A Itália venceu Israel por 1 a 0 nesta terça, resultado que garantiu o time na repescagem da Copa do Mundo. Ainda há chance dos italianos tomarem o primeiro lugar da Espanha, mas realisticamente, a Azzurra terá que disputar uma vaga na repescagem. Assim como aconteceu na época do sorteio, o presidente da Federação Italiana (FIGC), Carlo Tavecchio, reclamou dos critérios do sorteio e afirmou que é preciso dar mais peso à história – ele se refere aos quatro títulos mundiais que a Itália tem no currículo. Os critérios que definem os cabeças de chave das Eliminatórias e da Copa do Mundo mudaram nas últimas edições e é uma discussão bastante válida, pensando no sorteio que acontece em dezembro e, como alguns dizem com razão, é um dos pontos mais importantes da Copa.

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“A ideia de não se classificar à Copa do Mundo de 2018 seria um apocalipse”, afirmou o dirigente. “Eu falei com Infantino sobre revisar o sistema de classificação. Não é certo que não levem em conta os quatro títulos mundiais, vai contra a história”, disse ainda Tavecchio. “A Fifa irá trabalhar nisso em breve”, continuou o italiano. Ele já tinha reclamado quando o sorteio colocou Espanha e Itália no mesmo grupo.

“Quando o sorteio foi feito, nós sabíamos que estar com a Espanha significava a possibilidade que nós não nos classificaríamos direto”, afirmou Ventura, técnico da Itália. “Eu ainda tenha certeza que iremos nos classificar para a Copa do Mundo e não estamos pensando no apocalipse, como disse Tavecchio”.

A reclamação, embora soe oportunista diante do cenário que a Itália vive, é relevante. O critério usado para o sorteio foi o ranking da Fifa daquele momento. É o mesmo critério que a Fifa passou a adotar para sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Os cabeças de chave são os sete países mais bem ranqueados e mais o país sede. Por isso, foram cabeças de chave do sorteio em julho de 2015 as seguintes seleções (com sua posição no ranking da Fifa entre parênteses): Alemanha (2), Bélgica (3), Holanda (5), Portugal (7), Romênia (8), Inglaterra (9), Gales (10), Espanha (12) e Croácia (14). Com isso, a Itália ficou no segundo pote do sorteio, assim como a França.

Talvez o que seja necessário é aprimorar o critério do ranking da Fifa, que deixa um aspecto um tanto efêmero. Os times que são sede de um torneio, como foi o caso da França em 2016 com a Eurocopa, ficam fora das Eliminatórias. Com isso, somam menos pontos no ranking porque amistosos têm um peso menor. Isso influencia diretamente no ranking e, assim, nas chances das seleções irem à Copa. A Itália e a França devem ir à Copa, se não acontecer uma zebra. Mas o ponto é pertinente, inclusive pensando que o ranking será usado para o sorteio da Copa do Mundo também.

O ranking da Fifa já foi muito pior do que é atualmente. Os critérios melhoraram, mas ainda parecem insuficientes para determinar a posição dos países de forma mais realista. Usando a última edição do ranking, de 10 de agosto, por exemplo, vemos que a Copa do Mundo teria os seguintes cabeças de chave, se o sorteio fosse hoje (e considerando que as seleções netas posições estarão na Rússia): Brasil, Alemanha, Argentina, Suíça, Polônia, Portugal e Chile, além, claro, da própria Rússia. Será que o ranking reflete como deveria o atual cenário do futebol, a ponto de estas seleções serem cabeças de chave do sorteio? Difícil concordar.

Por isso, talvez a reclamação de Tavecchio deva mesmo ser levada em consideração. Não por ser o Tavecchio, ou a Itália, mas por ser relevante. Do ponto de vista futebolístico, os resultados das Eliminatórias podem levar a distorção das forças das seleções. A Polônia, por exemplo, sequer conseguiu classificar-se para as Copas de 2010 e 2014. A Suíça é uma seleção de segundo escalão, ainda que faça uma campanha irrepreensível nas Eliminatórias. França e Espanha tiveram participações muito mais relevantes nestes mundiais, mas estão em 10º e 11º no ranking, respectivamente.

Talvez falte ao ranking da Fifa um critério que já foi usado para determinar os cabeças de chave em outras Copas do Mundo. Em 1998, eram levados em conta o desempenho dos países nas três últimas Copas, sendo a mais recente com peso 3, a próxima com peso 2 e a seguinte com peso 1. A média compõe uma pontuação, que representa 60% da pontuação final. O ranking da Fifa atual e dos dois últimos anos, sempre de dezembro, tem peso igual e a média representa os outros 40% da pontuação (se quiser ver mais detalhes, veja aqui) .

O critério acima valeu até a Copa de 2006. Para 2010, passou a ser usado o ranking da Fifa, puro e simples. Inclusive a mudança deixou a sensação que foi feita apenas para prejudicar a França, que tinha se classificado com um gol polêmico sobre a Irlanda, na repescagem. Em vez de usar o ranking mais recente, de novembro – que teria a França como uma das sete melhores e, portanto, cabeça de chave –, a entidade usou o ranking de outubro. Usou como justificativa que justamente as equipes que disputaram a repescagem teriam pontos adicionais, e portanto, foi descartado. O critério foi repetido para 2014, pela mesma justificativa.

Chegaremos em dezembro para o sorteio da Copa do Mundo de 2018 e, mantido o critério, é bem possível termos Suíça ou Polônia como cabeças de chave do Mundial. A Bélgica, que não jogava Copa desde 2002 e não chegou nem à Eurocopa de 2012, foi cabeça de chave em 2014. Talvez fosse melhor, sim, dar um pouco mais de peso à história quando se fala em rankings e, especialmente, em sorteios da Eliminatórias e Copas do Mundo. Não que necessariamente o critério precise ser como era o anterior. Pode se desenhar  um novo. O importante é que seja uma questão debatida. O peso da história, mesmo que seja a história das três últimas Copas, pode ser útil para evitar distorções. Mesmo que elas acabem acontecendo, seja qual for o critério, mas ao menos evita algo como o que pode acontecer com o atual critério.