Este diálogo foi inspirado no encontro entre Cruyff e Telê Santana, antes do Mundial de Clubes de 1992, relatado pelo árbitro Juan Carlos Loustau, ao jornal Marca. Trata-se de um trabalho de ficção, uma vez que não temos poderes paranormais para saber o que realmente foi dito naquela conversa.

Já era o quinto cigarro devorado por Johan Cruyff em meia hora.

Telê: Achei que tivesse parado de fumar.

Cruyff: Não conta para ninguém.

T: Você devia parar.

C: De novo isso, Telê?

T: Na primeira vez, você não me ouviu e o que aconteceu?

C: Eu tive um infarto. Não é tão fácil assim parar de fumar, sabe.

T: Eu consegui.

C: Bom, parabéns, imagino.

T: Essas merdas ainda vão te matar.

C: E outras merdas vão matar você.

T: Sem fumar, você vai viver mais.

C: Vou viver mais ou só vai parecer que eu vivi mais?

T: Não sei o que você quer dizer com isso. Mas você devia parar de fumar.

C: Eu sei, eu sei, eu vou parar o mais breve possível.

T: Pena que você não veio para o Fluminense. É um grande clube. Você se daria bem nele.

C: Não deu certo. Minha mulher não gostou muito do Rio de Janeiro.

T: Eu lembro que você chegou a dizer que adoraria jogar no Brasil.

C: Bom, os caras pagaram minha viagem, minha hospedagem, limusines, shows, comida, bebida. O mínimo que eu podia fazer era fingir um pouquinho.

T: Faz sentido.

C: Aliás, desculpa pelas entrevistas que demos. Não foi nossa intenção desmerecer o São Paulo. Nós sabemos que vocês não são o Zaragoza.

T: Não tem problema. Eu também sentiria impulsos vingativos se tivesse sofrido aquela lavada que demos em vocês no Tereza Herrera.

C: Aquilo foi um amistoso.

T: Claro, claro, o que fizer você se sentir melhor.

C: O jogo que importa é amanhã. Aliás, vamos fazer uma aposta?

T: Qual aposta?

C: Se nós vencermos, vocês vendem o Cafu para nós.

T: Isso, porque o que eu vou querer fazer logo depois de perder uma final é vender um dos meus melhores jogadores.

C: Vamos lá, Telê, a gente paga bem.

T: Eu troco pelo Stoichkov, que tal?

C: Esquece.

T: Não fui eu que puxei o assunto.

C: Tá bom, tá bom, esquece.

T: Acho que nós devemos um jogo inesquecível a todos os fãs de futebol, um jogo perfeito, ou o mais próximo possível disso.

C: Quer fazer um pacto? Nada de cera, nada de botinadas, subterfúgios, malandragens, simulações. Vamos jogar bola e que vença o melhor.

T: Ótima ideia. Sabe, carregar durante tantos anos o fardo das minhas derrotas, o rótulo de perdedor, de pé frio, me fez perceber que há coisas mais importantes do que vencer ou perder.

C: Você foi tão criticado assim? Mas é um técnico tão bom. Montou o segundo melhor time da história das Copas do Mundo que não foi campeão.

T: O primeiro.

C: O segundo.

T: O primeiro.

C: O segundo.

T: Você é bastante competitivo.

C: Impossível chegar aonde chegamos sem sermos. Mas isso não significa vencer a qualquer custo.

T: Não. Mas, no Brasil, é a única coisa que importa para a maioria das pessoas. Não é que nem na Holanda.

C: Você acha que a torcida holandesa é composta de hippies e franciscanos? Nós queremos vencer também.

T: Mas os parâmetros são bem menores. Claro que o grande mérito foi a revolução que vocês começaram, mas o vice-campeonato de 1974 foi um feito gigantesco, sem precedentes, colocou a Holanda no mapa do futebol. No Brasil, minha competição foi Pelé, Garrincha e o time tricampeão mundial. Nada abaixo disso é aceitável.

C: Falta inteligência.

T: Falta, em todos os setores, mas falta também a cultura de gostar do esporte pelo esporte, da beleza pela beleza, da arte pela arte. Às vezes parece que o único apreço que meus conterrâneos têm pelo futebol é poder tirar sarro do colega da repartição pública.

C: Isso acontece na Europa também, em menor medida talvez, mas acontece. É um câncer para o futebol. Para qualquer arte, na verdade. Imagina se músicos só compusessem canções com potencial de virar hit? Se pintores só fizessem quadros que pudessem ser vendidos por muito dinheiro? Se escritores só tentassem produzir best-sellers?

T: Perderíamos grande obras-primas, e o mesmo se aplica ao futebol. E se eu cedesse às pressões e colocasse meu time para defender contra a Itália? Eu poderia perder do mesmo jeito. Poderia perder no jogo seguinte. Poderia perder a final.

C: Não há fórmula mágica, não há garantia de vitória. O que existe são maneiras mais ou menos eficientes de ganhar um jogo de futebol, e eu acredito que jogar para frente, sempre buscando ter a bola, sempre buscando agredir o adversário, é a mais eficiente de todas.

T: Eu poderia ter mudado minha maneira de jogar e o resultado final poderia ter sido o mesmo, mas, nesse caso, aquele time não entraria para a história como a mais pura representação do que é jogar bem o futebol…

C: … a segunda mais pura representação do que é jogar bem o futebol…

T: …e no final das contas, qual perda seria maior? O significado que aquela seleção teve ou a Copa do Mundo de 1982?

C: Eventualmente, todos perdem.

T: Todos.

C: Sem exceção.

T: Mas é melhor perder com as suas ideias do que com as ideias de outra pessoa.

C: Ei, essa frase é minha.

T: Aqueles que têm convicções, que têm ideias, que não pensam no código binário, derrota ou vitória, podem escolher como perdem.

C: E a maneira como perdemos importa.

T: Quando a derrota é tudo que resta, o que mais pode importar?

C: Tanto eu quanto você temos muitas vitórias na nossa carreira. Mas nossas obras primas são a maneira como conseguimos entrar para a história pelas nossas derrotas. Isso é para poucos.

T: Caímos atirando.

C: Orgulhosos de não termos aberto mão do que acreditamos.

T: Perdemos tentando fazer algo grandioso.

C: E fomos reconhecidos por isso.

T: No final das contas, somos artistas, e nossa função é tentar cativar a audiência, emocioná-la, durante o tempo que ela reserva para nós.

C: E se conseguirmos fazer isso, nunca ficaremos de mãos abanando, mesmo após derrotas.

T: Na verdade, se conseguirmos fazer isso, nunca seremos derrotados.