, as coisas começaram a funcionar para os espanhóis. Com Xavi e Iniesta lançando para um Diego Costa que começou otimamente o jogo, não foi difícil começar a enervar os jogadores holandeses. De Guzman e De Jong começaram a exagerar nas faltas. Os defensores começaram a sentir a pressão. E a prova foi o excessivo ímpeto de De Vrij (mau no primeiro tempo) no pênalti sobre Diego Costa, que possibilitou a Xabi Alonso fazer o 1 a 0.

Só aí os holandeses, os protagonistas do filme, decidiram que era hora de acabar com a repetição da história de 2010. Para isso, bastaram três jogadores. Daley Blind começou a ser frenético nos ataques pela esquerda, deixando claro que não foi eleito o melhor jogador do último Campeonato Holandês à toa nem está no time só por ser filho do auxiliar (e futuro técnico, a partir de 2016) Danny. Mas ainda faltava alguém. “Alguéns.”

E esse alguém que é duplo apareceu na figura de Robin van Persie. Esperava-se muito da grande estrela do elenco holandês. E ele começou a aparecer. Meio atabalhoado, a princípio. Mas na hora certa para começar a virada: aproveitando cruzamento de Blind, cabeceando da entrada da área, encobrindo Casillas e fazendo seu 44º gol pela seleção holandesa. Aos 43 minutos do primeiro tempo. Ensina a história que assim é melhor: os defeitos são corrigidos no intervalo, sem a pressão da derrota.

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Mas ainda faltava a outra cabeça desse alguém, desse craque holandês. E se Robin é o prenome de Van Persie, ele foi alterado para “Robben van Persie”. Porque, vivendo a fase mais confiável da carreira, o camisa 11 merecia toda a confiança – até mais do que em 2010. Pois bem: com a Oranje acalmada, e o meio-campo evitando que as coisas estourassem na defesa, bastou um belo lançamento de Blind (melhor holandês em campo) para que Robben fizesse a jogada-que-todo-mundo-sabe-que-ele-fará-mas-não-sabe-como-marcar. 2 a 1.

Aí veio a confiança, que decidiu o final feliz do jogo, mais do que a tática. Quem falhava parou de falhar, até pelo desalento espanhol. Quem precisava de um apoio, de um motivo para acreditar, ganhou – aqui, caso de De Vrij, que ganhou liberdade para ir à frente e fez o que normalmente é papel de seu colega de clube e seleção, Martins Indi: gol. 3 a 1.

Do resto, cuidaram Robben e Van Persie, cada vez mais motivados diante da embasbacada zaga espanhola. Não foi difícil chegar ao 5 a 1, até por ajudas indiretas como a do irreconhecível Casillas no quarto gol. Uma goleada muito bem recebida, ainda que inesperada, como Van Gaal falou após o jogo: “Não esperava que fosse desse jeito. Nosso sentimento era de uma felicidade incrível após o jogo. Poderia ter sido 6 a 1, ou mais”.

O que não esconde que a Holanda tem seus buracos no roteiro de seu filme na Copa. A melhora do ataque não pode esconder o fato de que Sneijder foi apático, lembrando o que vinha sendo antes da convocação para a Copa. E de que a defesa sofreu quando foi pressionada, como no primeiro tempo. Sem contar De Guzman, o ponto fraco holandês hoje: nem ajudou o incansável De Jong na marcação, nem entregou bem a bola para Sneijder criar.

É um ponto que a Holanda terá de consertar, para melhorar taticamente e evitar sustos contra Austrália e, principalmente, Chile. Porque o mais importante, ela já ganhou: a crença de que pode, sim, chegar mais longe nesta Copa do Mundo, já que a perspectiva do primeiro lugar cresceu. Todo cuidado ainda é pouco, tendo em vista o histórico da Oranje. Mas é inegável que a marcante vitória em Salvador faz com que a Holanda queira ser um time melhor.