Antes da 27ª rodada do Campeonato Holandês recém-encerrado, o Feyenoord vivia tempos de crise. Perdera o clássico contra o Ajax na rodada anterior, acumulava três jogos sem vitória, soubera naquela semana que Ronald Koeman não renovaria contrato ao final da temporada. Mas o técnico decidiu surpreender para tirar o Stadionclub da má fase: escalou a equipe num 5-3-2 bem cuidadoso contra o Groningen. Deu certo. O time fez 2 a 0 fora de casa. E engatou uma sequência de oito jogos invictos, com sete vitórias e um empate, chegando ao vice-campeonato nacional – e ganhando lugar na terceira fase preliminar da Liga dos Campeões.

Corta para a última quarta-feira, no centro de treinamentos de Hoenderloo, onde começaram a treinar os 20 jogadores que atuam na Eredivisie e foram chamados por Louis van Gaal na pré-convocação para a Copa do Mundo (os que atuam no exterior serão chamados em 13 de maio, o prazo final dado pela Fifa). Começaram a treinar, e deram entrevistas nesta quinta-feira. Numa delas, o zagueiro Joël Veltman deu uma importante indicação. Ao site da KNVB, a federação holandesa, o jogador do Ajax comentou: “Vamos experimentar uma formação mais defensiva. E talvez também joguemos com ela”.

Bastou para que absolutamente toda a imprensa e a torcida holandesa comentassem a grande possibilidade de que Van Gaal passasse a escalar a Oranje num 5-3-2, assimilando o exemplo deixado por Koeman no Feyenoord. E o técnico da equipe de Roterdã já até foi chamado pela revista Voetbal International, elogiando a iniciativa do treinador da seleção: “Com esse sistema, você traz mais segurança defensiva ao time, enquanto também pode tomar a iniciativa ofensiva. Acho que Van Gaal deve ter pensado nisso. Todos sabem que a Holanda caiu num grupo difícil, e a classificação não virá facilmente. Por isso, esse sistema pode ser a chave do sucesso”.

E talvez o ex-zagueiro (que auxiliou Van Gaal na primeira passagem deste pelo Barcelona) esteja certo. Ainda retumba forte na Holanda a sacudidela que a péssima atuação no amistoso contra a França deu nas esperanças para a Copa. E a perda de Strootman completou a sensação de que era altamente necessário cuidar da defesa, antes que as piores expectativas fossem confirmadas. Em suma: a Holanda não poderia se entregar sem luta.

Dos 20 jogadores chamados até agora, dá para supor que não será tão difícil escolher. Claro, nenhum deles é acima de qualquer suspeita. Tanto é que na Holanda chama-se a defesa da seleção de “de linie van de armoede” (a linha da pobreza), tal o desalento com as opções. Mas De Vrij, Veltman, Martins Indi, Rekik e Kongolo são os melhores que se apresentam.

Inclusive, Kongolo (a grande surpresa do setor, já que é reserva no Feyenoord) recebe até apostas de alguns destaques da imprensa holandesa. Como o narrador Arno Vermeulen, titular da NOS, a maior emissora de tevê do país: “Ele pode ser uma surpresa, mas deixou boa impressão em todas as vezes que jogou. É rápido, tem porte físico, não é pequeno, todas as características que um defensor moderno precisa ter. Pode não ter experiência, mas os outros também não têm”.

No entanto, nem só de cinco defensores se faz um esquema defensivo. A questão será também oferecer jogadores capazes de evitar que tudo estoure na defesa, sem esquecerem as funções ofensivas tão caras ao gosto holandês. Aí, talvez a lateral direita seja um problema: Janmaat é um jogador predominantemente defensivo. Talvez até a esquerda tenha problemas, já que Daley Blind (eleito o melhor jogador da Eredivisie 2013/14 – para a coluna, injustamente) confessou preferir sua escalação no meio: “Eu me desenvolvi bem nessa posição, e gostaria de me ver lá”.

Talvez os jogadores escolhidos para o meio-campo por Van Gaal ajudem nessa necessidade de criar ofensivamente. Primeiramente, há Georginio Wijnaldum, que recebeu mais uma aposta, embora venha de temporada discreta no PSV. Há Jordy Clasie, um dos grandes responsáveis pela boa campanha do Feyenoord no Holandês. E Marco van Ginkel, que teve uma trajetória promissora parada por grave lesão no joelho, ganhou novas esperanças: mesmo só tendo voltado aos campos recentemente, foi chamado por Van Gaal para repor a vaga aberta com o corte de Locadia, atacante do PSV, lesionado na virilha. Sem contar Van der Vaart, nome certo entre os que virão de outros países.

Por enquanto, resta a Van Gaal continuar treinando os jogadores até o dia 17, data do amistoso contra o Equador, em Amsterdã – aí, já com aqueles que atuam em outros países. E continuar preparando a possibilidade crescente de ter mais cuidados com a defesa.