Quando Andrés Iniesta se mostrou inclinado a deixar o Barcelona, tudo indicava que seu destino seria a China. O craque tinha uma boa proposta do futebol local e poderia prosperar em seu novo negócio, os vinhos, reforçando o seu nome no maior mercado do planeta. De repente, a tal oferta virou pó, até pelas limitações financeiras que o Campeonato Chinês vem encarando, e não se sabia qual seria o próximo passo do meio-campista. Segundo suas próprias palavras, vários clubes se mostraram interessados em contratá-lo. Ao final, seguiu seu rumo ao Extremo Oriente, um pouco mais à leste. Nesta quinta, aconteceu sua apresentação oficial pelo Vissel Kobe, da J-League.

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Olhando de longe, o Vissel Kobe não parecia uma escolha provável, mas tudo se torna bem mais compreensível quando se nota as entrelinhas. Desde 2004, o clube japonês fundado pela Kawasaki Steel passou a ser administrado pela Rakuten, que o salvou da falência. A companhia de comércio eletrônico patrocina o Barcelona, em contrato alinhado por Gerard Piqué, e isso certamente facilitou o meio-campo entre as duas partes. Hiroshi Mikitani, a quem Don Andrés chamou de “amigo” em suas redes sociais, é o fundador da empresa e um dos homens mais ricos do Japão – em fortuna que supera os US$5 bilhões. Iniesta acaba sendo o rosto de um projeto que merece muito mais atenção, dentro das ambições esportivas do magnata, responsável ainda por um torneio internacional de tênis e pelo Tohoku Rakuten Golden Eagles, time de beisebol que faturou a liga nacional em 2013.

“É um dia muito importante para mim, um desafio à minha carreira. Confio neste projeto. Japão é um país maravilhoso e venho para trabalhar com meus companheiros”, declarou Iniesta, em sua apresentação oficial nesta quinta-feira. “Recebi ofertas de outros clubes, mas decidi pelo Vissel porque o projeto que me apresentaram pareceu muito interessante. E me demonstraram a sua confiança. Além do mais, a cultura do Japão é maravilhosa, gostaria de aproveitar a vida aqui”.

Iniesta vai ganhar um salário suntuoso, digno dos melhores do mundo. Segundo o jornal El País, os ganhos anuais são estimados em €25 milhões – o maior da história do Campeonato Japonês com certas sobras. Porém, o planejamento da Rakuten vai além. A companhia participará da produção da vinícola de Iniesta, o que certamente ajudará os seus ganhos. E os dirigentes têm o projeto de criar uma versão japonesa de La Masía, em parceria com o próprio Barcelona, para formar novos atletas no país. A imagem de Iniesta seria fundamental neste sentido.

Historicamente, o Vissel Kobe não possuiu grandes craques internacionais. São raros os exemplos de jogadores renomados. Durante os anos 1990, a aposta foi em Michael Laudrup. Kobe sofria com as consequências de um severo terremoto e o Vissel militava na segunda divisão. O astro dinamarquês, contratado junto ao Real Madrid, foi importante na campanha do acesso inédito à J-League em 1996 e disputou algumas partidas na elite em 1997, antes de acertar sua transferência ao Ajax. Já depois da virada do século, vários brasileiros sem tanto currículo por aqui foram apostas constantes, salvo exceções como Roger Machado e Fábio Simplício. O centroavante Leandro (ex-Nacional-SP), o meio-campista Botti (ex-Vasco) e o atacante Popó (ex-Lusa) são os únicos que passaram das 100 partidas pelos alvinegros.

As ambições da Rakuten, todavia, ficaram mais claras a partir da temporada passada. Lukas Podolski foi o primeiro astro internacional a chegar ao Japão após muitos anos, embora viesse em baixa no Galatasaray. Teve grande repercussão principalmente em sua apresentação, levando centenas de torcedores ao aeroporto. Além dele, outro negócio de peso foi a compra de Mike Havenaar, atacante com passagem pela seleção japonesa. Outros estrangeiros notáveis são o meio-campista Jung Woo-young e o goleiro Kim Seung-gyu, ambos pré-convocados para a seleção sul-coreana que disputará a Copa do Mundo de 2018.

Entre as explicações para os reforços, Mikitani garante que o novo contrato de direitos televisivos permite o impulso. No entanto, o magnata deseja mesmo explorar o potencial do Japão como economia no futebol, aproveitando-se de sua própria capacidade de investimento para oferecer o impulso inicial. Na época da apresentação de Podolski, o empresário afirmou que almejava atrair a atenção de outros cantos do mundo à J-League e incentivar os demais clubes a fazerem apostas parecidas. Sem dúvidas, pegar um símbolo do futebol como Iniesta aumenta estes holofotes. Nesta quinta, aliás, Mikitani reforçou o discurso: “Iniesta é um jogador top em nível mundial. A sua chegada vai subir o perfil internacional do futebol japonês”.

Esportivamente, o Vissel Kobe ainda precisa se firmar. O clube têm registrado os melhores resultados de sua história nas últimas temporadas, mas em posições modestas na parte superior da tabela da J-League. Atualmente, os alvinegros ocupam a sexta colocação, em uma campanha oscilante, a cinco pontos da zona de classificação à Liga dos Campeões da Ásia. É ver o impacto que Iniesta pode causar, embora seja um jogador para potencializar o coletivo, não para resolver sozinho. O conjunto também precisa melhorar.

Outra questão que fica é sobre a “capacidade de contágio” que a contratação de Iniesta pode ter. A J-League já contou com Zico, Lineker, Stojkovic, Schillaci, Stoichkov e outras tantas estrelas internacionais, mas em um período no qual o futebol profissional se consolidava no país. Desde a virada do século, a liga optou por manter os pés no chão, já estabelecida junto ao público local. Pelas palavras de Mikitani, o Vissel Kobe pode representar um ponto de virada, ganhando visibilidade também nos países vizinhos. Iniesta, um craque discreto como os japoneses, pode ser o representante da transformação. Resta saber quem mais embarcará nas ideias do magnata.