Ficar fora da Copa de 2018 ainda é um impacto duro demais para que a federação holandesa consiga pensar em qualquer forma de recomeçar os trabalhos para a seleção. Sendo assim, é possível dizer que a Laranja disputará os últimos amistosos de 2017, contra a Escócia (nesta quinta, no estádio Pittodrie de Aberdeen, às 17h45 de Brasília) e Romênia (na próxima terça, às 17h de Brasília, na Arena Nationala de Bucareste), apenas para cumprir tabela. Não é a intenção fazer deles marcos do começo de uma reação para os próximos anos.

Até porque o técnico que comandará a Oranje nas duas partidas já é um demissionário. A bem da verdade, já se suspeitava que Dick Advocaat só cumpriria sua obrigação contra Escócia e Romênia, para depois se despedir da equipe. Porém, já depois do jogo derradeiro das Eliminatórias da Copa, contra a Suécia, Advocaat colocou a possibilidade de seguir comandando a seleção em 2018. À revista “Voetbal International”, ele ponderou: “Depende da federação. Não quero forçar a diretoria a nada”.

Ainda à revista, o treinador também colocava dúvidas sobre as alternativas: “Por quê trazer um técnico estrangeiro? E quem está à disposição? Aliás, também vale para os técnicos holandeses. Os principais ou estão empregados, como Ronald Koeman ou Peter Bosz, ou não querem [treinar a seleção], como Louis van Gaal e Frank de Boer, ou estão no primeiro trabalho da carreira”. Neste último caso, o comandante da seleção não falou nada – nem precisava: são imediatas as lembranças de Phillip Cocu, Giovanni van Bronckhorst e Erik ten Hag.

Ainda assim, mesmo com tais dúvidas, a possibilidade de Advocaat seguir como técnico já era muito remota. E a movimentação desde o dia 10 de outubro, quando houve o jogo contra a Suécia, só tornou a saída do veterano mais provável. Primeiro, com a demissão de Ronald Koeman, no Everton, com o ex-zagueiro já deixando Goodison Park como candidato automático à sucessão na Laranja. Depois, com a antecipação do auxiliar Ruud Gullit: só continuaria na comissão técnica se Advocaat seguisse como técnico, sem cogitar eventual promoção a treinador (possibilidade até aventada pelo atual treinador).

Advocaat seguia enigmático com a imprensa holandesa. No anúncio da convocação definitiva, anunciou: “Já sei o que farei, após o jogo contra a Romênia. A decisão está só comigo, não falei nada à KNVB. Ainda me reunirei”. Só que todo o mistério foi por água abaixo na chegada a Aberdeen: abordado por jornalistas escoceses ainda no saguão do aeroporto, o técnico abriu o jogo. “Estes são meus dois últimos jogos, e depois deles deixarei a seleção”. No treino de reconhecimento do estádio Pittodrie, quando foi a vez de falar com os periodistas compatriotas, Advocaat ainda alegou que não queria dizer o que disse… mas a decisão já estava clara para todos.

Assim como também estava claro que não haveria grandes novidades na convocação, segundo Advocaat antecipara na citada entrevista à “Voetbal International”: “Por quê chamar um grupo totalmente diferente? Tem lógica substituir alguns por gente mais jovem, só porque uma nova seleção precisa ser formada?”. E não houve mudanças mesmo: entre os 25 convocados iniciais, estavam os nomes constantes nas chamadas mais recentes. Se havia alguma perspectiva de renovação, era no retorno do veterano Michel Vorm, como um dos três goleiros, e na possibilidade de Jürgen Locadia, um dos goleadores do Campeonato Holandês, enfim estrear como titular na Oranje.

Ambas as novidades caíram por terra ainda no final de semana passado. Com dores no joelho, Vorm foi cortado – Sergio Padt, do Groningen, foi prontamente chamado para acompanhar Jasper Cillessen e Jeroen Zoet. Mais impressionante foi o azar de Locadia, desligado por problema muscular: pela terceira vez, o atacante foi impedido de estrear pela seleção graças às circunstâncias. Em novembro de 2015, Locadia estava no grupo chamado por Danny Blind para o amistoso contra a Alemanha – cancelado por ameaça de atentado terrorista em Hannover. Em março de 2016, lembrado para os duelos amistosos contra França e Inglaterra, o atacante foi excluído da delegação por lesão no tornozelo. Segue sua espera pela oportunidade com a camisa laranja.

Não que a oportunidade fosse imperdível. Afinal, bastaram lesões leves para abaterem mais três dos convocados de princípio. Lesionados no joelho, Vincent Janssen e Wesley Hoedt foram cortados – no caso de Janssen, Luuk de Jong foi chamado para repor a lacuna. Bas Dost também foi dispensado, mesmo que a contusão sofrida por ele contra o Braga, na rodada passada do Campeonato Português, fosse leve. E por um triz não se decidiu desligar Wesley Sneijder, que chegou do Nice sentindo dores.

Chegando aos poucos na habitual concentração do hotel Huis ter Duin, na cidade de Noordwijk, o assunto era mais a troca de técnico do que a crise holandesa – a ponto de Georginio Wijnaldum ter até feito piada: “Eu até convidei Jürgen Klopp para a seleção, mas ele não quis…”. E aqui e ali, há ecos e perguntas lembrando a saudade de Arjen Robben que a Oranje já sente. Steven Berghuis reconheceu: “Ninguém substituirá Robben”. E Memphis Depay, sobre cujos ombros recairão mais responsabilidades, pede clemência: “Não se pode comparar a minha situação à de Robben. Eu só tenho 23 anos, as pessoas se esquecem disso. Robben já alcançou muito na carreira dele”.

Sem polêmicas, a Holanda apenas treina, para jogar dois amistosos que terão apenas a função de fechar a terceira passagem de Dick Advocaat pela seleção holandesa – quem sabe dando a ele o consolo de ser o técnico com o qual a seleção mais venceu, caso haja duas vitórias, que o fariam superar as 36 do inglês Bob Glendenning. Ainda convocado (e sem intenção de abandonar a seleção, pelo menos por enquanto), Sneijder confirmou que a fase é de fechar para balanço: “Não é um novo começo, apenas o fim de um período”. Fica para depois a resolução sobre qual será o comandante do novo começo da Laranja – mas por via das dúvidas, Ronald Koeman já aguarda um telefonema em seu pequeno período sabático.