No começo de 2017, era muito difícil imaginar torcedores são-paulinos desejando que Rogério Ceni deixasse o cargo de técnico. Anunciado em 23 de novembro de 2016, ainda antes do final do Campeonato Brasileiro, Ceni foi levado ao cargo de técnico pela sua imensa história como jogador e um dos maiores ídolos da história do São Paulo, se não o maior. Provavelmente nem ele e nem a diretoria esperavam um 2017 tão difícil. A receita foi terrível: uma diretoria incompetente, que desmanchou o elenco; um técnico arrogante, que pareceu nunca ver os próprios erros e os do time; e um elenco que não rendia em campo, com muitos jogadores abaixo da média. Até são-paulinos passaram a admitir que a saída do ídolo talvez fosse melhor. No fim, é difícil defender seu trabalho.

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A escolha de Ceni tinha um caráter muito político. Ele acabou sendo, ainda que indiretamente, cabo eleitoral de Leco, que de presidente interino ganhou mandato oficial em abril. Ceni fez um curso da Football Association (FA), a federação inglesa, mas certamente não foi um curso de formação como o Uefa Pro License, que leva 18 meses para ser concluído. Isso importaria menos se a diretoria do São Paulo soubesse o que estava fazendo: ao contratar Ceni, deveria dar todas as condições para que ele, mesmo novato, pudesse trabalhar. Deveria ser uma escolha consciente por um técnico sem nenhuma experiência no cargo.

Ceni também tinha que estar preparado, como novato, a aprender. Não seria nenhum demérito. Ser jogador e treinador são funções completamente diferentes. Nem todos os bem sucedidos em uma conseguem o mesmo sucesso na outra. Há craques que foram técnicos medíocres, assim como há jogadores medíocres que se tornaram grandes técnicos. Precisaria de suporte de gente com conhecimento ao seu redor e disposição a ouvir.

Nem a diretoria parecia estar preparada para um técnico novato, nem Ceni pareceu disposto a ter a humildade de um. E olha que não faltou boa vontade. No dia 19 de janeiro, Mauricio Barros, da ESPN, disse que a estreia de Rogério Ceni era “a mais aguardada da história do futebol”. Pouco depois, ainda em 22 de fevereiro, quando pouco tinha sido visto do trabalho do técnico, o mesmo Mauricio Barros escreveu “Por que o sucesso de Rogério Ceni te incomoda tanto?”. Vitor Birner escreveu sobre o Rogério ‘Osório Sampaoli’ Ceni em fevereiro, fazendo referência às inspirações do novo treinador. Em março, Menon afirmou em seu blog que, naquele momento, Rogério Ceni era o melhor técnico do Brasil.

Só que a boa vontade foi ficando incompatível com o que se via em campo. Em maio, afirmou que Rogério Ceni precisava sair da bolha que criou, criticando justamente a falta de autocrítica do comandante são-paulino. Quando os jogos foram passando e o trabalho foi mostrando suas falhas, Birner também não poupou o ídolo são-paulino. No dia 22 de junho, escreveu que o “São Paulo tem que exigir mais de R. Ceni; o ídolo é menor que a agremiação”. Falando no SporTV, Birner foi ainda mais crítica no dia 27 de junho: disse que o São Paulo era um time mal treinado por Ceni.

Havia uma enorme boa vontade com Ceni. Até certo ponto, compreensível: ele tentou trazer conceitos interessantes de futebol, levar ao São Paulo coisas que viu em outros times, em outros países, em diferentes técnicos. Na teoria, era realmente um alento a um futebol que sofre por qualidade muitas vezes questionável. Mas as atuações ruins a cada jogo mostraram que ter boas ideias e executá-las bem são coisas bem diferentes. E a defesa de Rogério Ceni por ser quem ele é foi ficando cada vez mais difícil. O ídolo indiscutivelmente tinha muito crédito com torcida, diretoria e até com analistas de futebol. Mas mesmo esse crédito vai sendo minado.

A boa vontade com o ídolo tricolor foi ficando mais rara. Ficou claro que Rogério errava, o que seria normal, mas faltava a ele humildade para admitir os próprios erros e, principalmente, corrigi-los. Ou Ceni não admitia os próprios erros ou, pior, não os enxergava. A segunda hipótese é a pior, porque mostraria a incapacidade do técnico em analisar o próprio trabalho. A boa vontade com o treinador foi se esvaindo, assim como o apoio antes incondicional das arquibancadas.

As poucas vozes de desconfiança quando ele foi anunciado foram ganhando força. A ideia de jogo pareceu mudar a sabor do vento. O time atacava como louco no começo, tomando gols de uma maneira inconsequente. Contra adversários mais fracos, funcionou. Com o passar do tempo e os problemas que vieram, além dos adversários mais fortes, tudo ficou mais difícil. E isso passou também pela escolha errática de jogadores.

Lucão ficou sem jogar nos primeiros meses do ano para ressurgir como titular absoluto, antes de ser rifado após falhar e declarar que deixaria o clube, “para alegria de alguns”. Ceni não o protegeu, ao contrário, ressaltou o discurso de ter orgulho de jogar no São Paulo. Só que quem escalou o zagueiro foi ele, mesmo com as enormes desconfianças e as falhas constantes.

Antes, optou por Douglas, outro zagueiro de baixa qualidade técnica, deixando de lado Lugano, que ele garantia que só podia jogar na posição de Maicon no sistema de três zagueiros. Com a venda de Maicon, Lugano passou a jogar em uma linha de quatro defensores, indo contra seu próprio discurso.

Cícero, contratado a pedido de Ceni, foi mantido no time mesmo com atuações abaixo da crítica e pouca participação. Foi atrapalhado por lesões, é verdade, e isso precisa entrar na conta. Mas a falta de uma ideia do que queria de jogo minava o time. Não corrigiu os problemas defensivos, nem soube lidar com a inconstância do ataque. No seu último jogo, contra o Flamengo no Rio, escalou Wesley, um jogador que não rende há tempos e que, mais uma vez, decepcionou. Com Cueva mal tecnicamente, não deu muitas chances aos seus possíveis substitutos, Lucas Fernandes e Shaylon, que entraram poucos minutos. Mudou o esquema diversas vezes, sem encontrar uma forma que desse consistência ao time. As boas atuações foram exceção, não a regra.

Ceni não conseguiu fazer o time render em campo. Se em março havia elogios pelo seu estilo, que ele só implantou por ter as costas largas para errar à vontade, em junho ele já tinha gasto todo seu crédito com erros sucessivos e análises do jogo que levavam a crer que o São Paulo estava jogando bem e não vencia por detalhe – como ele mesmo disse, aliás, com estas mesmas palavras. Ele se prendia a números, estatísticas, fazendo com que elas dissessem aquilo que ele queria que elas dissessem. Por vezes pareceu de saco cheio de falar com a imprensa, o que é direito dele. Se incomodou com questionamentos, a ponto de questionar até os números, quando eram apresentados a ele. Não lidou bem com as críticas, usando de um recurso por vezes problemático: o de refutar tudo.

No domingo, depois do Flamengo vencer por 2 a 0 dominando o jogo, ele reclamou da distância da barreira e um suposto erro da arbitragem na marcação da falta que gerou o primeiro gol. Suas análises davam a impressão que estava tudo bem, sempre, que a vitória viria, uma hora ou outra. Só que o que se via em campo era um time perdido, sem saber o que fazer, mal posicionado, mal treinado e rendendo mal. Sim, individualmente o time não está bem, mas coletivamente o São Paulo não existe. E o seu técnico não parecia ter um diagnóstico do problema. Ao contrário, parecia ver um outro São Paulo em campo, um São Paulo que terminou a rodada em 17º não porque joga mal, mas por um detalhe, um acaso ou um erro de arbitragem.

Com esse tipo de análise sendo frequente ao longo destes seis meses, a boa vontade dos analistas com Ceni foi ruindo. O apoio a Ceni foi desaparecendo nas arquibancadas também, o seu maior refúgio. O anúncio da venda de Thiago Mendes no dia 30, última sexta-feira, deveria ser um salvo conduto de Ceni, com a perda de mais um titular. Perdeu um jogador fundamental à sua ideia de jogo. O problema é que não se via em campo nada que pudesse indicar que, de fato, o time estava melhorando. O jogo no domingo, com futebol pobre e mais uma análise do técnico fora da realidade, só mostraram mais ainda que Rogério Ceni vinha mal.

O contraste com o rival Corinthians também pesa. Se em março o Corinthians de Fabio Carille sofria com atuações ainda pouco inspiradas enquanto o São Paulo de Rogério Ceni recebia elogios pelo jogo ofensivo, ainda que custasse muitos gols sofridos. Só que o São Paulo só piorou as suas atuações desde então, enquanto o Corinthians só melhorou, inclusive com o duelo entre ambos terminando com o Corinthians eliminando, mais uma vez, o São Paulo, desta vez nas semifinais do Paulista. O Corinthians de Carille é líder do Campeonato Brasileiro com sobras. O São Paulo de Rogério Ceni entrou na zona do rebaixamento pela primeira vez.

Após o anúncio da demissão de Ceni, Mauricio Barros publicou, na ESPN, o texto “Por que a demissão de Rogério Ceni te deixa tão feliz?”. Ele critica, com toda razão, a incompetência da diretoria, o seu despreparo e a forma como minaram o trabalho de Ceni ao desmanchar o elenco com mais de uma dezena de vendas. Termina, porém com a afirmação que o ódio dos rivais a Rogério Ceni só aumenta a sua mitologia, como ele disse, com a torcida do São Paulo. O que tornou Rogério Ceni gigante não foi o ódio dos rivais, foi o que ele fez em campo. O ódio ou rejeição dos rivais tem a ver não só com a figura vencedora e multicampeã, mas com o personagem arrogante e antipático que Ceni foi ao longo da carreira. Como Barros bem lembrou, Ceni mostrou algumas características de sua personalidade que precisam mudar enquanto técnico. Essa enorme arrogância é uma delas. Porque foi ela que ajudou a minar a paciência de quem o idolatra com a sua versão técnico.

Ficou muito difícil defender Rogério Ceni, mesmo que o principal culpado pela péssima fase do São Paulo esteja na diretoria, com Leco e todos os dirigentes que lá estão, e estavam nas gestões anteriores também. Juvenal Juvêncio já fazia uma gestão questionável, mas seu terceiro mandato – que foi contestado na justiça, inclusive – foi desastroso. Ele foi o padrinho de Carlos Miguel Aidar, que deixou o clube coberto de acusações de corrupção.

Acusações que Leco, seu sucessor e que também era da gestão de Juvenal Juvêncio, não fez questão alguma de apurar. Jogou tudo para baixo do tapete. Aidar saiu da direção, mas segue como um dos conselheiros do São Paulo. Mesmo depois das acusações de desvio de dinheiro ou de fazer negócios que beneficiavam ele e os seus, não o clube – lembrem-se da história da comissão na assinatura do contrato com a Under Armour, fornecedora de material esportivo do clube. Nada apurado. Questões éticas, questões morais e questões legais que nunca viram a luz do dia. Mofaram em alguma gaveta do Morumbi, em meio ao enorme processo de coalizão que caracteriza a política são-paulina.

Rogério Ceni não era o principal problema do São Paulo, tornou-se um problema com sua pilha de erros e a sua enorme arrogância. A falta de caráter da diretoria que o usou como cabo eleitoral e tirou dele muitos dos jogadores não exime seus erros e nem a sua arrogância. Agiu da mesma forma que fazia como jogador. Só que como jogador, Rogério Ceni era um craque em campo. Como técnico novato, Rogério não teve a humildade de tentar aprender com os próprios erros. A sua saída acaba sendo um alívio para muitos são-paulinos. O que, por si, já diz muito sobre o trabalho do ídolo como técnico.

Ceni é só mais um capítulo da história de soberba do São Paulo. O clube parece se afogar no seu próprio vômito de soberania. Precisa ao menos corrigir o problema do time em campo, antes que acabe arrotando termos como ser uma boa vitrine na Série B.