O Brasil batizou alguns dos seus infortúnios em Copas do Mundo. Temos o Maracanazo, o Sarriá e o 7 x 1. Grandes tragédias que assolaram o futebol pentacampeão, mas, olhando com perspectiva, entre 16 eliminações, essas são as exceções. Nem toda derrota merece documentário, música, vilões e heróis, extensas reportagens especiais, discussões profundas sobre organização, planejamento, estilo de jogo e mística. Algumas são simplesmente derrotas, frequentes em um esporte difícil e mais complexo do que muitos pensam. Às vezes, o Brasil simplesmente perde, como perdeu para a Bélgica, por 2 a 1, nesta sexta-feira, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2018.

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Não foi um jogo desastroso como o de 1982, trágico como o de 1950 ou humilhante como o de 2014. Foi apenas um jogo entre duas grandes equipes, decidido em alguns detalhes, em alguns acertos de um lado e erros do outro que pesaram mais no decorrer dos 90 minutos. O Brasil teve problemas táticos. Teve figuras individuais em uma noite ruim. Tite cometeu erros e demorou para conseguir dar uma resposta a Roberto Martínez. Mas, mesmo assim, criou chances o bastante para tornar Courtois um dos melhores em campo – o goleiro do Chelsea fez nove (!) defesas.

No outro lado do gramado sempre tem outro time. E, de vez em quando, é um time muito bom. A Bélgica foi tantas vezes criticada, com razão, por não conseguir canalizar os seus talentos para formar um grande coletivo e conseguir resultados acima da sua média histórica. Nesta sexta-feira, o roteiro foi diferente. Os belgas cresceram à altura da ocasião e conseguiram encarar o Brasil de frente.

A Bélgica foi melhor no balanço final dos elementos que influenciam uma partida. Tecnicamente, esteve quase perfeita. Courtois foi excepcional. Hazard, gigantesco. Até Fellaini, sempre tão ironizado, jogou muito. De Bruyne acertou um chutaço de fora da área. Ao mesmo tempo, jogadores brasileiros tiveram dias ruins: Neymar, Coutinho, Gabriel Jesus, Paulinho e, principalmente, Fernandinho não foram nada bem.

O plano de jogo de Roberto Martínez foi preciso e bem executado no primeiro tempo. A defesa que sofreu contra o Japão estava organizada, junta, com uma linha de quatro muito próxima de três meias (Fellaini, Witsel e Chadli). O deslocamento de Lukaku nas costas dos laterais funcionou. Adiantar De Bruyne, também. Enquanto isso, o Brasil sofria com um meio-campo lento na recomposição. Coutinho não tem essa característica. Paulinho e Fernandinho estiveram mal.

E os detalhes. Como em todo jogo, a sorte. Thiago Silva teve a chance de abrir o placar ainda nos primeiros minutos, mas acertou a trave. No outro lado, o escanteio foi levemente desviado por Kompany e pegou nas costas de Fernandinho antes de entrar; no segundo gol, uma falta tática em Lukaku resolveria o problema. Um pouco para cá, um pouco para lá, e a partida poderia ter tido outra dinâmica.

Tite tateou um pouco no escuro para corrigir os problemas. Entrou com Firmino no lugar de Jesus, deslocado à direita. Pouco depois, colocou Douglas Costa pela ponta. Melhorou de vez com Renato Augusto no lugar de Paulinho porque o substituto conseguiu fazer o que o titular não estava conseguindo: aparecer nos espaços e finalizar, a especialidade do jogador do Barcelona. Renato recebeu o cruzamento de Coutinho e cabeceou às redes para descontar. Pouco depois, teve outra chance clara da entrada da área e errou por pouco.

O Brasil ainda reclama um pênalti marcado em Gabriel Jesus e teve a bola do jogo nos pés do seu melhor jogador, nos minutos finais. Um duelo direto entre Neymar e Courtois. O chute da entrada da área foi bem executado. Pegou a curva certa. Entraria. Empataria. Levaria a partida à prorrogação. Mas Courtois venceu este mano a mano. E a Bélgica, o jogo.

Nada disso isenta a comissão técnica dos seus erros. Tite precisa responder pelas insistências com Paulinho e Jesus, mesmo com Firmino em melhor fase no banco de reservas. Pelas convocações de Taison e Fred, que nem entrou em campo, apesar de muitas vezes ter sido latente a necessidade de uma mudança no setor. Não tinha condições físicas? Por que não foi cortado? Mas a compreensão de que o Brasil simplesmente perdeu um jogo de futebol contra a Bélgica é importante porque, apesar desses problemas, esta ainda foi a melhor preparação de uma seleção brasileira para a Copa do Mundo em muito tempo. As falhas precisam ser cobradas, corrigidas, ajustadas. Mas, como nos vexames e nos desastres, nada drástico é necessário.