Acusações de assédio sexual contra o poderoso produtor Harvey Weinstein, feitas por mais de 50 mulheres, tiveram um efeito cascata em Hollywood, com uma série de histórias de comportamentos inadequados de outros personagens importantes da indústria cinematográfica chegando ao público. A onda alcançou outros âmbitos e, agora, também o futebol. Em entrevista ao jornal Tribuna Expresso, a goleira da seleção americana Hope Solo acusou Joseph Blatter de ter “agarrado a sua bunda” durante uma cerimônia da Bola de Ouro. Em contato com a publicação portuguesa e com o Guardian, a assessoria de imprensa do ex-presidente da Fifa negou a acusação.

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Em 7 de janeiro de 2013, Hope Solo subiu ao palco da cerimônia de gala da Fifa para entregar à companheira de seleção Abby Wambach o prêmio de melhor jogadora do mundo do ano anterior. Anunciados por Ruud Gullit, a goleira e Blatter entraram juntos no palco – a partir de 1h19min35s deste vídeo. De acordo com Solo, o assédio sexual ocorreu atrás das cortinas, segundos antes de os dois aparecerem diante das câmeras.

“Ok, Sepp Blatter agarrou a minha bunda”, afirmou. “Posso falar sobre isso? Eu estava na Bola de Ouro um ano, (e foi) logo antes de eu entrar no palco. É um comportamento que foi normalizado”. Ao Guardian, Solo falou mais sobre aquele momento: “Eu fiquei em choque e fui completamente desestabilizada. Eu tive que me recompor rapidamente para entregar à minha companheira o maior prêmio da sua carreira e comemorar aquele momento com ela, então eu mudei o meu foco para Abby”.

Na época das primeiras alegações contra Weinstein, Solo publicou em seu Instagram um texto em que afirmou o quanto o assédio sexual é normal no mundo dos esportes. “De comentários inapropriados, avanços inadequados e agarrões na bunda de técnicos e diretores, e mesmo pessoas da imprensa falando sobre os seios das jogadores e aparência física. O assédio sexual é desenfreado no mundo dos esportes. Eu sempre achei que eu lidava com isso e me posicionava nessas situações, mas nunca houve nenhuma consequência para os assediadores”, escreveu.

Ao Expresso, Solo afirmou que assistiu a esse tipo de comportamento durante toda a sua carreira e gostaria que mais jogadores viessem a público com suas histórias. “É algo descontrolado, e não apenas em Hollywood. Em todo lugar. Durante anos, vi jogadoras que namoravam e acabaram casando com seus treinadores da universidade, o que, obviamente, um treinador não deveria fazer, sobretudo com jogadoras jovens. Vi situações com médicos, com assessores de imprensa, entre jogadoras no vestiário…”, disse.

Ela afirma estar decepcionada com colegas de profissão que não denunciam os assédios sexuais que sofrem, embora reconheça que essa é uma decisão pessoal. “E, sim, é desconfortável, mas gostaria que mais mulheres, sobretudo no futebol, falassem das suas experiências, porque algumas dessas pessoas ainda trabalham no futebol e algumas das jogadoras ainda têm esses comportamentos. É importante que percebamos que isso não acontece apenas com os poderosos homens brancos. Pode acontecer com qualquer pessoa, pode acontecer entre mulheres. Estamos concentrados nos poderosos homens brancos porque é provavelmente mais normal com eles, mas pode acontecer em qualquer lugar”, afirmou.

Questionada sobre por que demorou tanto para denunciar Blatter, disse que geralmente trata esse tipo de assunto diretamente com o agressor ou agressora. O que não foi possível com o ex-presidente da Fifa. “Em outros casos, por exemplo, eu disse a companheiras de time: ‘Nunca me toque novamente. Não faça isso’. Foi nos chuveiros ou nos vestiários. Geralmente, eu falo diretamente com a pessoa. No caso de Blatter, eu subi ao palco, estava nervosa por causa da apresentação. Eu estava apresentando a Bola de Ouro. Depois, eu não o vi e isso foi meio ruim. Eu não consegui dizer diretamente para ele: ‘Não me toque novamente’. É assim que eu lido com essas coisas. Diretamente”, explicou.

Em 2004, Blatter sugeriu que as mulheres deveriam jogar com calções mais curtos ou, em suas palavras, “roupas mais femininas como no vôlei”, para aumentar a popularidade do esporte: “As jogadoras femininas são bonitas, se vocês me permitem dizer, e elas já têm regras diferentes dos homens – jogam com bolas mais leves. Essa decisão foi criada para criar uma estética mais feminina, então por que não fazer isso também na moda?”.

Anos depois, discursando para a Confederação Asiática de Futebol, Blatter disse que Moya Dodd, então vice-presidente da AFC e candidata a uma cadeira no comitê executivo da Fifa, não era apenas boa no seu trabalho, mas também “bonita”. Blatter, via assessoria de imprensa, afirmou que as acusações de Hope Solo são “ridículas”.