“Nos próximos anos, temos o PAC e a Copa do Mundo. São dois processos que trarão ao País um volume de obras espetacular. Nesse cenário, não dá para ser artesanal. Já estamos em dia com as melhores técnicas construtivas, mas teremos um novo impulso para buscar ainda mais racionalidade, qualidade e velocidade. Temos de ir lá fora, obter informações sobre as obras que são referências em suas áreas – como estádios – e avaliar como podemos implementar esse conhecimento na realidade brasileira.”

Esse foi Paulo Safady Simão, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, em 2007, assim que o Brasil foi oficializado como sede da Copa do Mundo de 2014. Era um pensamento recorrente, ainda mais porque a indústria da construção, impulsionada pelo crescimento econômico do País, vivia um enorme crescimento, a ponto de sentir falta de mão-de-obra qualificada e de fornecedores de material em alguns momento. Seis anos depois, vimos que a Copa do Mundo não deixou tal legado.

Não fomos capazes de fazer uma Copa sem mortes.

As mortes e a rotina

O acidente desta quarta no Itaquerão foi a maior tragédia das obras do Mundial. A queda de uma peça da estrutura da cobertura durante seu içamento provocou a morte de dois trabalhadores. Eles se juntam às vítimas fatais registradas nas obras do estádio Mané Garrincha (Brasília) e na Arena Amazônia (Manaus). Se formos estender a análise para outros grandes estádios construídos recentemente no Brasil, há mais duas mortes de operários, um na Arena do Grêmio (Porto Alegre) e outro no Allianz Parque (São Paulo), do Palmeiras. Além das mortes, outros graves acidentes ocorreram nos estádios e poderiam ter matado alguém, como elenca o site Superesporte.

Os problemas não se limitam às obras de estádios. Um estudo do Dieese mostra a participação da construção civil no total de mortes no trabalho pelo país entre 2009 e 2011. Praticamente não houve mudança. Foi de 16% do total de mortes no trabalho em 2009 para 17% em 2011. Não piorou, é verdade, mas tampouco melhorou. Não houve a evolução que as lideranças do setor esperavam. Isoladamente, a construção civil é o setor da economia em que as pessoas mais morrem.

Lá fora

Esse cenário é bem diferente do último grande evento esportivo. Em 2012, a União dos Trabalhadores da Indústria da Construção do Reino Unido divulgou um relatório em que atestava que os Jogos Olímpicos de Londres seriam os primeiros sem nenhuma fatalidade durante suas obras. Mesmo para os padrões ingleses era uma notícia relevante, pois um operário havia morrido na construção do novo Wembley. Os procedimentos adotados nos canteiros olímpicos viraram uma cartilha com lições que poderiam ser usadas em todas as obras britânicas.

Obras do estádio Olímpico de Londres

Obras do estádio Olímpico de Londres

Se voltarmos mais dois anos, vamos encontrar a África do Sul, um país em situação social e tecnológica pior que o Brasil também precisando de muitas obras para organizar uma Copa do Mundo diante de atrasos, greves de trabalhadores e questionamentos internos e externos. Foram apenas dois operários mortos, um no estádio Green Point (Cidade do Cabo) e outro no Peter Mokaba (Polokwane).

O que os sul-africanos fizeram? Na época do Mundial de 2010, Danny Quan, diretor de desenvolvimento de negócios da Grinaker-LTA (construtora responsável pelas obras dos estádios Soccer City, Orlando e Nelson Mandela Bay), contou à revista Construção Mercado que foram pedir ajuda a três empresas alemãs que já havia trabalhado com grandes obras de estádios. “Elas têm excelente conhecimento e compreensão das exigências de projeto e execução para esse evento. Foram de grande ajuda em assumir algumas das partes mais complexas do projeto, como cobertura, construção do gramado, gerenciamento de acessos, distribuição de setores e prevenção de desastres.”

Isso não significa necessariamente que as construtoras brasileiras deveriam ter contratado empresas estrangeiras para gerenciar os trabalhos. Mas o investimento em segurança poderia ser maior que o usual. Infelizmente, boas práticas na construção civil nem sempre são a regra – e em um setor acostumado a lidar com valores que começam no milhão e vão até onde o bolso alcança.

Legado
Obras do Itaquerão após acidente que matou dois trabalhadores (AP Photo/Nelson Antoine)

Obras do Itaquerão após acidente que matou dois trabalhadores (AP Photo/Nelson Antoine)

O tal legado brasileiro se aproxima ao de outros países emergentes que muitas vezes olhamos, daqui do Brasil, como exemplos a não seguir. Não pelos números absolutos, porque os brasileiros ainda são melhores, mas por não fazer como ingleses e sul-africanos e aproveitar os milhões destinados a cada construção da Copa do Mundo para melhorar o cenário nos canteiros do País.

As obras da Copa de 2018, na Rússia, já têm dois mortos. A Euro 2012, somando os acidentes nos estádios de Polônia e Ucrânia, tirou a vida de 20 operários, o dobro de China na Olimpíada de 2008 e seis a mais que Atenas nos Jogos de 2004. E há uma série de contestações de fontes independentes em relação aos números oficiais chineses e gregos. A exceção são as obras do estádio Levi’s, em São Francisco. A futura casa do San Francisco 49ers, da NFL, já vitimou dois operários.

Obs.: não mencionamos o Catar porque é um caso absurdamente fora da curva. Há acusações de trabalho escravo e de que 70 trabalhadores nepaleses teriam morrido nas construções visando a Copa de 2022. O Brasil ainda não chegou nesse nível. Ainda bem.

As causas do acidente no Itaquerão ainda serão averiguadas. A partir daí pode-se cobrar punições aos responsáveis e avaliar o real prejuízo ao andamento das obras do estádio. De qualquer modo, o saldo nas obras do Mundial já é negativo. A Copa nem começou, mas esse legado o Brasil já perdeu.