Marchisio comemora o primeiro gol da Itália

Itália 2×1 Inglaterra: O relógio foi mais importante que o termômetro na inflamada vitória da Azzurra

A CRÔNICA

Muito se especulou sobre o calor de Manaus. A Inglaterra não queria jogar na cidade. A Itália também demonstrou sua preocupação. E o primeiro confronto na Arena da Amazônia nesta Copa do Mundo foi quentíssimo. Nem tanto pelos 28ºC que os termômetros apontavam na capital do Amazonas, e sim pela partida memorável que as duas seleções fizeram. Nada que preocupava antes atrapalhou, seja gramado, umidade, distância ou desgaste. Italianos e ingleses justificaram todas as expectativas sobre seus times e suas camisas. O placar de 2 a 1 ficou até pequeno, por tudo o que as duas equipes jogaram. A balança, no entanto, acabou pesando para o lado da Azzurra.

A Itália até criou menos oportunidades que a Inglaterra. Valeu a maturidade na hora de decidir e de ditar o ritmo do jogo. Pois, mais importante que a temperatura de Manaus, foi o tempo. E os italianos souberam utilizá-lo muitíssimo bem, com ou sem a bola. Além disso, quem também fez a diferença a foi Salvatore Sirigu, que assumiu na véspera a missão de substituir Gianluigi Buffon e se saiu extremamente bem.

Os primeiros sinais de que Manaus receberia um jogaço vieram com segundos de bola rolando. A Inglaterra começou a impor um ritmo alucinante e a ameaçar a meta de Salvatore Sirigu. Em sua estreia em Copas do Mundo, Raheem Sterling demonstrou que não sentiria em nada a responsabilidade de encarar um tetracampeão mundial. Arriscou o chute de fora da área e fez muita gente achar que o petardo tinha entrado, estufando as redes pelo lado de fora. Um minuto depois, foi a vez de Henderson arrematar e exigir uma grande defesa de Sirigu.

O jogo seguiu em ritmos diferentes. Os ingleses tentavam acelerar com seus homens de frente rápidos, os seus volantes especialistas em bolas longas. Já a Itália cadenciava bem mais. Pirlo dominava o meio-campo como pouco jogadores na história conseguiram fazer, orquestrando o seu time e abrindo espaços para os companheiros. A partir dos 15 minutos, a Azzurra conseguiu frear o ímpeto dos Three Lions e a fazer seu jogo. Sofria menos com as deficiências de sua defesa e criava mais no ataque, com Balotelli, Candreva e Marchisio aparecendo bem.

Italianos comemoram gol de Marchisio contra a Inglaterra (AP Photo/Matt Dunham)

No entanto, a Itália só conseguiu balançar as redes justamente quando Pirlo não tocou na bola. E de propósito, em mais uma de suas genialidades. O corta-luz do craque deixou Marchisio livre na entrada da área, para arrematar no canto e vencer Joe Hart. Estava aberto o placar da partida sensacional. E se o jogo era lá e cá quando o placar estava zerado, manteve a tônica depois do primeiro gol. A resposta da Inglaterra veio somente dois minutos depois. Em um contra-ataque fulminante, Rooney apareceu como se espera e cruzou com precisão para Sturridge balançar as redes. Deixou claro também a fragilidade da defesa italiana.

O problema é que só o gol não aliviou os ingleses. E, mesmo tomando o empate, a Itália não sentiu o baque. Poderia ter saído com a vitória no intervalo, em dois lances sensacionais, já nos acréscimos. Balotelli recebeu um passe primoroso de Pirlo e teve seu espaço fechado por Hart. Mas como os grandes jogadores não se limitam ao simples, o atacante achou uma solução quando estava sem ângulo. Encobriu o goleiro, em um golaço que só não saiu porque Jagielka salvou em cima da linha. Logo depois, Candreva deu um lindo drible dentro da área e chutou rasante. Sua tentativa explodiu na trave.

Era uma prévia do que viria na segunda etapa. Se Balotelli e Candreva tiveram suas chances negadas, foram eles os protagonistas do gol que retomou a vantagem para a Azzurra. Candreva, muitíssimo bem no apoio pelo lado esquerdo, entortou Baines. Cruzou com carinho para Balotelli marcar de cabeça. Era o placar que Prandelli precisava para, definitivamente, impor o jogo à vontade de sua equipe, por mais que a Inglaterra viesse com sede pelo empate.

Sturridge toca para empatar o jogo entre Inglaterra e Itália em Manaus (AP Photo/Marcio Jose Sanchez)

A vitória parcial permitiu que a Itália se fechasse na defesa. Thiago Motta entrou no lugar de Marco Verratti, enquanto o 4-1-4-1 se transformou em um 4-5-1, bem mais sólido, para proteger as fragilidades da linha defensiva. A bola começava a ficar mais nos pés dos ingleses, que rondavam a área italiana, mas tinham extremas dificuldades para invadi-la. Chances, apenas em chutes de média e longa distância.

Roy Hodgson também tentou renovar as energias dos Three Lions ao colocar Ross Barkley, excelente na preparação ao Mundial. No primeiro lance, o jovem meia mostrou suas credenciais, em um chute cruzado. Parou em uma defesaça de Sirigu. E a partida continuou assim, transformada. A Itália vivia dos contra-ataques, da rapidez. A Inglaterra tinha a bola, o tempo. Mas não queria tê-los, como seus adversários fizeram no primeiro tempo. Precisavam do gol, e imediatamente.

A muralha azul não deixou. E essa muralha pode ser entendida tanto como as duas linhas de marcação intransponíveis quanto por Sirigu, que salvou o time outra vez após falta de Baines. Por fim, em uma Copa na qual os gols nos acréscimos têm saído aos montes, a Itália quase ampliou a diferença. Falta na intermediária, Pirlo na bola. O capitão deu um efeito inacreditável na bola, enganando Hart. Por um capricho, a Brazuca explodiu no travessão. Não atrapalhou a vitória, mas impediu outro gol espetacular.

A Itália conquistou um resultado fundamental no aclamado ‘Grupo da Morte’. Se vencer a Costa Rica na próxima rodada, está praticamente classificada, embora a atuação dos Ticos contra o Uruguai já tenha deixado claro que eles não estão mortos. Em compensação, a Inglaterra terá uma verdadeira decisão contra a Celeste em São Paulo. A derrota será fatal para qualquer um dos dois lados. Se a chave impressionava pela força dos times no papel e pelo peso das duas camisas, o jogaço de Manaus só prova que as impressões eram reais.

Verratti e Balotelli comemoram gol da Itália sobre a Inglaterra (AP Photo/Martin Mejia)

Ficha técnica

Inglaterra 2×1 Itália

Inglaterra
Joe Hart, Glen Johnson, Gary Cahill, Phil Jagielka e Leighton Baines; Jordan Henderson (Jack Wilshere, 28’/2T), e Steven Gerrard; Danny Welbeck (Ross Barkley, 16’/2T), Raheem Sterling e Wayne Rooney; Daniel Sturridge (Adam Lallana, 35’/2T). Técnico: Roy Hodgson.

Itália
Salvatore Sirigu, Matteo Darmian, Andrea Barzagli, Gabriel Paletta e Giorgio Chiellini; Daniele De Rossi; Antonio Candreva (Marco Parolo, 34’/2T), Marco Verratti (Thiago Motta, 12’/2T), Andrea Pirlo e Claudio Marchisio; Mario Balotelli (Ciro Immobile, 35’/2T). Técnico: Cesare Prandelli.

Local: Arena da Amazônia, em Manaus
Árbitro: Björn Kuipers (HOL)
Gols: Claudio Marchisio, 35’/1T; Daniel Sturridge, 37’/1T; Mario Balotelli, 5’/2T.
Cartões amarelos: Nenhum
Cartões vermelhos: Nenhum

OS GOLS

35’/1T – GOL DA ITÁLIA! Cobrança de escanteio curto pelo lado direito do ataque. Verratti recebe no bico da grande área e rola. Pirlo dá um corta-luz magistral e Marchisio finaliza rasteiro, no cantinho. Sem chances para Joe Hart.

37’/1T – GOL DA INGLATERRA! A resposta inglesa foi imediata. Sterling descolou excelente passe para Rooney, em velocidade pela ponta esquerda. Com a defesa italiana fora de posição, o camisa 10 cruzou para Sturridge completar para as redes. Paletta não o acompanhou.

5’/2T – GOL DA ITÁLIA! Excelente jogada de Antonio Candreva pelo lado direito do ataque. O meia deu uma linda finta em Baines, antes de cruzar com perfeição para Balotelli. Cahill não marcou o centroavante, que cabeceou firme para retomar a vantagem.

O CARA

Salvatore Sirigu. Substituir um grande goleiro não é fácil. Ainda mais quando o camisa 1 em questão é Gianluigi Buffon, um dos maiores da história em sua posição. Sirigu segurou a bomba e se saiu perfeitamente bem. Apesar dos rumores de que ele seria sacado do jogo, por conta dos problemas físicos que quase o tiraram da Copa, o camisa 12 entrou em campo. E, pela elasticidade demonstrada, não deu nenhum sinal de contusão. Foram três grandes defesas em chutes fortes, de longe, além de muita segurança nas saídas do gol. Garantiu a vitória imprescindível para a Itália.

A TÁTICA

Inglaterra x Itália

A seleção inglesa veio com uma formação apostando na velocidade de seus jogadores. O 4-2-3-1 montado por Roy Hodgson contava com Sterling na faixa central, para ter liberdade e apoiar os dois lados do campo. A própria forma direta como o time jogava, deixava bem clara essa opção. Já Cesare Prandelli optou pelo 4-1-4-1, recheando o meio-campo com jogadores técnicos. Pirlo e Verratti ditavam o ritmo pela faixa central, com Candreva e Marchisio apoiando pelos lados. Já no ataque, Balotelli estava livre para se movimentar.

A ESTATÍSTICA

31 contra 19

Foram 31 finalizações na partida em Manaus, 18 da Inglaterra e 13 da Itália. Além disso, só 19 faltas, sendo 11 delas da Azzurra. Se o jogo foi tão bom, os dois números são bastante significativos. Afinal, nenhum outro dos sete desta Copa teve mais chutes ou menos infrações. Partida com muita bola rolando e várias chances de gol, ótimo para o espetáculo. Além disso, o árbitro Björn Kuipers não distribuiu nenhum cartão.