O turismo boleiro costuma ser uma prática comum àqueles acometidos pela paixão febril do futebol. Pegar a estrada ou o avião para conhecer novos estádios, novos clubes, novas torcidas – e, sobretudo, novas pessoas. Alguns lugares são propícios para tais aventuras. Em especial, a Europa, onde com poucos quilômetros rodados você consegue submergir em culturas totalmente diferentes e em campeonatos de histórias tão particulares. Neste tipo de jornada, um estatístico britânico resolveu ir além. Seu desafio é assistir a um jogo em cada uma das 55 nações futebolísticas filiadas à Uefa. E ele encara a epopeia como um desafio contra o relógio, visando completar a sua cruzada antes do final da temporada.

Matt Walker, de 40 anos, teve o lampejo quando lia um livro – sobre futebol alternativo, claro. O funcionário do Ministério da Justiça devorava ‘Stamping Grounds’, de Charlie Connelly, que fala sobre a empreitada de Liechtenstein nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2002. “Sendo um analista, eu imediatamente levantei as rodadas da última temporada, coloquei em uma planilha e percebi que era possível, embora eu não tenha tornado as coisas mais fáceis, escolhendo uma temporada na qual as ligas terminam mais cedo por causa da Copa do Mundo”, declarou o britânico, torcedor do Fulham, em entrevista ao jornal The Guardian. A odisseia estava lançada. Na parede de sua casa, pegou um mapa gigante da Europa e marcou com alfinetes cada um dos clubes que disputam a primeira divisão nas 54 ligas nacionais filiadas à Uefa. Haverá ainda o 55° país, Liechtenstein, que não possui sua liga. Assim, o inglês visitará o Vaduz na segundona do Campeonato Suíço.

Walker, aliás, não é nenhum principiante. Ele já viu partidas de futebol em mais de 20 países. Acompanhou Eurocopa, Copa Africana de Nações e duas Copas do Mundo – inclusive, esteve no Brasil em 2014. Como divertidamente relata em seu site oficial: “Eu continuo jogando em um padrão particularmente medíocre onde quer que eu possa vagar. Eu cortei a sola dos meus pés jogando descalço nas praias birmanesas, sofri desesperadamente com a altitude mexicana e tive dezenas de crianças etíopes malucas por futebol gritando ‘Crutch’ para mim. ‘Crutch, Crutch, Peter Crutch’. Sou bastante branco e muito alto”.

Diante das viagens a 55 lugares diferentes, divididas em apenas 40 semanas, Walker precisa desenhar continuamente uma logística especial. Nem todas as partidas estão previamente escolhidas, enquanto alguns encaixes acontecerão conforme a ocasião. Sua aventura começou em junho, aproveitando as ligas que adotam o calendário solar. Primeiro, visitou a Geórgia. Viu o confronto entre Dila Gori e Lokomotiv Tbilisi em um estádio para 25 mil pessoas, mas ao lado de apenas 200. “O Dila Gori fica sediado a 80 quilômetros de Tbilisi, mas o estádio deles está passando por reformas, então o jogo foi disputado na capital. Foi uma atmosfera muito bizarra, mas todos eram muito amistosos. A maioria dos torcedores era da família dos jogadores do Lokomotiv ou seus amigos. E ninguém precisou pagar, porque o Dila reconheceu que seria mais custoso imprimir os ingressos”, explicou.

Depois da visita à ex-república soviética, Walker voltou para casa. Deu seguimento ao trajeto acompanhando o Islandesão, no duelo entre Breidablik e Valur. Esticou a perna até as Ilhas Faroe, na vitória do Skála sobre o HB. E, na sequência, acompanhou a goleada do Brann por 5 a 0 sobre o Stabaek, na Noruega. Ficou mais alguns dias em Londres, na vida de estatístico, até voltar a ser apoderado pelo espírito de torcedor, com a terceira etapa da jornada. Começou vendo Häcken e Hammarby na Suécia. Seguiu à Finlândia, para presenciar o campeão Mariehamn empatar com o Ilves. E passou também pela Estônia, com FCI Tallinn e Tartu Tammeka. Nos próximos dias, ainda vai a Cazaquistão, Rússia, Lituânia, Letônia e Belarus.

mapa

“Parte do meu itinerário tem sido determinado pela logística, mas meu plano geral evita as capitais e vai a lugares menores”, explica Walker. “O itinerário começa pelas ligas que seguem o calendário solar, e o resto é moldado ao redor de histórias interessantes de futebol (como o Crotone ou o Mariehamn, uma espécie de Leicester da Finlândia) e dos meus interesses de viagens”. Além disso, o britânico precisa adaptar a realidade ao seu orçamento. O preço médio dos ingressos que ele poderá comprar a partir de sua poupança é de £14. Da mesma forma, não pode exagerar nos gastos com alimentação ou hospedagem.

E a quantidade de variáveis tornam qualquer cálculo do estatístico boleiro passível a inúmeras probabilidades. Há entraves geopolíticos, mudanças nos calendários e uma série de outras situações que são totalmente imprevisíveis. “Um colega me disse que não quer ouvir sobre as coisas boas que eu vejo e faço, mas apenas sobre as coisas que dão errado. Ele não estava sendo insensível, apenas pensava no que pode tornar a leitura mais divertida”, comentou. E, apesar das incertezas, Walker já sabe que o ponto final da odisseia deve acontecer nos Bálcãs. É a região da Europa com mais clubes na primeira divisão, que pode proporcionar o sprint final na maratona.

A aventura de Matt Walker vem sendo muito bem documentada. O britânico criou um site, onde posta regularmente textos sobre as etapas de sua viagem. Inclusive, traz detalhes bastante interessantes sobre as peculiaridades de cada lugar. Na página, é possível também acompanhar um mapa, através do qual ele resume as etapas e traça os seus planos. Além do mais, o estatístico possui um talento considerável para a fotografia, reunindo uma série de bonitas imagens tanto no blog quanto em sua conta no Instagram. O intuito é editar o material posteriormente e transformá-lo em um livro. Por tabela, serve de inspiração a centenas de fanáticos por futebol, que sonham fazer um mochilão parecido com o seu.