Após tantas decepções, principalmente nos últimos dois anos, a seleção da Holanda não recebe muita confiança – e nem a merece, aliás. Todavia, na rodada passada do grupo A das eliminatórias europeias para a Copa de 2018, a vitória sobre Luxemburgo (e a derrota da França para a Suécia) devolveu um pouco a esperança à Laranja. Enfim, chegou a hora de confirmar tal esperança – ou de afundar no desânimo. Porque, a partir destas datas FIFA, todas as partidas serão “decisões”. A primeira, nesta quinta-feira, já é a mais importante de todas: contra a França, em pleno Stade de France. E a Holanda precisa ganhar.

LEIA MAIS: Utrecht e Vitesse: o lado bom do futebol holandês

Pode parecer exagero, mas é a única alternativa para a equipe, se ainda quiser depender só de si para ter uma das duas vagas – direta ou na repescagem – e tentar estar na Rússia a partir de 14 de junho de 2018. Além de ser o resultado mais esperado pela maioria, uma derrota para os Bleus (na segunda colocação do grupo, com 13 pontos) seria naturalmente desastrosa para a Oranje (3ª colocada, com 10): a diferença dentro do grupo poderia ir a seis pontos, tanto para os franceses quanto para os suecos (líderes, com 16 pontos), caso estes vençam o jogo direto e simultâneo contra a Bulgária, em Sófia. Ou seja, a Holanda ficaria praticamente fora da Copa, se ausentando de outro torneio grande pela primeira vez em 32 anos (não esteve nem na Euro 1984, nem na Copa de 1986).

Nem mesmo um empate ajudaria: se por um lado, viria um ponto, pelo outro seguiria até o risco de cair para a quarta posição, em caso de vitória búlgara. Vencer seria triplamente importante. Primeiro, porque devolveria a Holanda definitivamente à disputa por uma vaga na Copa, podendo ficar a apenas um ponto da liderança, caso Suécia e Bulgária empatem. Segundo, porque colocaria a equipe laranja numa posição insuspeita de vantagem para as “decisões” seguintes: jogaria em casa contra Bulgária (já no próximo domingo, em Roterdã, às 13h) e Suécia (fechando a campanha nas eliminatórias, às 15h45 de 10 de outubro). Terceiro, e talvez mais importante: daria motivos para confiança na equipe holandesa.Para tentar alcançar tal façanha, Dick Advocaat fez uma convocação na qual decidiu apostar em todos os recursos à disposição.

Jovens com potencial? Estão lá: apostou-se em Kenny Tete, de ótimo começo pelo Lyon na temporada. Donny van de Beek, que tem mostrado personalidade ao substituir Davy Klaassen no meio-campo do Ajax, foi chamado pela primeira vez – ainda que tenha falhado num dos gols do Rosenborg, na partida que eliminou o Ajax da Liga Europa. Wesley Hoedt, de atuação promissora contra Luxemburgo, também figurou entre os 23 – como Tonny Vilhena, que segue fundamental no Feyenoord, e Matthijs de Ligt, ainda badalado no Ajax. Até mesmo Timothy Fosu-Mensah, chamado para a seleção holandesa sub-21 que também jogará, foi incluído às pressas no elenco principal, caso Tete seja cortado (sente dores no joelho).

As surpresas começaram com alguns retornos. Quase três anos e meio após sua primeira e única partida pela Oranje adulta (justamente contra a França – um amistoso, em março de 2014, também em Saint-Denis), o zagueiro Karim Rekik foi chamado, mesmo ainda iniciando sua passagem pelo Hertha Berlim. Ao chegar à apresentação, no hotel Huis ter Duin, na cidade de Noordwijk, Rekik assumiu: “Eu não contava com isto [a convocação], mas só torna ainda melhor”. Porém, Rekik claramente será reserva. A maior surpresa veio no ataque.

Claro, a convocação de Advocaat não ousaria prescindir de Wesley Sneijder e Arjen Robben – mesmo ainda voltando de lesão lombar sofrida nas férias, bastou Robben jogar confiavelmente pelo Bayern de Munique para estar na lista. O inesperado veio com a presença de Robin van Persie. Que estivesse na lista preliminar, tudo bem – nela estava até mesmo Ryan Babel, presença também surpreendente. Mas pouco se previa que Van Persie ficaria entre os 23 finais. E as evasivas declarações de Dick Advocaat para justificá-la (“Ele ainda é um dos melhores atacantes holandeses, por isso foi convocado. Havia dúvidas sobre sua forma, mas ele tem jogado pelo Fenerbahçe”) não esclareceram a surpresa.

De todo modo, se há uma ocasião para Van Persie reescrever o final de sua história com a camisa laranja, aos 34 anos recém-completos, é esta. Até porque sua última partida – há quase dois anos, em 13 de outubro de 2015 -, foi justamente a vexatória derrota por 3 a 2 para a República Tcheca, em plena Amsterdam Arena, confirmando a ausência holandesa da Euro 2016, com direito a gol contra “à la Oséas” do próprio atacante. Que, mesmo do alto da fama de maior goleador da história da seleção (50 gols), se apresentou com humildade: “Nem sempre eu estive bem o suficiente para ser convocado, a vida no futebol é assim, eu entendo, não tenho rancor de ninguém [pela ausência]. Estou apenas feliz. Não é a situação ideal para voltar, mas se temos uma chance, temos de buscá-la com tudo”.

Uma lesão no ombro sofrida contra o Vardar, pela Liga Europa, quase causou seu corte, mas ter se apresentado e participado dos treinos desde segunda-feira passada faz crer que, se necessário, Van Persie pode até começar jogando. Não é provável, já que Dick Advocaat ainda aposta em Vincent Janssen ou Bas Dost como opções principais. Mas convém pensar que ele possa ser uma surpresa (jogaria junto de Sneijder e Robben pela primeira vez desde novembro de 2014), diante da grande experiência do retornado e das más atuações de Janssen e Dost vestindo laranja. Assim como também surpreenderá o retorno do 5-3-2 visto na Copa do Mundo passada, opção experimentada num treino sem a imprensa, em Amsterdã, nesta terça.

De resto, o discurso foi o previsível: cheio de otimismo e vontade. Às vezes com mais introspecção, no caso do estreante Van de Beek, que apenas se disse “lisonjeado” pela confiança de Advocaat. Com mais ousadia, no caso do próprio técnico da seleção: “Por que não podemos vencer? Não devemos ter medo, também temos bons jogadores”. E com a confiança digna do capitão que Robben é: “Não podemos pensar que somos menores. Podemos dizer que será difícil, e que a França tem um melhor time. Mas se é para pensar assim, é melhor ficar em casa”.

E chegou a hora da Holanda tentar evitar o destino pessimista que se prevê para ela nas eliminatórias da Copa. Por mais que também tenha muito o que melhorar, a França parece melhor e mais capacitada tecnicamente para deixar a Oranje definitivamente afastada do Mundial. Uma derrota no Stade de France teria até consequências futuras: representaria o fim da geração de Robben, Sneijder e Van Persie, além de transformar as três partidas restantes da qualificação em amistosos potencialmente melancólicos. Mas a Holanda irá a campo apostando em tudo o que pode apostar para tentar surpreender. Se serve de ânimo, também era assim antes de pegar o Brasil, na Copa de 2010, ou a Espanha, na Copa de 2014…