A Fifa anunciou a suspensão do presidente da CBF, Marco Pólo Del Nero, por 90 dias. A suspensão ainda pode aumentar em 45 dias. O dirigente foi indiciado nos Estados Unidos, em investigação do Departamento de Justiça em conjunto com o FBI. Mesmo assim, manteve-se como presidente da entidade que dirige o futebol brasileiro. E pior: com a anuência dos clubes. O que Del Nero fez foi não sair mais do Brasil, sob o risco de ser preso pelo FBI. Os clubes, que deveriam ser os primeiros interessados a não ter um criminoso dirigindo o futebol brasileiro, ficam silenciosos e mantiveram o apoio tácito a Del Nero, que segue dando as cartas.

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Del Nero é investigado pela Fifa desde 2015, mas a entidade que dirige o futebol mundial nunca pareceu empenhada em de fato descobrir o que o dirigente brasileiro estava envolvido. Afirmava que não podia punir Del Nero por falta de provas. Romário, senador brasileiro, chegou a enviar à Fifa documentos que provavam, segundo ele, a participação de Del Nero em atos ilícitos. Ainda assim, nada foi feito pela Fifa. E nem pela justiça brasileira, diga-se.

O que mudou foi o surgimento de provas contra o presidente da CBF durante o julgamento de José Maria Marin e outros dois dirigentes presos nos Estados Unidos. Del Nero é citado diversas vezes como beneficiário de propinas no valor de US$ 6,5 milhões. Além disso, a defesa de Marin afirma que mesmo enquanto o seu cliente era presidente da CBF, quem mandava mesmo era Del Nero – inclusive nos crimes. A Fifa, então, se viu obrigada a agir. Assim, suspendeu o dirigente por tempo determinado para conduzir a sua própria investigação e só então tomar uma decisão sobre o destino do dirigente, ao menos no futebol.

Del Nero pretendia convocar eleições em abril. E, para diminuir o número de opositores, tinha a ideia de levar o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, para ser um dos seus vice-presidentes. Ele é considerado um dirigente de mais prestígio e poderia ajudar Del Nero a angariar o apoio que precisa. O Flamengo negou que tenha havido essa aproximação. Com a suspensão, os planos de Del Nero devem ir por água abaixo.

Com a suspensão de Del Nero, quem assume a presidência da CBF, temporariamente, é Antônio Carlos Nunes de Lima, o Coronel Nunes, exatamente como aconteceu em abril de 2016. Foi quando os clubes paulistas votaram, em uníssono, pela eleição de Coronel Nunes para ser um dos vice-presidentes da CBF.

Tudo porque assim ele passaria a ser o mais velho e, portanto, quando Del Nero pedisse licença do cargo, ele assumiria. Com Del Nero por trás das ações, claro. Foi exatamente o que acontece e os clubes, subservientes, fizeram tudo que Del Nero queria. Como cordeirinhos, ajudaram Del Nero a ter um fantoche no cargo, enquanto temia a sua prisão.

“Ele tem capacidade”, afirmou na época o presidente do Palmeiras, Paulo Nobre. Mas ele só verbalizou o ridículo papel que os quatro grandes clubes de São Paulo fizeram ao votar para que o nome controlado por Del Nero ficasse no comando da CBF. O jornalista Lúcio de Castro explicou, no Blog do Juca, quem é o Coronel Nunes. E o quadro não é bonito.

No sorteio da Copa do Mundo 2018, no dia 1º de dezembro, só um entre os 32 países classificados ao Mundial não tinha o presidente da sua federação presente. Isso mesmo: o Brasil. Del Nero não foi à Rússia. O risco de ser preso, como foi Marin em um hotel na Suíça, era grande.

A Câmara de Arbitragem do Comitê Independente de Ética irá julgar o caso de Del Nero e pode até mesmo bani-lo do futebol, como já fez com outros dirigentes envolvidos com corrupção. É muito provável que isso aconteça se a Fifa souber que as provas contra Del Nero são irrefutáveis, o que parece cada vez mais próximo. Se for afastado pela Fifa em definitivo, Del Nero pode recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS). O problema é que para isso teria que ir até a Suíça se defender e, assim, correr o risco de ser preso pelo FBI. Dificilmente, portanto, ele deixará o Brasil.

O que é mais impressionante é que o Brasil parece ignorar o caso. Tanto a Justiça brasileira não dá sinais de investir todas essas irregularidades que Del Nero alegadamente cometeu, nem mesmo os clubes se movimentam para forçar a saída de Del Nero. Todos parecem ter rabo preso, de alguma forma. Todos parecem temer represálias da CBF. Todos são covardes. E são esses covardes que dirigem os clubes brasileiros e os mantêm na coleira da CBF.

Todos parecem temer a traição uns dos outros, como foi na implosão do Clube dos 13. Todos parecem preocupados em pular fora, mas pularem sozinhos. Ninguém se une por melhorias. Ao contrário: se forem oferecidas medidas que prejudiquem outros, mas beneficiem a si, os clubes abraçam a ideia sem contestar. Parece que o que rege o futebol brasileiro é uma frase da música Homem Primata, dos Titãs: cada um por si e Deus contra todos.