Van der Vaart já havia sido cortado, o que limitava a diminuição dos jogadores a seis cortados para formar a lista de 23 convocados da seleção da Holanda para a Copa do Mundo. E a relação final, anunciada no sábado passado, teve poucas surpresas, a bem da verdade. Pode-se apontar apenas uma: a ausência de Promes e Boëtius, que haviam tido boas atuações nos amistosos de preparação – e o ponta do Twente, em especial, fizera três gols na partida contra a Escócia, pelas eliminatórias do Europeu sub-21.

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Mas fosse quem fosse o convocado, seria apenas um reserva para Lens. Ou seja, quando a principal discussão se foca apenas num suplente, é porque as opções disponíveis para a Oranje são as melhores que se encontram por aí. E isso foi mostrado nos últimos dois amistosos, contra Gana e País de Gales. A equipe não foi brilhante, mas conseguiu melhorar a defesa (o grande temor, e a grande razão da mudança de esquema tático, ora bolas).

E os três destaques conseguiram render razoavelmente: Sneijder mostrou um pouco mais de empolgação, Van Persie quase sempre traz perigo e Robben vive a fase mais confiável de sua carreira. O único problema entre os três intocáveis de Van Gaal está no atacante do Bayern Munique: precisa melhorar nas finalizações. Não foram raras as vezes em que Robben recebeu a bola sem conseguir mandá-la para as redes. Contra Gana, duas; contra Gales, uma.

E talvez a última dúvida de Van Gaal antes do dia 13 de junho seja mesmo o esquema tático, porque o 5-3-2 viu duas variáveis experimentadas darem bom resultado. No último sábado, contra Gana, a equipe jogou mais num 3-4-3, com De Guzman improvisado pelo lado esquerdo do ataque. E o técnico até gostou do resultado. Todavia, o próprio De Guzman sofreu lesão muscular (que pode até impedi-lo de ser relacionado contra a Espanha).

E a oportunidade se abriu para que a Holanda fosse escalada num 4-4-2 contra os galeses, com Blind e Fer pelos lados, enquanto Nigel de Jong segurava os ataques e Sneijder servia Robben e Van Persie. Só que aí o problema nem foi a Holanda, mas o esquema absolutamente defensivo, até retrancado, do País de Gales. Só que na hora da dura, mais precisamente contra a Espanha, Van Gaal já avisou que seguirá confiando no 5-3-2.

E até fez piada com isso, alfinetando um jornalista e lembrando que a Bolívia enfrentou a atual campeã mundial usando o mesmo esquema tático que a Holanda usará: “A Itália pode empatar com a Irlanda, a Alemanha pode empatar com Camarões, e estão perdoadas. Nós ganhamos, e o mundo cai sobre nós… A Espanha teve dificuldades para ganhar da Bolívia, a oitava colocada das eliminatórias sul-americanas. A Bolívia usou cinco zagueiros, e a Espanha só fez os gols no fim, teve dificuldades. E é exatamente por isso que acho que a Holanda tem de jogar do mesmo jeito”.

De todo modo, independente do esquema tático, a juventude da equipe e as atuações apenas razoáveis fazem crer que a Oranje terá vida curta na Copa do Mundo. É a opinião de Johan Cruyff, dada em entrevista à emissora de tevê NOS: “Para essa Copa, mais da metade da equipe é jovem demais. Não será fácil para a Holanda, nem para nenhuma outra equipe europeia. Nunca um europeu ganhou Copa na América do Sul”.

O que não significa que a equipe que viajou ao Brasil nesta quinta esteja sendo apedrejada. Ao contrário: sabe-se que esta seleção tem um nível técnico razoável. E sabe-se que ela talvez atinja seu ápice só em 2018, opinião também partilhada por Cruyff: “Acho que temos grandes chances daqui a quatro anos, já que os jovens de agora terão uma idade boa na época”. E talvez seja por esta falta de obrigação que tudo pode acontecer com a Holanda. Seja um vexame monumental, lembrando a Euro 2012, uma eliminação honrosa ou até uma classificação para as oitavas de final. Ou algo além.

O que importa, agora, é avaliar o grupo final de Van Gaal.

Goleiros: Cillessen (Ajax), Vorm (Swansea-GAL) e Krul (Newcastle-ING) – Zoet (PSV) foi cortado

Pode parecer injusto que Cillessen seja o titular escolhido por Van Gaal para a Copa. E até é injusto. Afinal de contas, Krul tem porte físico mais respeitável e terminou a temporada em ascensão no Newcastle. E Vorm já tem a experiência da Copa de 2010, além de mostrar agilidade e espírito de liderança no Swansea.

Só que Cillessen aproveitou bem a oportunidade recebida quando ambos estavam machucados. E viveu a melhor temporada da carreira, mostrando cada vez mais segurança no Ajax. Independentemente das desconfianças, ele está pronto para a Copa. Se bem que qualquer um dos goleiros também está. Eis aí uma posição que não dá dor de cabeça.

Zagueiros: De Vrij (Feyenoord), Martins Indi (Feyenoord), Vlaar (Aston Villa-ING) e Veltman (Ajax) – Rekik (PSV) foi cortado

É preciso reconhecer: a parte mais controversa da seleção holandesa melhorou seu nível técnico em relação à Copa de 2010. Não muito, é evidente: nenhum dos zagueiros impõe respeito absoluto. Mas é inegável que zagueiros como De Vrij, Martins Indi ou Veltman têm mais habilidade com a bola nos pés do que Heitinga ou Mathijsen tinham em 2010. Além do mais, Vlaar tem a firmeza e a experiência necessária para acalmar os jovens.

O problema, numa palavra, é a ingenuidade. Até pelo pouco tempo de carreira, De Vrij, Veltman e Martins Indi ainda não têm certa malícia em algumas jogadas. Isso pode ser perigoso contra atacantes reconhecidamente perigosos, como são David Villa e Alexis Sánchez. Exatamente por isso é que o meio-campo terá de trabalhar para aumentar a proteção a eles. Até deu certo contra Gana e País de Gales, quando os defensores também tiveram atuação séria. Mas a Copa será um grande desafio para os zagueiros titulares. Boas atuações podem impulsionar a carreira deles.

Laterais: Janmaat (Feyenoord), Verhaegh (Augsburg-ALE), Blind (Ajax) e Kongolo (Feyenoord) – Van Aanholt (Vitesse) foi cortado

            Eis aí um lugar onde os jogadores são mais esforçados do que propriamente habilidosos. E ganharam a posição até por isso. Na direita, Janmaat superou Van Rhijn para se tornar titular absoluto exatamente por sua capacidade de marcar, avançando só em último caso. E Verhaegh consegue ser ainda mais esforçado do que o titular – até por isso, conseguiu superar concorrentes até melhores, como Van der Wiel, para ir à Copa. Na esquerda, Blind oferece mais qualidades técnicas. Até por isso, deve ser presença mais frequente no meio-campo. Vaga aberta para Kongolo, zagueiro improvisado. Ou seja: na prática, só a lateral direita ataca. E pouco. É prudente.

            Meio-campistas: De Guzman (Swansea-GAL), De Jong (Milan-ITA), Clasie (Feyenoord), Wijnaldum (PSV), Fer (Norwich City-ING) e Sneijder (Galatasaray-TUR) – Vilhena (Feyenoord)

            O destaque do meio-campo holandês é a quantidade de jogadores que têm na marcação sua função principal, mas também podem sair jogando com qualidade. O melhor deles, Strootman, está fora. Mas De Guzman e Fer fazem bem essa função em seus clubes, e até podem chegar ao ataque como elementos-surpresa. Porém, como já dito, a defesa precisa de cuidados. Aí é que entra Nigel de Jong, que aprendeu a marcar sem os exageros cometidos em 2010, e deverá estar entre os titulares. Na armação, não há mistérios: Sneijder é titular. Clasie tem estilo parecido demais com o dele para sonhar com titularidade, mas é o reserva imediato, com Wijnaldum depois.

Atacantes: Van Persie (Manchester United-ING), Robben (Bayern Munique-ALE), Lens (Dynamo Kiev-UCR), Kuyt (Fenerbahçe-TUR), Depay (PSV) e Huntelaar (Schalke 04-ALE) – Promes (Twente) e Boëtius (Feyenoord) foram cortados

            Sem rodeios: Van Persie e Robben são titulares absolutos. Os únicos dois intocáveis desde o início do trabalho de Van Gaal vivem ótimas fases na carreira, e são as grandes esperanças de que a Holanda evite uma surpresa chilena que a tire da Copa na primeira fase. Van Persie, então, impressiona: além da calma nas finalizações, demonstra um espírito de liderança impensável para quem já foi problemático na carreira.

Com o time escalado provavelmente no 5-3-2 (variando para o 5-4-1), há menos espaço para mudanças. Caso sejam necessárias, Huntelaar é finalizador que mantém um bom nível (não tão bom quanto Van Persie, mas razoável), e Lens oferece a velocidade que Dirk Kuyt já não consegue dar, mesmo que sua capacidade de esforço lhe tenha valido a convocação. E Depay pode ser a grande surpresa, com a rapidez aliada à capacidade de chutar bem a gol.

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