Iñigo Martínez até parecia destinado a vestir apenas uma camisa em toda a sua carreira profissional. Chegou à Real Sociedad quando tinha apenas 13 anos e passou por todo o processo formativo do clube. Transformou-se em uma das maiores promessas de Anoeta e, desde 2011/12, vinha como titular dos txuri-urdin. Seu sucesso o levou à seleção espanhola, assim como usou a braçadeira dos bascos ocasionalmente e ganhou até mesmo uma “peña” (grupo de torcedores) com o seu nome. Aos 26 anos, somava 239 partidas como profissional, já metade do caminho para figurar entre os 10 jogadores com mais partidas pela agremiação. E quando a torcida confiava nesta história duradoura, eis que o zagueiro vira as costas à Real. Deixa o clube de maneira surpreendente. Assina justamente com o maior rival, o Athletic Bilbao.

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A transferência de Iñigo Martínez gera interesse especialmente por seus detalhes. Está longe de ser um negócio qualquer. A começar pela troca de cores no País Basco. Em dois clubes que se voltam principalmente a atletas nascidos no País Basco, especialmente pelo regime de exclusividade dos leones, passar pelas duas instituições é relativamente comum. Raros, porém, são os negócios diretos entre as duas agremiações. Desde 1989, 13 jogadores trocaram Anoeta por San Mamés. Porém, apenas dois deles mudaram de lado após um aperto de mãos entre os dirigentes. Quatro deles assinaram com os Leones após ficarem sem contrato. Já outros seis viraram a casaca com o pagamento da rescisão, motivo de clara animosidade entre os rivais.

Afinal, muitas destas transferências terminaram em litígio. A começar por Luciano Iturrino, em 1989, que depois da negativa da Real sobre sua venda, teve a cláusula bancada pelo Athletic. Por conta de Iban Zubiaurre, os dois clubes chegaram a brigar na justiça em meados da década passada. Já o episódio mais emblemático aconteceu em 1995. Joseba Etxeberría era uma das principais promessas dos txuri-urdin e, aos 17 anos, já havia estreado na equipe principal. Entretanto, acabou cedendo às ofertas dos leones, que acionaram a sua rescisão – cerca de €3,3 milhões em valores atuais, uma quantia alta para a época. Por conta do episódio, os rivais romperam relações por algum tempo. Em compensação, o atacante vestiu a camisa alvirrubra por 15 anos e se tornou o terceiro com mais jogos.

O caso de Iñigo Martínez é diferente. Afinal, ao contrário de seus antecessores, o zagueiro tinha status de ídolo na Real Sociedad. E, ainda assim, preferiu trocar tudo o que construiu em Anoeta para iniciar uma nova história com o Athletic Bilbao. Hoje, soam como falsidade as juras de amor feitas pelo defensor. E tudo ganha sentido quando se pensa que, em 2016, ele recusou uma cláusula “anti-Athletic” em seu contrato, que impediria os alvirrubros de levá-lo, independentemente da oferta – algo que Mikel Oyarzabal, promissor ponta de 20 anos, aceitou. Os leones pagarão €32 milhões aos txuri-urdin, recorde em uma compra feita pelo clube. Além disso, o atleta deverá receber €5 milhões anuais em salários, o dobro do que ganhava em Anoeta e o maior valor da folha em San Mamés – o que certamente pesou bastante em sua decisão. Anteriormente, o defensor chegou a declarar que crescera em uma família alvirrubra, “ainda que pouco a pouco as coisas estão mudando”.

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O investimento alto, acima do valor de mercado de Martínez, indica outro detalhe envolvido no negócio: as particularidades do Athletic Bilbao no mercado de transferências. Por sua política identificada com a comunidade local, restrita apenas a jogadores de origem basca, os leones não possuem grandes possibilidades de contratação. Contam com categorias de base fortíssimas exatamente por essa singularidade, enquanto agem de maneira um tanto quanto agressiva em relação aos outros clubes da Comunidade Autônoma. Se os imbróglios com a Real Sociedad são relativamente corriqueiros, pior para os outros vizinhos de menor expressão, que não oferecem grande resistência quando os leones se voltam a um de seus talentos – quase sempre, jovens atletas. Nestas circunstâncias, é muito difícil competir com o poder de compra dos alvirrubros.

Por outro lado, o poder de barganha do Athletic também impõe um sarrafo alto nas vendas, sem ter as mesmas receitas do primeiro escalão da Europa. Justamente pelas limitações na reposição, os leones não costumam se desfazer fácil de suas estrelas e de suas principais promessas. A postura quase sempre é a mesma: estipular uma cláusula de rescisão alta e quem realmente estiver disposto a contar com tal jogador, que pague o valor. Foi assim que aconteceu com Javi Martínez e Ander Herrera, protagonistas na equipe vice-campeã da Liga Europa em 2011/12. Os dois não haviam sido formados em Bilbao – Herrera comprado junto ao Zaragoza e Martínez trazido de maneira espinhosa do Osasuna, após acusações de aliciamento. Ambos saíram apenas depois que Bayern de Munique e Manchester United se dispuseram a bancar a rescisão. Já Fernando Llorente, que decidiu não renovar para forçar sua saída, teve que esperar um ano na reserva até ficar livre e poder assinar um novo acordo com a Juventus.

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O poderio econômico do Athletic Bilbao também entra na equação. É um clube relativamente rico, com muita tradição, boas fontes de receita, patrocínios fortes, apoio das autoridades locais e uma grande base de torcedores. O dinheiro das vendas de jogadores, no fim das contas, acaba não sendo tão necessário assim, dentro de uma estrutura sustentável – também por não ter muita válvula de escape para loucuras no mercado de transferências. Os lucros anteriores serviram para a construção do Nuevo San Mamés e as amplas reformas no centro de treinamentos de Lezama, gerando críticas na torcida por não terem sido reinvestidos no elenco. Agora, com a saída de Aymeric Laporte, os dirigentes mudaram a estratégia e partiram para cima de Iñigo Martínez, referência dos rivais.

A transferência do zagueiro de 23 anos para o Manchester City, aliás, oferece os números finais para compreender o contexto. Um dos melhores defensores de sua faixa etária no mundo, Laporte não teria uma reposição tão simples ao Athletic. Ganhou sinal verde para se mudar à Inglaterra justamente quando bancou a cláusula de rescisão, rendendo €65 milhões aos leones. E se não há outro jogador basco que valha tudo isso, por que não buscar aquele que mais se aproxima? Por mais que Iñigo Martínez defendesse a Real Sociedad, parecia o nome mais capacitado para preencher a lacuna, ainda que isso criasse uma rusga. Tudo isso, de qualquer forma, só foi possível com o “sim” do defensor txuri-urdin – e agora alvirrubro.

O negócio também se torna um sinal claro do que o Athletic Bilbao espera ao seu futuro. Depois de três anos nulos no mercado de transferências, quando Raúl García havia sido a única contratação de peso, os leones reavivam a imagem de predadores. Era necessário, diante do desempenho oscilante na atual temporada, após a saída do técnico Ernesto Valverde. O ponto é que o investimento aciona uma cadeia de gastos maiores, considerando que vários dos protagonistas do atual elenco estão às vésperas do fim de seus contratos. A folha de pagamentos irá aumentar, e isso precisa ser compensado dentro de campo.

Em suas redes sociais, Iñigo Martínez publicou uma carta de despedida aos torcedores da Real Sociedad. Algo que nem todos os torcedores viram como sincero, sobretudo comparando com o volante Asier Illarramendi, que fechou as portas às investidas do Athletic recentemente. “Uma despedida nunca é fácil, e menos nestas circunstâncias. Gostaria de fazer pessoalmente, mas não foi possível. Obrigado a todos de coração. A todos os torcedores e especialmente aos membros da minha peña, por estarem sempre nas horas boas e nas ruins. Você, torcida, é a Real Sociedad. Começa para mim um novo caminho, mas vou com tranquilidade e certeza de ter dado tudo a cada segundo que vesti este escudo”, escreveu. Boa parte das reações dos txuri-urdin são negativas, tratando como uma traição a escolha do zagueiro. Também questionam a maneira como saiu, sem deixar muitas alternativas ao antigo clube nas últimas 48 horas de janela, especialmente em um momento no qual o desempenho despenca em La Liga.

Não há dúvidas que Iñigo Martínez chega ao Athletic Bilbao para ser, apesar de tudo, um símbolo. O clube estipulou uma nova cláusula de rescisão em €80 milhões, o que certamente afasta outras especulações recentes envolvendo seu nome. O valor, aliás, é o mesmo usado para segurar o goleiro Kepa Arrizabalaga, que interessava bastante ao Real Madrid e renovou recentemente. A pressão sobre o zagueiro, de qualquer forma, será enorme. Está em uma linha tênue entre não desagradar os novos torcedores e aturar a fúria daqueles que antes o adoravam. O próximo clássico, marcado para abril, dentro de Anoeta, sem dúvidas será inesquecível – pelo bem ou pelo mal.