Estava normal demais para ser verdade. Vencer o PSV, há duas rodadas, já realimentara as esperanças do Ajax no Campeonato Holandês. E tais esperanças foram consolidadas com um triunfo ainda mais importante: o 2 a 1 de virada, fora de casa, sobre o AZ, concorrente direto na disputa pela segunda posição da Eredivisie. Com esses resultados (mais o 3 a 1 sobre o Excelsior no meio), o time de Amsterdã se isolou como o grande adversário do PSV na busca do título. Ambiente acalmado, certo? Errado. Porque, no meio desta semana, uma inesperada eliminação na Copa da Holanda apressou algo que só se esperava para o final da temporada: a demissão do técnico Marcel Keizer.

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O mais curioso é que, apesar do anúncio da demissão ter surpreendido meio mundo na Holanda durante esta quinta, ela foi até compreensível. Afinal de contas, esperava-se que os Ajacieden tivessem aprendido a lição, já que o adversário nas oitavas de final da Copa da Holanda era conhecido: o Twente, que oferecera dificuldades no encontro pela Eredivisie (com 2 a 0 atrás, os Tukkers buscaram o empate, levaram o 3 a 2, mas tiveram disposição para ainda chegarem aos 3 a 3 nos acréscimos, pela 14ª rodada). E o Ajax, aparentemente, se livraria do incômodo adversário sem grandes problemas na quarta passada, graças ao belo gol de Justin Kluivert que abriu o placar no Grolsch Veste, em Enschede.

Aí entrou o erro de Marcel Keizer no jogo: com a vantagem mantida em relativa segurança, o técnico decidiu fazer duas alterações. A primeira estagnou o time, taticamente: foi tirado Frenkie de Jong, o jogador que vinha acertando o Ajax com sua transição fluida entre defesa e meio-campo, para a entrada de outro De Jong, o Siem, fixando mais a equipe no 4-3-3. A segunda foi para que os visitantes de Amsterdã meramente conservassem a vitória: a saída de Justin Kluivert, dando espaço ao lateral direito colombiano Luis Orejuela, mandando Joël Veltman para a zaga, junto a Matthijs de Ligt.

Mudança punida de modo cruel: nos acréscimos, o Twente empatou, com Oussama Assaidi. Na prorrogação, nem mesmo a expulsão de um jogador do time de Enschede (Thomas Lam, pelo segundo cartão amarelo) foi bem aproveitada pelo Ajax. O jogo foi para os pênaltis. Após um chute desperdiçado por cada time na série regulamentar de cinco cobranças, o zagueiro Peet Bijen acertou o segundo arremate do Twente nas alternadas, De Ligt mandou a bola por cima do gol na sua vez, e o Ajax estava fora da Copa da Holanda. O único grande eliminado, já que o PSV despachara o VVV-Venlo anteriormente naquela quarta, e o Feyenoord cumpriu seu objetivo contra o Heracles Almelo nesta quinta.

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Nem foi necessário esperar o Ajax deixar o estádio: as críticas amainadas com a melhora no Campeonato Holandês voltaram com toda a força. Começando pela autocrítica dos jogadores, fosse de Veltman (“Erramos completamente como um time, um jogo desses tem de ser resolvido logo”) ou de Ziyech (“Eu cobrei o pênalti de uma maneira escandalosa, fomos eliminados por minha causa”). E seguindo pela tentativa de Marcel Keizer para explicar as mudanças: “Precisávamos melhorar alguma coisa na defesa, foi má sorte”.

Ainda assim, os trabalhos começaram normalmente para a partida contra o Willem II, no próximo domingo, pela 18ª rodada (primeira do returno), no último jogo antes da pausa de inverno na Eredivisie e da consequente intertemporada em Portugal. Até a chamada de Marcel Keizer (e de toda a comissão técnica) para a reunião com o diretor de futebol Marc Overmars e o diretor geral Edwin van der Sar. Ali, Keizer foi comunicado de sua demissão. Mas ela não foi a única, nem a mais importante.

Também estavam demitidos o auxiliar Hennie Spijkerman e, principalmente, Dennis Bergkamp, o “diretor técnico não-oficial”, principal preocupado em fazer o Ajax jogar como seu ideário pede. A importância dessas demissões? Com elas, a dupla Overmars-Van der Sar mudava novamente de ideia, “consertando” tardiamente um erro que perturbou toda a preparação do Ajax para a temporada. Ao darem respaldo a Spijkerman e Bergkamp, mantiveram o “modo Ajax” de jogar e descontentaram Peter Bosz, que aceitou a proposta do Borussia Dortmund.

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Resultado: sob Marcel Keizer, promovido do Jong Ajax (o time B), a equipe esteve longe de ser regular. Teve média de gols pró maior do que com Bosz, verdade (3 gols por jogo, contra 2,3 com o antecessor), mas também aumentou a média de gols sofridos (0,9, contra 0,7 com Bosz). As eliminações nas fases preliminares de Liga dos Campeões e Liga Europa também prejudicaram muito. E no turno da Eredivisie desta temporada, o Ajax já perdera tantos jogos quanto em toda a temporada passada, sob Bosz: três derrotas, sendo duas em plena Amsterdam Arena. Estava difícil defender o trabalho, mesmo com o alívio das rodadas recentes. A eliminação na Copa da Holanda foi a gota d’água. E as demissões representavam a “mudança de ideia” da direção

Mesmo com a surpresa dos jogadores e com a irritação de Bergkamp (segundo a imprensa holandesa, o ex-atacante ficou irado, se considerando traído pelo antigo aliado Overmars), este momento perto da pausa era o ideal para uma demissão, se era para ela acontecer. Porém, o erro cometido no início dos campeonatos dificilmente será corrigido pelo Ajax. Obviamente, a volta de Peter Bosz virou o murmúrio unânime por quem acompanha futebol na Holanda – chegou-se até a falar que o técnico estivera na Amsterdam Arena, mas o boato foi prontamente desmentido pelo próprio. Além do mais, seriam necessárias muitas conversas entre o técnico e a dupla que manda no Ajax para que as mágoas fossem acertadas. Outras opções parecem menos prováveis: Ronald Koeman espera coisa maior, Frank de Boer ainda tem a passagem recente demais, e parece faltar o “DNA Ajax” em Dick Advocaat (sim, foi cogitado).

Sendo assim, o mais provável é que aconteça o que se falava, no começo de madrugada holandesa entre a quinta e esta sexta: o Ajax aproveitará a intertemporada para ir com tudo e tentar Erik ten Hag, ainda no Utrecht (para auxiliar Ten Hag, seria buscado Alfred Schreuder, auxiliar de Julian Nagelsmann no Hoffenheim). Se não der certo, o jeito será aceitar a manutenção de dois interinos conhecidos dentro de campo: Michael Reiziger, “aquele”, técnico da equipe B que por enquanto acumulará os trabalhos da equipe principal – bem como seu auxiliar, Winston Bogarde, outro “aquele”. E esperar que o destino seja menos amargo no resto de uma temporada que parecia tão promissora para o Ajax – mas que se mostra desastrosa, pelos desacertos dentro e fora de campo.