Em algumas famílias de esportistas, nem todo mundo consegue dar sorte na carreira. Talvez o melhor exemplo do que estou querendo falar venha do futebol americano. Archie Manning foi um grande quarterback da NFL, ídolo do New Orleans Saints. Seus filhos, Peyton e Eli, conquistaram o Super Bowl seguindo os passos do pai. Porém, Cooper Manning, o primogênito, não alcançou o mesmo sucesso. Ele despontou como um promissor wide receiver, mas precisou abandonar o esporte por causa de um problema na medula espinhal. Construiu uma vida além dos estádios, mas sem a dose de reconhecimento público desfrutada pelos irmãos mais novos – ao menos, apareceu em um episódio dos Simpsons. E, entre os paralelos possíveis no futebol, dá para incluir os Charlton.

Bobby Charlton é a unanimidade da família, maior ídolo do Manchester United e considerado um dos melhores jogadores ingleses de todos os tempos. O irmão Jack, dois anos mais velho, também teve uma trajetória consistente. Junto com Bobby, foi campeão do mundo em 1966, além de conquistar títulos importantes pelo Leeds United. E, como técnico, ainda levou a Irlanda a duas Copas do Mundo. Um pouco mais distantes na árvore genealógica, há os tios maternos Jack, George, Stan e Jim Milburn, todos com passagens por clubes da elite inglesa. O primo deles, Jackie Milburn foi uma lenda do Newcastle. E até mesmo a mãe dos Charlton, Cissie Milburn, tinha o seu envolvimento com o futebol. Se o marido Bob, boxeador, não apreciava muito a bola, era ela quem jogava com os filhos, chegando a treinar equipes escolares. No entanto, seus dois caçulas não rumaram ao estrelato.

Jack, Tommy, Cissie, Gordon e Bobby Charlton

Gordon Charlton é sete anos mais novo que Bobby. Acompanhou Jack ao Leeds, fazendo parte das categorias de base, mas não vingou. Seguiu em frente como engenheiro. Por fim, o menor é Tommy, nascido uma década depois de Bobby. Como você deve estar imaginando, ele possuía o seu talento. Também defendeu times amadores, sem engrenar, e foi obrigado abandonar o esporte com apenas 24 anos, por uma contusão. Fez sua vida trabalhando no resgate em minas, embora não tenha se afastado totalmente do futebol. Já aposentado, ele descobriu o “walking football”, adaptação da modalidade para a terceira idade. Como o próprio nome diz, os atletas jogam caminhando, sem tanto contato ou impacto. Assim, o caçula entrou na mira da seleção inglesa – seguindo, de certa forma, os passos de Jack e Bobby. Aos 71 anos, terá a chance de completar a tríade dos Charlton, com sua primeira convocação.

Tommy Charlton defende o Mature Millers, um time de walking football da cidade de Rotherham. O bom nível apresentado pelo veterano atraiu o interesse da federação inglesa de walking football, que está formando uma equipe nacional da modalidade. Neste final de semana, ele participará de testes em Turf Moor, casa do Burnley. Se for aprovado, integrará o elenco, composto por atletas acima dos 60 anos. O novo astro já passou um bocado da idade mínima, é verdade. Mas não se nega a sua habilidade, honrando o sobrenome.

“Amo jogar. É maravilhoso. Não sou o melhor do mundo, faço isso por diversão, mas marco muitos gols. Construí grandes laços graças ao walking football e espero chegar à seleção. Estou muito empolgado com os testes, quero mostrar minhas habilidades aos treinadores. Ainda assim, será difícil entrar para o time, há outros jogadores experientes na modalidade”, declarou Tommy. Entre os candidatos às vaga na seleção, há ex-profissionais, incluindo Alan Kennedy – lateral multicampeão com o Liverpool dos anos 1980. Neste ano, acontecerão os primeiros amistosos internacionais de walking football. A entidade que organiza o esporte planeja realizar uma Eurocopa em 2019 e uma Copa do Mundo em 2020.

Tommy Charlton, inclusive, deseja ajudar a expandir o walking football: “O esporte está crescendo rapidamente e há muitos pontos positivos, por causa do impacto que ele causa no corpo e na mente. Ele permite aos idosos jogarem futebol, o que muitos certamente imaginavam ser parte do passado. Quando eu tinha 24 anos, disseram que eu não poderia mais jogar e, bem, hoje estou aqui. Não consigo traduzir em palavras o quanto aprecio esta modalidade. Eu realmente amo isso. Se eu puder transmitir a outras pessoas o monte de amor que tenho pelo jogo e encorajá-las a fazer como eu, darei meu máximo. É uma grande oportunidade”.

Avô de seis netos, Tommy mantém o contato regular com os seus irmãos. Que, inclusive, o chamaram de ‘maluco’ pela ideia de seguir calçando chuteiras. “Nós todos nascemos no futebol, era um modo de vida. Eu nunca conheci nada diferente. Era tudo sobre o que conversávamos em nossa casa. Quando eu era jovem, sentia que precisava competir com Bobby e Jack, mas não conseguia. Percebi que nunca seria rápido ou bom o suficiente. Agora sou o único que continua jogando. Posso dizer que os venci!”, finaliza, em tom de brincadeira. Especialmente pela mensagem e pela motivação que transmite aos idosos, sem dúvidas, Tommy Charlton é realmente um vencedor.

Gordon, Bobby, Tommy e Cissie Charlton fazendo o que mais gostavam