Thibaut Courtois é um dos grandes destaques do Atlético de Madrid, não só nesta temporada, mas desde que chegou ao clube, em 2012. O jogador, porém, tem contrato com o Chelsea, dono dos seus direitos federativos, mas para colocar o goleiro para jogar, o emprestou ao time espanhol. Ninguém imaginava que os dois clubes se enfrentariam na semifinal da Liga dos Campeões e uma discussão viria à tona. O goleiro pode ou não jogar contra o Chelsea? Por contrato, não pode. A Uefa, porém, resolveu intervir e disse que um clube tentar influenciar outro clube a não escalar um jogador é irregular, de acordo com o seu código disciplinar, e que se isso acontecesse, seria uma clara violação que seria punida.

A prática de não deixar que o jogador emprestado enfrente o clube com o qual mantém contrato é uma prática comum. No Brasil mesmo, temos dois exemplos recentes. O atacante Rildo não pode jogar as quartas de final do Campeonato Paulista pelo Santos porque está emprestado pela Ponte Preta ao clube do litoral. Outro atacante, Alexandre Pato, não poderá enfrentar o Corinthians durante os dois anos que está emprestado ao São Paulo. São restrições comuns e uma cláusula que é corriqueira nos contratos de empréstimo. Só que o comunicado que a Uefa fez pode mudar esses contratos de empréstimo a partir de agora.

A partir do sorteio que colocou Chelsea x Atlético de Madrid frente a frente, a Uefa fez questão de esclarecer a sua posição sobre a cláusula que impediria o goleiro de enfrentar o clube inglês. “A integridade da competição esportiva é um princípio fundamental da Uefa. Tanto a Liga dos Campeões quanto as regulações disciplinares da Uefa contêm disposições claras que proíbem estritamente qualquer clube de exercer, ou tentar exercer, qualquer influência sobre os jogadores que outro clube podem (ou não podem) colocar em campo”, diz o texto da entidade.

“Segue-se que qualquer cláusula de um contrato privado entre os clubes que podem funcionar de tal forma a influenciar quem um clube coloca em campo é nulo e sem efeito em relação no que diz respeito à Uefa”, continua o texto. “Além disso, qualquer tentativa de impor essa tal disposição seria uma clara violação tanto da regulamentação da Liga dos Campeões quanto dos regulamentos disciplinares da Uefa e, portanto, sujeita a punições”.

A Uefa parece ter feito corpo mole até agora em relação a isso, até porque é uma situação que raramente poderia afetá-la diretamente – em geral os empréstimos são feitos entre times de níveis diferentes, e que não se enfrentam na Liga dos Campeões. Desta vez, com o seu interesse em um espetáculo afetado, o posicionamento da entidade dirigida por Michel Platini foi duro. Se criar uma cláusula que impeça a atuação do jogador emprestado contra o clube com o qual tem vínculo, então é preciso rediscutir se isso deveria ser colocado em contrato.

Há um debate que deve ser levantado também se a Uefa deveria interferir nesse tipo de questão, ou seja, impedir que os clubes façam essas cláusulas em contrato. Afinal, são duas entidades privadas tratando de uma questão particular. Sim, é verdade, mas há outro ponto a ser considerado: a liga. No caso, a Uefa quer preservar a sua competição, impedindo que os clubes enfraqueçam uns aos outros com cláusulas desse tipo.

É algo que vale a discussão. Se o jogador está sendo emprestado pelo clube, porque impedir que ele atua contra você?  Claro, para impedir que um jogador com vínculo com o clube faça um estrago e se queime com a torcida, por exemplo. Digamos que Courtois feche o gol contra o Chelsea e seja o principal responsável pela classificação do time espanhol contra os Blues. Há uma sensação que isso pode ser ruim para o clube, que acaba sendo eliminado com grande influência de um jogador seu, além do temor de a torcida ficar de birra com esse jogador. Duas desculpas que, com o perdão do trocadilho, são para inglês ver. Ora, se Courtois faz um jogo épico e ajuda a eliminar o Chelsea, o que pode acontecer é a torcida pensar é que o time tem um goleiro de altíssimo nível pronto para substituir Petr Cech assim que ele deixar o clube – ou o futebol. Ou, ao menos, que o clube poderá ter um alto lucro com a sua venda.

A Uefa tomou uma posição quando a questão a afetaria diretamente. É pouco, mas é alguma coisa. E deverá jogar essa questão em debate novamente. Até porque já se especula que o Atlético de Madrid cogita não escalar o goleiro belga mesmo com a liberação da Uefa, para manter boas relações com o Chelsea e tentar, enfim, contratar o jogador em definitivo.

O executivo-chefe do Chelsea, Ron Gourlay, disse que, até onde ele sabe, não há qualquer restrição que impeça Courtois de jogar. “Courtois pode jogar contra o Chelsea. Nós iremos analisar o comunicado da Uefa. Nós não violamos nenhuma regra”, afirmou o dirigente. “Até onde nós sabemos, ele pode jogar os dois jogos se for escalado pelo técnico do Atlético”.

A bola está no centro do gramado. Veremos os próximos capítulos.