A Inglaterra não teve uma derrota humilhante durante a Copa do Mundo como aconteceu com o Brasil, mas a eliminação logo na segunda rodada também fez torcedores e imprensa se decepcionarem bastante, mesmo com as expectativas antes do torneio já sendo muito pequenas. Mantido no comando da seleção, Roy Hodgson rumina algumas soluções para melhorar o nível da sua equipe, e a última delas é bem ilusória e imediatista. O treinador afirmou que gostaria de ver os jovens ingleses se arriscando em países estrangeiros.

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Hodgson pareceu bastante otimista em relação ao nível dos jogadores ingleses que ainda estão no início de sua carreira. Afirmou que muitos deles podem ser decisivos e lamentou o fato de não terem tanto espaço nas principais equipes do futebol inglês. Sugeriu então que buscassem esse espaço em outras ligas, como se nesses outros lugares a titularidade fosse vir naturalmente.

“Com a Inglaterra, tivemos um time bem jovem na Copa do Mundo, que poderia ser ainda mais jovem. Temos que aceitar que alguns jogadores jovens, que considero bons o bastante para vencer partidas para a Inglaterra, não serão sempre titulares por seus times no futebol inglês. Não lhes machucaria ir jogar no exterior. Maioria de nossos atletas, embora nem todos joguem regularmente, atuam em times muito bons, em um nível muito alto”, opinou o técnico.

Hodgson argumentou que o dinheiro de que dispõem os clubes ingleses lhes proporciona grandes contratações de estrangeiros e deixa os salários dos atletas locais em um alto patamar e que isso acaba tornando pouco atraente para os ingleses deixarem o país. O treinador foi bastante preciso nessa análise, mas sua sugestão de que os jovens vão jogar em outras ligas não só não resolve esse problema como também o potencializa.

Normalmente, jogadores entre 20 e 22 anos que se tornam titulares regulares em grandes equipes o conseguem por ter um grande talento. O fato de que grande parte dos ingleses nessas circunstâncias ainda não conquistaram seu espaço não está completamente ligado apenas a uma preferência dos times por estrangeiros. Eles também seriam provavelmente preteridos em outros países.

Espaço foi o que não faltou a Sterling na temporada passada (AP Photo/Frank Franklin II)

Espaço foi o que não faltou a Sterling na temporada passada (AP Photo/Frank Franklin II)

Roy Hodgson usou o caso de Josh McEachran como exemplo do que gostaria de ver os outros ingleses fazendo. Aos 21 anos, o jogador que pertence ao Chelsea defenderá o Vitesse, da Holanda, nesta temporada. Mas sua situação é bem peculiar: o time de Arnhem se tornou uma espécie de “time B” para atletas jovens dos Blues que não têm espaço no clube londrino e precisam de tempo de jogo: foram sete apenas na última temporada, entre eles Lucas Piazon, Christian Atsu e Patrick van Aanholt.

McEachran não esteve no elenco dos Three Lions da Copa como outros jovens, como Barkley, Shaw e Sterling. Ainda não mostrou o suficiente para tanto, e um período de “intercâmbio” na Holanda parece uma boa ideia. O mesmo não valeria para os três selecionáveis citados acima. Precisariam de um nível maior que esse, e a verdade é que já tiveram espaço o bastante na temporada passada e por clubes relevantes.

É possível apontar também como argumentação contra a ideia de Hodgson o fato de grande parte dos elencos dos últimos campeões mundiais ser composta por atletas que jogavam nas respectivas ligas nacionais, como Itália em 2006, Espanha em 2010 e Alemanha neste ano. Até o Brasil de 2002 contava com mais jogadores do Brasileirão no elenco do que com atletas do exterior. A França de 1998, inclusive, foi a única campeã mundial com mais atletas que disputavam campeonatos fora do próprio país.

Há, no entanto, um lado positivo na sugestão de Hodgson. Mesmo que talvez tenha proposto essas novas experiências apenas por causa da questão de tempo de jogo, existe algo a se destacar nessa ideia. Deixar a Inglaterra raramente passa pela cabeça de um jogador profissional que atue no primeiro escalão do país. Essa possibilidade deveria ser mais aceita entre os atletas, afinal poderia representar também uma oportunidade de aprendizado maior que aquela pela qual passaram os jogadores locais com a chegada dos estrangeiros na última década. Mas não é necessariamente isso que tornará novamente a seleção inglesa competitiva. Há vários fatores a serem discutidos, assunto para outro texto, e o imediatismo dessa “medida” parece trazer até mesmo mais prejuízos que benefícios a curto e médio prazo.