Se Paris Saint-Germain e Monaco dominam as ações na Ligue 1, as duas equipes também roubaram a cena na janela de transferências de janeiro. Muito embora tenham gastado fortunas nas montagens de seus elencos para a disputa desta temporada, os dois clubes ainda encontraram recursos para completar seus já seletos grupos. No caso do PSG, a chegada de Yohan Cabaye foi uma daquelas oportunidades que surgem uma vez na vida. Já para o ASM, a vinda de Dimitar Berbatov foi uma necessidade das mais urgentes.

Em sua sanha gastadora, o PSG desembolsou a bagatela de € 25 milhões para repatriar Cabaye, que está de olho em uma vaga na seleção francesa para a disputa da Copa do Mundo-2014. A primeira impressão deixada pelo meio-campista foi a melhor possível. Ele entrou em campo a 20 minutos do fim da partida contra o Bordeaux, mas teve tempo suficiente para apresentar seu cartão de visitas e mostrar que tem totais condições de assumir o posto de titular.

A lesão de Adrien Rabiot e a suspensão de Marco Verratti levaram Laurent Blanc a escalar o meio campo do PSG com o trio Blaise Matuidi, Thiago Motta e Javier Pastore. Os parisienses venciam por 1 a 0 quando Cabaye pisou no gramado do Parc des Princes para substituir Pastore. O argentino, como bem se sabe, tem variado muito suas exibições entre a completa mediocridade e lampejos de sabedoria. Se ainda havia alguma dúvida de que ele tem seu lugar ameaçado na equipe, ela se dissipou.

Cabaye nem parecia um novato no time. O meio-campista se adaptou ao ritmo de jogo do PSG em poucos minutos e logo tratou de imprimir seu estilo. Ele multiplicou os passes curtos, principalmente com Thiago Motta, e teve 80% de acerto neste fundamento. Claro que Cabaye falhou algumas vezes e errou algumas tentativas, mas sua presença em campo foi mais marcante do que a de Pastore.

O novo reforço do PSG foi mais decisivo do que o argentino e quase marcou o segundo gol da equipe, após boa jogada de Lavezzi. Após a vitória por 2 a 0, Blanc fez questão de elogiar Cabaye, um jogador “inteligente, que sabe como jogamos e compreende nossa filosofia”. Se mantiver o nível em suas próximas aparições, o meio-campista pode ficar tranquilo: a titularidade no time da capital (e também na seleção francesa, por que não?) é uma questão de tempo.

No Monaco, o clima de velório após a grave lesão sofrida por Radamel Falcao Garcia se instalou de forma quase indelével. A ausência do atacante colombiano, artilheiro da equipe na Ligue 1 com nove gols, tinha a simbologia do arremesso de toalha quanto às chances de o time brigar pelo título da competição. A necessidade de encontrar um goleador nato obrigou o clube do principado a buscar alguém de impacto. Achou Dimitar Berbatov.

Trata-se de uma aposta arriscada, muito embora bastante válida. Aos 33 anos, o búlgaro não tem a mesma explosão física de outrora, mas ainda rende um caldo devido ao seu bom posicionamento na área. Seu faro de matador não desapareceu de uma hora para outra, mas sua pontaria já não é a mesma dos tempos do Manchester United. Emprestado até o fim desta temporada, Berbatov tem a chance de provar que ainda pode ser uma solução bastante viável para um time de ponta com problemas ofensivos.

Coringa ou mico?

Lucas divide opiniões no Paris Saint-Germain. Uma das contratações mais caras feitas pelo clube nos últimos tempos, o brasileiro ainda luta para se firmar na equipe e merecer mais chances de jogo. A se julgar pela sua exibição diante do Bordeaux, não dá para o ex-são-paulino cobrar muito mais do que figurar no banco de reservas de um time que funciona muito bem.

Vamos analisar a metade cheia do copo de Lucas. O brasileiro aparece como o terceiro melhor “garçom” da Ligue 1 com sete assistências, duas a menos do que os líderes Zlatan Ibrahimovic e James Rodríguez. Na vitória por 2 a 0 sobre o Bordeaux, o meia-atacante foi o autor dos dois passes decisivos para os gols marcados por Ibrahimovic e Alex. No entanto, não foi o suficiente para que Lucas saísse de campo como herói.

Um lance durante esta mesma partida resume como o brasileiro carrega um defeito que o acompanha desde os tempos do São Paulo. Em uma jogada no primeiro tempo, Lucas domina a bola no seu campo de defesa e arranca para o ataque. Ele dribla seus marcadores com facilidade e inflama o Parc des Princes. A opção natural para dar continuidade à jogada era o passe para Edinson Cavani, livre na esquerda e se esgoelando para pedir a bola. Em vez de tocar a bola para o companheiro em plenas condições de marcar, Lucas preferiu tentar mais um drible, mesmo marcado por três adversários. Perdeu a bola e fez aquela cara de quem sabe o tamanho da bobagem que acabara de fazer.

Uma jogada parecida ocorreu na segunda etapa, com uma arrancada do brasileiro, dribles em sequência, a tendência em trazer o jogo para o meio e a perda da posse de bola ao encontrar o paredão rival. Uma repetição ad nauseum dos velhos problemas que impedem uma evolução maior de Lucas com a camisa do PSG, e que explicam muito bem porque ele não é sequer cogitado para defender a seleção brasileira hoje.

Lucas parece agir com uma velocidade muito maior do que a de pensar primeiro na melhor jogada. E essa mesma capacidade de levar o torcedor à loucura com seus dribles sem sentido quando deveria tomar qualquer outra atitude contrastam com seu lado “garçom”, que o transforma de vilão a herói em questão de segundos. Sua inegável habilidade o faz acreditar que seu drible sempre vai dar certo. Nem sempre. Na hora de tirar dez, ele falha miseravelmente por seu instante de irresponsabilidade.

Por enquanto, o Lucas do PSG ainda se parece muito com aquele Lucas do São Paulo: um jogador veloz, com facilidade para o drible, mas com forte tendência a prender demais a bola, centralizar muito as jogadas e ser fominha. A correção destes defeitos parece longe de se tornar algo real, mas o brasileiro consegue se virar com uma assistência aqui e ali. E assim vai empurrando a situação, como se varrer a sujeira para baixo do tapete realmente limparia sua barra – e, mais importante, justificaria tanto dinheiro gasto assim para sua contratação.