Quando a Eurocopa feminina começou, a Holanda só queria uma campanha digna. Afinal de contas, o torneio era no país, a campanha na Copa de 2015 já fora elogiável (pouco se esperava, e chegaram às oitavas de final, perdendo para as japonesas, futuras vice-campeãs), e tudo ajudaria na popularização da modalidade no país. Mas o tempo foi passando. A equipe foi bem na primeira fase. Foi eficiente nas quartas. Brilhou nas semifinais. E superou a fronteira final que sempre perturba a Holanda, em torneios masculinos ou femininos: mostrou poder de reação na decisão, para fazer 4 a 2 na Dinamarca e conquistar o primeiro título de sua história.

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Da maneira que a decisão começou no Grolsch Veste de Enschede, era de se temer que as “Leoas Laranjas” se apequenassem novamente na hora decisiva, como tantas vezes ocorreu com o futebol holandês. Porque a Dinamarca impôs um estilo ofensivo: o trio formado por Pernille Harder, Katrine Veje e Nadia Nadim tocou mais a bola, chegou bastante à área nos primeiros minutos, e foi premiado com um pênalti logo aos seis. Nadim cobrou com perfeição e fez 1 a 0. Era a vantagem que as dinamarquesas queriam: após a desgastante semifinal contra a Áustria, poderiam jogar mais sossegadas na defesa, em tese. A Holanda, por sua vez, tinha o maior dos desafios: nunca saíra em desvantagem, em toda a campanha na Euro. Saía logo na partida mais importante. Como reagiria à pressão de responder à torcida?

Netherlands' forward Vivianne Miedema (L) celebrates with Netherlands' defender Dominique Janssen (R) after scoring a goal during the UEFA Womens Euro 2017 football tournament final match between Netherlands and Denmark at Fc Twente Stadium in Enschede on August 6, 2017. / AFP PHOTO / JOHN THYS (Photo credit should read JOHN THYS/AFP/Getty Images)

A resposta: reagiria como sempre reagiu. Confiando no melhor de seus três destaques. A calma da meio-campista Jackie Groenen, num lançamento preciso; a velocidade impressionante de Shanice van de Sanden, que dominou e cruzou pela direita; e a eficiência de Vivianne Miedema, que tivera péssima primeira fase, mas conferiu para o seu terceiro gol na Euro. Faltou alguém? Claro: faltou Lieke Martens, cuja técnica possibilita chutes venenosos, como aquele que foi no canto esquerdo da goleira Stina Lykke Petersen, virando o jogo.

Todavia, a Dinamarca também tinha suas armas. Se Veje foi o destaque danês nas fases iniciais, Harder e Nadim faziam possivelmente suas melhores atuações, justamente na final, mostrando técnica e rapidez nos dribles. Diante de uma defesa holandesa inesperadamente insegura e mal posicionada, foi o bastante para que o 2 a 2 viesse ainda no primeiro tempo, num contra-ataque veloz em que Harder finalizou com classe, cortando para o meio e batendo de pé esquerdo. Um empate que coroava um jogo irresistível em sua etapa inicial: a Holanda se valendo dos seus destaques, com a Dinamarca perigosa, técnica e até mais ofensiva.

Após o intervalo, já estava claro para os 28.182 espectadores no Grolsch Veste (recorde de presença de futebol feminino na Holanda) algo já previsível antes mesmo da final começar: embora as anfitriãs fossem favoritas, o jogo era tremendamente equilibrado. Só mesmo a inteligência no momento decisivo poderia definir o título europeu. Para a sorte da Holanda, definiu logo que a segunda etapa começou, aos seis minutos: uma cobrança de falta na entrada da área, uma jogada ensaiada, Daniëlle van de Donk começou rolando e Sherida Spitse enganou a barreira, batendo colocado, no canto. Com a visão coberta, Lykke Petersen não teve chances de chegar. Era o 3 a 2.

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De novo, a Dinamarca buscou o empate. Harder e, principalmente, Nadim sempre traziam perigo quando tinham a bola nos pés. Ainda assim, aos poucos o cansaço dos 120 minutos disputados na quinta-feira passada se fizeram sentir nas dinamarquesas, que foram diminuindo a velocidade, embora nunca tenham abdicado da busca pela vitória. A Holanda conseguia, de novo, o que já fizera contra Suécia e Inglaterra: levava o jogo ao seu estilo. Se precisava do ataque, mantinha a posse de bola. Caso contrário, apenas esperava no campo de defesa.

Era questão de esperar o contra-ataque decisivo. Ele veio aos 44 minutos, para começar definitivamente a festa já tímida no Grolsch Veste. Com Miedema, que marcou seu quarto gol mostrando a habilidade que sempre teve (corte seco na zagueira Stine Larsen, chute no contrapé de Lykke Petersen) e apagou definitivamente as más memórias do começo.

E aí, foi questão de alguns minutos até começar a festa que realizou o desejo que a Holanda nem sabia ter ao começo da Euro: o título. Conquista que populariza o futebol feminino na Holanda, caminho talvez sem volta. Que leva as laranjas a serem uma equipe de ponta na Europa. Que fez gente como Marco van Basten e Louis van Gaal assistirem à decisão no Grolsch Veste. E que, acima de tudo, traz outras heroínas para um futebol que não tem tido motivo nenhum de alegria com os homens. Agora, a hora é de Vivianne Miedema, Lieke Martens (eleita a melhor da Euro com total justiça), Shanice van de Sanden, Jackie Groenen…