Pablo Aimar não teve o final de carreira que desejava. Integrou o elenco do River Plate no histórico ano de 2015, mas sequer conseguiu participar da campanha que culminou na reconquista da Copa Libertadores. Perseguido pelas lesões, disputou um mísero jogo, e então parou. Mas não era essa a despedida que o meia desejava. E, aos 38 anos, o ídolo de Lionel Messi voltou para um último compromisso. El Payaso pisou no gramado do modesto Estádio Antonio Candini, em Rio Cuarto, cidade na região de Córdoba onde nasceu. Seu adeus aconteceria com a camisa do Estudiantes de Río Cuarto, clube que recentemente ascendeu à terceira divisão do Campeonato Argentino, e no qual o armador iniciou sua carreira, atuando dos seis aos 14 anos. Em um duelo de pouco glamour na Copa da Argentina, mas de muita representatividade pessoal, ele recebeu a sua última ovação.

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Após ser derrotado no jogo de ida, o Estudiantes de Río Cuarto recebia o Sportivo Belgrano San Francisco pela primeira fase da competição nacional. Foi a noite especial escolhida por Aimar, que se preparou durante os últimos dias para voltar aos gramados. O armador cumpriria a vontade não apenas de defender a equipe de sua cidade, como também de compartilhar o gramado com o irmão Andrés. Obviamente, os conterrâneos não decepcionaram El Payaso. As arquibancadas estavam lotadas para o momento tocante – e com algumas visitas ilustres, a exemplo de Marcelo Bielsa, que se misturou à multidão para alentar o seu ex-comandado.

Pensando no aspecto meramente esportivo, a partida não foi das mais felizes ao Estudiantes de Río Cuarto. A equipe não conseguiu sair do 0 a 0 com o Sportivo Belgrano e acabou eliminada da Copa da Argentina. O armador teve a sua chance de marcar logo nos primeiros minutos, mas parou no goleiro adversário. Matou no peito, fintou a marcação e chutou de fora da área, esbarrando no adversário. Além disso, já depois que o veterano havia saído, o clube de sua cidade desperdiçou um pênalti, que seria vital à classificação no placar agregado. Diante de tudo o que aconteceu no estádio, porém, isso se transforma em uma nota de rodapé.

As arquibancadas incendiaram por Aimar. Proporcionaram uma festa que o futebol de Río Cuarto nunca tinha experimentado. A multidão iluminou a cidade, entre sinalizadores e celulares. E não deixou de exaltar o seu filho mais ilustre. A saída dos times ao campo já contou com muita empolgação dos presentes. Porém, o momento de emoção aflorada aconteceu aos cinco minutos do segundo tempo, quando El Payaso acabou substituído. Todos se levantaram para aplaudir o camisa 10, com os olhos marejados, cumprimentando vários jogadores em sua caminhada até o banco de reservas. Já nas tribunas, seu pai chorou copiosamente. Um adeus simples, sem as pompas de uma festa de gala que poderia ter acontecido no Monumental, na qual o veterano marcaria quantos gols quisesse. Por isso mesmo, a humildade torna estes 50 minutos ainda maiores.

“O final é onde comecei. Estava tudo ótimo. Não pudemos nos classificar, mas foi uma linda festa para os que vieram ao estádio ver, desfrutar e passar bons momentos de futebol. Eu podia parar bem ou não. Para mim, se saiu tudo bem porque joguei com meu irmão”, declarou Aimar, na saída de campo. “Fiz uma grande carreira por todo o mundo, Ana me deu quatro filhos divinos, agradeço toda a vida. Uma etapa termina aqui, eles me acompanharam por todos os lados, meus pais, meus irmãos… Veio até Bielsa, é uma emoção enorme para mim. Gostaria de ter vencido, mas jogar por algo tem essas coisas… Não sei se algum jogador se aposentou sem falar que faltou algo, nem Messi faria isso. Agora estou satisfeito, esta foi minha última partida. E não vou me esquecer nunca mais disso. O futebol me deixou amigos, ensinamentos, boas pessoas. Hoje é a culminação de tudo isso”.

Aimar encerra definitivamente sua trajetória como jogador, mas não a sua história no futebol. O ex-meia continua trabalhando com a seleção argentina, agora nas categorias de base: é o técnico da Albiceleste sub-15. O primeiro sucesso veio em novembro, derrotando o Brasil na decisão do Campeonato Sul-Americano da categoria. Pela clareza de ideias que demonstra e pela vontade de ajudar os mais novos a evoluir, há um promissor caminho pela frente. Seguirá sendo magistral, mas de uma maneira diferente.